segunda-feira, 4 de agosto de 2014

FOCUS

NOTA 8,0

Longa mostra o quão assustadora
era a perseguição a judeus na
década de 1940 e um simples detalhe
visual poderia condenar alguém à morte
É impressionante, mas quando parece que não há mais o que ser explorado acerca do período da Segunda Guerra Mundial, incluindo fatos da fase pré e pós-conflitos, sempre surge alguma nova história para elucidar um pouco mais sobre este triste episódio. É claro que as mais lembradas são aquelas que concentram ações nos campos de batalha ou que vão fundo nas questões acerca do nazismo, mas imagine quantas milhares de histórias interessantes e impactantes aconteceram e ninguém ficou sabendo. É uma pena que as memórias vivas da época já não estão mais entre nós, contudo, o cinema assume um papel tão importante quanto os livros para manter ativos tais registros e quem sabe até produzir novos documentos. Não eram apenas as pessoas que estavam em meio ao furor do fogo cruzado que corriam riscos, mas até quem estava quietinho dentro de casa e a muitos quilômetros de distância também podia sofrer com respingos desta onda de violência e intolerância. O drama Focus fala justamente sobre esse período de medos, ódio e insegurança de não saber se estaria vivo no dia seguinte. Baseado no livro homônimo de Arthur Miller, a trama roteirizada por Kendrew Lascelles se passa em Nova York em meados da década de 1940. Lawrence Newman (William H. Macy) é um homem maduro, introspectivo, inseguro e defensor de convenções. Sem esposa, filhos ou amigos, sua rotina se resume a ida ao trabalho e a volta para casa onde vive com sua idosa mãe (Kay Hawtrey). Comprovando que sua vida sem graça pode ter algo a ver com problemas na infância, as primeiras cenas do filme mostram um carrossel que gira rapidamente até que o protagonista acorda assustado e suando. O sonho na verdade é um pesadelo corriqueiro e que o faz se levantar. De poucas palavras, mas muito observador, do alto da janela de seu quarto ele passa a admirar um casal aparentemente se divertindo na rua, provavelmente matando sua curiosidade já que o amor carnal não parece fazer parte do seu universo. De repente, o homem e a mulher passam a agir estranhamente, como se ele quisesse forçá-la ao sexo, mas a visão fica comprometida por conta de um carro estacionado. Ao invés de prestar socorro ou chamar a polícia, Newman restringe-se a voltar para a cama, mesmo estando inquieto emocionalmente. No dia seguinte fica sabendo pelo vizinho Fred (Meat Loaf Aday) que a mulher estava acompanhada de outro morador da rua, ambos embriagados, mas que nada demais aconteceu.

Mais adiante tal episódio será de grande relevância, mas é provável que juntando algumas peças muitos descubram de antemão a ligação deste fato com outras pequenas citações aparentemente sem importância, mas que culminarão em um verdadeiro pesadelo para o protagonista. Fred comenta que Finkelstein (David Paymer), um judeu que tem um pequeno comércio no bairro, está prestes a trazer parentes para morar na casa ao lado da sua loja e preconceituosamente sentencia que logo os negros também invadirão a área. Os vizinhos estão se articulando para encontrarem uma forma de expulsar os hereges, mas o próprio Newman vai ficar na mira desse complô simplesmente por causa de um par de óculos. Parece ridículo, mas é isso mesmo. Há vinte anos atuando no departamento pessoal de uma grande empresa, é por conta de uma distração que o fez recrutar uma judia que ele decide ir cuidar da visão para não perder o emprego. Dias depois mais uma candidata de mesma origem vai tentar a vaga de datilógrafa. Apesar do extravagante modo de se vestir e agir, Gertrude Hart (Laura Dern) parecia perfeita para a função, mas o medo que seu sobrenome ocultasse a origem judia faz com que Newman a dispense. Furiosa, ela ralha na hora e é a primeira a confundir este homem com um judeu apenas por causa dos óculos com lentes garrafais. Horas depois, ele fica sabendo que terá que trocar de sala e de função com um funcionário com apenas cinco anos de casa e a alegação é que o veterano não causa boa impressão a quem visita o escritório. Até a mãe dele afirma que com os óculos ele parece um judeu e isso se torna um empecilho para encontrar um novo emprego cujas vagas são oferecidas tendo como principal recomendação o candidato ser cristão. Depois de semanas, ele encontra trabalho em uma empresa cujo dono é judeu e abre suas portas para os “diferentes”, coincidentemente reencontrando Gertrude com quem acaba se relacionando e finalmente decidindo se casar. Diante do antissemitismo que assola a sociedade americana, Newman não se une aos grupos de conspiração, mas também não defende as vítimas. Contudo, a falta de participação ativa nos esforços para afastar Finkelstein da vizinhança acaba levantando suspeitas. Se antes os vizinhos o rotularem como judeu apenas por conta dos óculos soava como uma piada sem graça, chega um ponto que a situação se agrava e sua relativa benevolência com o comerciante é o bastante para gerar atritos, principalmente depois do casamento já que existem suspeitas de que Gertrudes também é uma herege.

