sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

JANTAR COM AMIGOS

NOTA 7,5

Com diálogos envolventes e
conflitos de fácil identificação,
longa discute o desgaste do
casamento e o valor da amizade
O relacionamento de um casal é como uma receita que precisa de certos ingredientes para dar certo, mas o problema é que é muito difícil manter a pimenta do início e evitar que a rotina não agregue um insosso sabor de água com açúcar à relação. Tem casais que se acostumam ao cotidiano com pouco sabor de paixão, mas outros precisam de um tempero a mais para se manterem unidos. Sem dúvidas a receita da felicidade de um casal é singular, cada um tem a sua própria e é essa a grande lição de Jantar com Amigos, erroneamente vendido como uma comédia romântica quando na realidade é um drama leve que explora a reação de um casal perfeito em relação a separação dos seus melhores amigos. Baseado na peça teatral homônima de Donald Marguiles, que também assina o roteiro, a trama começa com Gabe (Dennis Quaid) e Karen (Andie MacDowell) preparando mais um de seus famosos jantares cheios de iguarias para receber os amigos Beth (Toni Collette) e Tom (Greg Kinnear). Os anfitriões voltaram a pouco tempo da Itália e estão na expectativa quanto ao lançamento de mais um livro sobre gastronomia e como sempre querem dividir este momento feliz com aqueles que consideram extensão de sua família. Ambos os casais estão juntos a cerca de doze anos, tem dois filhos cada e as estruturas sólidas destes relacionamentos, tanto íntimo dos cônjuges quanto de amizade entre as famílias, pareciam inabaláveis isso até que uma noite de intensa chuva prenunciava que algo ruim estava para acontecer. Beth chega ao jantar acompanhada apenas dos filhos e justifica que o marido, um advogado de sucesso, precisou fazer uma viagem de trabalho às pressas. Enquanto discursam sobre as belezas e sabores italianos, a convidada demonstra um pouco de incômodo e entediada, mas educada esforça-se para parecer interessada na conversa. Os amigos já sabiam que ela tinha uma tendência desde a juventude para problemas emocionais, porém, não imaginavam que desta vez o problema tinha razões bem sérias. Ela revela que o marido confessou declaradamente que está apaixonado por outra e decidido a se separar, inclusive acusando a esposa de ter destruído sua vida. Beth julgava que o mau humor constante do rapaz era por conta dos problemas com o trabalho, mas assume que sabe que ele desejava mais intimidade na relação e ela negava.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O PÂNTANO (2001)

NOTA 4,0

Usando a decadência de uma
família como metáfora a crise
generalizada da Argentina, obra
é uma opção de difícil digestão
O cinema argentino desde o ano 2000 tem sido reconhecido mundialmente e suas produções consideradas o que há de melhor na área nas regiões latino-americanas. Muito premiado e com o ator Ricardo Darín automaticamente eleito como um grande símbolo do desenvolvimento da arte cinematográfica no país, é certo que suas comédias e dramas familiares fazem sucesso por geralmente narrarem histórias de apelo universal, o que explica a ausência de barulho entre os populares quanto ao festejado entre os críticos O Pântano, trabalho de estreia da roteirista e diretora Lucrecia Martel. É muito difícil se sentir envolvido por um filme cuja estética é literalmente suja, embora a opção seja justificada pela trama ácida, crítica, melancólica e porque não desinteressante. Sim, a percepção de um filme varia de pessoa para pessoa e implica vários fatores, como cultura e experiência de vida, ainda que muitos certamente prefiram omitir suas verdadeiras opiniões ameaçados pelo peso de menções honrosas como dos festivais de Berlim e Sundance, por exemplo. Bater de frente com a opinião de críticos especializados que vêem beleza na lama pode ser a assinatura de seu atestado de burrice ou surpreendentemente provar sua coragem de ser diferente. As divergências de ideias é benéfico, só não vale não assistir e passar adiante falsos elogios rasgados a fim de parecer intelectual, o que realmente não é o objetivo deste texto. A quem interessar participar desta estranha experiência, lá vai a sinopse. Mecha (Graciela Borges) é uma mulher em torno dos 50 anos, mãe de quatro filhos jovens, mas que não se entende mais com o marido Gregorio (Martín Adjemian), entregando-se a bebida para a embriaguez a ajudar a ignorá-lo. Ele, por sua vez, se preocupa com a aparência procurando recuperar o frescor da juventude, mas também é adepto do álcool para esquecer problemas. Já Tali (Mercedes Morán), prima de Mecha, também tem quatro filhos, só que ainda crianças, e ama e se dedica ao máximo para o bem estar da família, inclusive do marido Rafael (Daniel Valenzuela) que ocupa seu tempo caçando. Para escapar do clima quente da cidade, todo o verão estas duas famílias combinam de passar uma temporada no povoado de Rey Muerto que abriga o sítio La Mandrágora, reduto de cultivo de pimentões vermelhos.               

