sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

GUERRA DOS MUNDOS (2005)

NOTA 9,0

Spielberg atualiza texto clássico
que coloca os humanos na mira de
uma ameaça devastadora, uma
alegoria que ainda faz sentido
O público tem realmente um comportamento bastante estranho. Rejeitam muitas vezes a assistir a um clássico, mesmo ele tendo passado por uma minuciosa revisão tanto em sua parte sonora quanto visual. Em contrapartida, ficam em êxtase quando algumas abobrinhas são lançadas com a publicidade de serem carregadas de efeitos especiais de ponta e um fiapo de roteiro. Quando alguém levanta a ideia de fazer uma refilmagem certamente deve ter em mente estes dois pontos. Para resgatar boas histórias, uma saída é atualizá-las e ter o auxílio das mais avançadas ferramentas tecnológicas disponíveis na época, isso se o argumento permitir. Portanto, até hoje é um pouco espantoso perceber as críticas divergentes que recebeu, e provavelmente ainda recebe, a versão de Steven Spielberg para o clássico da ficção científica Guerra dos Mundos, um projeto ambicioso que aguçou a vontade do público com trailers impactantes e repetidos a exaustão meses antes da estreia. O resultado foram salas de exibição lotadas durante meses, porém, críticas negativas pipocando na mesma proporção, algo que se estendeu até o lançamento do DVD. Longe do clima de expectativa daqueles tempos, hoje talvez seja possível fazer uma análise mais correta. A trama roteirizada por David Koepp coloca o astro Tom Cruise, repetindo a parceria com Spielberg após outra ficção, Minority Report – A Nova Lei, já um ponto de chamariz de público, em meio a um verdadeiro caos de emoções. Ele vive Ray Ferrier, um homem divorciado que jamais teve um bom relacionamento com os filhos, o adolescente revoltado Robbie (Justin Chatwin) e a pequena, esperta e mimada Rachel (Dakota Fanning), mas de repente se vê obrigado a cuidar deles por alguns dias. O problema é que além das provocações dos rebentos que o fazem refletir sobre seu comportamento, um fator externo também ocorre para mudar para sempre a vida deste homem. Após estranhos tremores de terra, ventanias e barulhos ensurdecedores, Ray presencia um evento de deixar qualquer um boquiaberto. O chão se rompe abruptamente e de dentro dele surge uma gigantesca máquina de guerra que se equilibra sob um tipo de tripé, algo jamais visto e que tem o poder de paralisar objetos, como carros e relógios, e destruir tudo que possa estar em seu caminho. E essa estranha aparição não é a única do tipo. Espalhadas por vários locais estas máquinas comandadas por extraterrestres estão promovendo um verdadeiro massacre, um plano que ao que tudo indica há anos já vinha sendo implantado nos subsolos do planeta Terra sem que os humanos tomassem conhecimento. A partir de então a narrativa segue um caminho que alinhava todos os clichês possíveis de filmes envolvendo violentos extraterrestres e só resta ao espectador se deslumbrar com os efeitos especiais e tentar adivinhar quem será o próximo coitado a ser exterminado. Será mesmo? Com um elenco reduzido as coisas tomam outro rumo e bem mais interessante.

Um ponto a favor da trama é que desta vez os EUA, em seu sentido político e histórico, não são o centro da trama como normalmente são apresentados (entenda-se como os salvadores da pátria) em longas que abordam catástrofes. Spielberg se prende a um pequeno núcleo familiar para retratar o caos e o desespero de uma situação que inerentemente levaria ao fim do mundo. Essa aproximação do universo dos personagens é uma obsessão na filmografia do cineasta, mas neste caso ele não se estende na introdução, preferindo partir logo para o que interessa e pouco a pouco aprofundar-se na relação de Ray com seus filhos, fazendo valer a máxima de que há males que vem para o bem. Graças aos eventos aterrorizantes que passam a vivenciar na peregrinação que iniciam até chegar a uma região interiorana que seria um dos poucos lugares a salvo em solo americano é que os três protagonistas compreendem os laços que os unem. Cruise deixa o desleixo inicial de seu personagem para vestir a carapuça de herói, mas sem aquele clichê de salvar a humanidade. Aqui é cada um pelos seus entes queridos e olhe lá. Se um ou outro conseguir uma mão estendida é porque o destino lhe foi generoso. Nesse ponto é que o filme mostra seu potencial de verdade. Se para grande parte do público este projeto não é nada mais que um passatempo lotado de efeitos especiais (de qualidade e bem usufruídos fique claro) e altas doses de tensão e adrenalina, algumas poucas pessoas conseguem enxergar potencial dramático em meio a correria, gritarias e destruição. Os conflitos da família Ferrier podem parecer insignificantes diante do mundo em colapso, mas o longa jamais abandona tal viés, podendo assim o trio de protagonistas desenvolver seus personagens de forma convincente, sendo que a então pequena notável Fanning rouba a cena deixando cair a máscara de pré-adolescente antipática que vestia no começo para permitir aflorar em si a inocência e os medos pertinentes a qualquer criança que não pensa duas vezes antes de chorar, gritar ou falar o que lhe vem a cabeça. Em determinado momento ela indaga, por exemplo, se os tripodes, as tais máquinas que emergiram do solo, são os terroristas, uma clara alusão ao pânico e a paranóia que ameaçava e ainda amedronta o povo americano após os ataques de 11 de setembro de 2001. Aliás, boa parte das cenas mais tensas inevitavelmente nos faz recordar este fatídico e histórico dia. Todavia, mais impactante que os ataques provenientes de forças desconhecidas é constatar que o ser humano pode ser o seu maior inimigo. As pessoas passam a se agredir entre si e até mesmo a matar em prol de uma chance de escaparem com vida, mas tudo isso é em vão, afinal todos estão no mesmo barco. Bem, é lógico que existe uma manobra narrativa para agregar ainda mais discórdia ao conflito e os Ferriers curiosamente são os únicos que conseguem um carro que funcione e obviamente não chegarão ao destino final com a ajuda dele. Mais a frente o ator Tim Robbins entra em cena como Ogilvy, um personagem ambíguo para acentuar a mensagem de que no calor da emoção a razão cede espaço a loucura.