Cumprimentos mais secos, olhares desconfiados e a lata de lixo constantemente derrubada no quintal são apenas algumas das provações as quais Newman e a esposa vão passar, mas não tarda para que atitudes violentas comecem a amedrontá-los. O longa mostra uma realidade apavorante e apesar de ser classificado como um drama a narrativa segue em um clima de tensão crescente e apavorante. Miller escreveu o romance em pleno calor das emoções, em meados de 1944, cerca de um ano antes do fim da guerra, talvez por isso a narrativa seja tão instigante e crível e o diretor Neal Slavin quis transmitir as mesmas sensações na adaptação cinematográfica, um projeto que ele deseja concretizar desde os tempos em que cursava o colegial e teve contato com a obra. Além da impecável reconstituição de época, tanto visual quanto no contexto, Focus tem o mérito de abordar uma temática difícil com maturidade e relativa sofisticação. Poucas vezes uma pressão psicológica foi tão perturbadora, talvez uma experiência tão impactante quanto ver uma cena de violência explícita. Aliás, em uma das sequências mais fortes, Finkelstein é cercado e atacado por antissemitas e tenta desesperadamente convencê-los de que os bárbaros no conflito eram eles mesmos que compravam uma guerra sem saber direito o porquê. Na verdade são artimanhas políticas que induzem populares a se rebelarem contra minorias, requentando preconceitos seculares, uma forma de enaltecer a esfera do poder angariando novos aliados que prezam a “pureza” da sociedade ou simplesmente desculpas para desviar a atenção das pessoas e assim não percebem as sujeiras políticas. Quem teria cabeça para pensar nos milhares de mortos e feridos em campos de batalha quando se tem uma guerra a ser vencida em seu próprio bairro? Newman não compra tal briga. Só defende uma posição mais concreta quando se torna alvo e também por conta de um segredo da esposa que fica sabendo tardiamente. Macy e Dern, geralmente condicionados a personagens secundários, sem dúvidas têm aqui suas melhores atuações e se saem muito melhor que alguns protagonistas tarimbados. Coincidentemente, ambos têm reconhecimento do grande público por atuações nos filmes da série Jurassic Park, mas nada que se compare ao trabalho que apresentam nesta obra dotada de um clima irresistivelmente nostálgico. Parece realmente um daqueles filmes noir dos anos 40, mas na verdade é uma pequena joia do cinema do século 21. Era de se esperar que fosse um sucesso de crítica, mas a recepção morna dos especialistas privou o título de divulgações nas principais premiações e a obra foi condenada ao ostracismo de imediato. Aproveitando o ensejo, algo tão injusto quanto a perseguição aos judeus.

Drama - 107 min - 2001

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