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O ZELADOR ANIMAL

NOTA 4,0

Comédia com animais falantes
aposta em clichês, piadas bobas e
tenta conquistar o público adulto com
trama romântica desinteressante
Filmes com bichos falantes é um dos clichês mais antigos do cinema, já não colam nem mesmo na “Sessão da Tarde” e geralmente nem chegam a ser exibidos mais nas telonas, sendo lançados diretamente em DVD. Contudo, tentando lucrar em épocas de férias ou feriados, um ou outro produto do gênero ainda tenta a sorte de ser exibido em grande circuito como foi o caso de O Zelador Animal, mas os resultados financeiros e de crítica foram desanimadores. A fórmula consagrada para atrair crianças e consequentemente seus acompanhantes adultos neste caso deu defeito. Tentando revigorar esta espécie de subgênero infantil, os roteiristas Nick Bakay, Rock Reuben, Jay Scherick e David Ronn acabaram enveredando por um caminho perigoso. Os bichinhos não estão aqui apenas para fazer graça ou infernizar a vida do protagonista, mas atuam também como conselheiros amorosos. Nada contra romances para crianças, mas quando a produção leva a assinatura do ator Adam Sandler como um dos produtores a situação torna-se preocupante. Conhecido por piadas escatológicas ou de duplo sentido aqui ele ainda ganha a companhia de Kevin James com que já havia contracenado em Eu os Declaro Marido e... Larry. O ator rechonchudinho aparece nos créditos como produtor e roteirista, além de viver o protagonista, Griffin Keyes, um cara gente boa, amigo de todos e que há muitos anos trabalha como zelador de um jardim zoológico, emprego digno e que adora. Ele é perdidamente apaixonado pela namorada Stephanie (Leslie Bibb), uma garota fútil e vaidosa a quem ele pede em casamento em um romântico passeio a cavalo por uma praia deserta em meio ao pôr-do-sol, mas nem todo esse cuidado para criar um clima envolvente foi capaz de evitar o pior de seus pesadelos. Ela não só recusa o pedido como também humilha o cara por conta de sua falta de ambição, afinal ela não quer de forma alguma conviver com macacos, girafas, leões e outros bichos. Cinco anos se passaram desde esta decepção e Keyes não a esqueceu, mas quis o destino que eles se reencontrassem durante a festa de casamento do irmão do zelador o que fez com que reascendesse o fogo da paixão em ambos. O problema é que este romântico crônico ainda está com o mesmo padrão de vida e a garota, embora um pouco arrependida do que fez, está acompanhada de Gale (Joe Rogan), outro ex-namorado, um tanto metido a besta e que passa a medir forças com seu concorrente ao coração da jovem.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