Apreciando com olhos mais atentos, dá para perceber que boa parte das críticas negativas que o longa recebe não tem validade ou ao menos possuem justificativas plausíveis por parte do diretor e sua equipe. Antes do lançamento Spielberg já havia afirmado que retrataria a vulnerabilidade a que os seres humanos em geral estão expostos, principalmente mediante a ameaças de proporções descomunais, trazendo certo aspecto documental a obra, mas não abdicaria de alguns clichês hollywoodianos que na realidade serviriam como uma espécie de reforço de valores e respeito ao público. Embora o desfecho já seja revelado em diversas críticas e conhecido por muitos, não é de bom tom exterminar o aspecto surpresa da obra para aqueles que ainda não a assistiram por falta de oportunidade ou influenciados por comentários negativos. Todavia, é bom prevenir que o cineasta evitou ao máximo chocar os espectadores, por isso preferiu sugerir certas coisas ao invés de escancará-las em detalhes visuais e, dependendo do ponto de vista, jogar um balde de água fria nos minutos finais para apagar o incêndio que alimentava até então. Só para citar um dos exemplos do pudor do diretor, não espere ver corpos ensaguentados ou consumidos pelo fogo, simplesmente eles são desintegrados nos ataques e suas roupas voam pelos ares trazendo um tom poético à catástrofe. Spielberg também opta por manter sua história em uma mesma região, não sendo apresentados ataques em outros países, o que colabora para que novamente a obra caia no olho do furacão. Contudo, fica claro que fora uma ou outra informação através da TV ou de algum personagem com passagem relâmpago pela trama, tudo o que sabemos sobre esta guerra é do ponto de vista dos protagonistas, inclusive várias cenas são apresentadas como se fosse por suas óticas, o que dá um ar mais realístico a trama e na medida do possível menos espetaculoso. Apesar de abrandar os conflitos para se tornar literalmente um programa para toda a família, a segunda versão Guerra dos Mundos merece uma revisão para provar que mais que um filme-pipoca esta é uma obra alegórica que fazia todo sentido quando lançada, mas ainda pertinente e que serve sim como um tipo de registro histórico. Aliás, mais interessante que o próprio longa é a sua origem, não a toa também alegórica. O escritor H. G. Wells publicou no final do século 19 um livro que colocava os ingleses em embate direto com alienígenas, uma metáfora que posicionava em perigo aqueles que na realidade estavam invadindo e colonizando de forma bruta outros países. Na década de 1930, os mesmos escritos serviram para uma impactante transmissão de rádio do cultuado Orson Wells que fez alguns ajustes e narrou os eventos de forma que a população em peso acreditou que o fim do mundo chegara. Levando em consideração o contexto histórico e social do material original, a brincadeira mal interpretada décadas mais tarde e a transformação visual da obra em um clássico filme dos anos 50, Spielberg fez um híbrido de marcantes elementos de todas estas etapas reforçando a ideia de que tão amedrontador quanto o desconhecido podem ser as próprias atitudes do ser humano, em um eterno combate onde os mais fortes tendem a colocar os mais fracos na posição de submissos, e de quebra fazendo uma alusão de que a natureza tão desprezada pelo homem pode ser a sua principal aliada.

Aventura - 116 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

marcos disse...

hehe, esse filme é bem maluquinho, mas provocante, a tecnologia dos ets, impressiona, quer ficar de cabelos arrepiados, assista...

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