EDISON - PODER E CORRUPÇÃO

NOTA 4,0

Estreia de Justin Timberlake
nos cinemas acompanhado de
atores premiados resulta em um
longa policial repleto de clichês
Dentre as várias categorias de filmes deveria existir “esse é o cara”, divisão na qual se encaixariam filmes de medalhões como Samuel L. Jackson, Denzel Washington, Will Smith e Morgan Freeman. Eles não têm apenas a cor da pele e o grande talento em comum, mas também o fato de possuírem uma extensa lista de títulos em seus currículos (muitos com personagens semelhantes) e seus nomes serem sinônimos de filmes bons. Quem nunca viu alguém falando na fila do cinema ou olhando as prateleiras de locadoras que tal filme deve ser bom porque é com o fulano de tal. É uma pena que nem sempre esse entusiasmo é correspondido. Edison – Poder e Corrupção não é um péssimo longa, porém, acabou caindo no limbo por ser um amontoado de clichês de diversos outros títulos de ação e suspense policiais, incluindo a repetição de erros como o excesso de personagens e situações desnecessárias que só servem para confundir o público e tornar o programa tedioso. A trama se desenvolve na fictícia cidade que intitula a produção, uma metrópole que aparentemente oferece oportunidades de crescimento a todos e chama a atenção de grandes corporações, porém, a corrupção e o abuso de poder podem estar por trás de tantas conquistas. Aqui vive Josh Pollack (Justin Timberlake), um jovem e ambicioso jornalista que está iniciando sua carreira como repórter investigativo em um pequeno jornal comunitário. Após descobrir fraudes na polícia local, o rapaz deseja ir a fundo nesta investigação e publicar uma grande matéria, mas enfrenta a relutância de seu chefe, Moses Ashford (Morgan Freeman), que decide demiti-lo. O grande alvo deste repórter é a FRAT, uma unidade de elite da polícia que corresponde à sigla inglesa de Força Tática de Defesa e Ataque. Em Edison seus membros podem agir como bem entenderem e abusam do poder de autoridade que a ordem impõe, assim arrogância e violência são as marcas registradas do grupo que combate principalmente o tráfico de drogas, mas chega até a forjar provas para não ter sua imagem manchada. Em uma ação liderada pelo sargento Frances Lazerov (Dylan McDermont) um traficante acaba morto. O policial Raphael Deed (L.L. Cool J.) testemunhou o ocorrido e acabou sendo torturado, mas defendeu o réu durante seu julgamento alegando autodefesa.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

PERIGO EM BANGKOK

NOTA 2,0

Mais uma vez Nicolas Cage
surge inexpressivo em produção
esquecível, um remake bobo e
cheio de erros narrativos
Um assassino profissional deve ser rápido, não deixar pistas, ter sangue frio e jamais se envolver com suas vítimas ou quem quer que seja. É uma pessoa solitária que raramente pode se dar o direito de aproveitar o mundo real, mas logo precisa retornar a sua clausura, ao seu universo particular. O isolamento do protagonista de Perigo em Bangkok ironicamente pode ser compreendido como uma metáfora ao sentimento do espectador diante do longa. É muito difícil se sentir inserido neste universo em que o silêncio e o barulho de perseguições e tiroteios se alternam, mas em nenhuma destas circunstâncias identificamos algum elemento que faça este passatempo valer a pena. O campo de ação e suspense outrora era o porto seguro do ator Nicolas Cage, mas infelizmente mais uma vez ele colecionou um novo fracasso para o seu então já combalido currículo, contudo, o projeto teoricamente parecia ter potencial. Refilmagem de um longa homônimo tailandês de 1999 dirigido pelos irmãos Oxide e Danny Pang, que depois viriam a fazer fama com produções de horror como Assombração, a obra tentaria ser ao máximo fiel ao original, tanto que os diretores foram mantidos assim como o cenário.  Todavia, o orçamento seria bancado por Hollywood, o que implica na aceitação de certas exigências. Os irmãos já não haviam se dado bem na primeira incursão americana, o suspense Os Mensageiros, mas agora estavam com material próprio em mãos, o que aumenta as chances de acerto, ainda mais que ele havia recebido o prêmio da crítica no Festival de Toronto de 2000. Filme de ação premiado? Sim, qual o problema? Provavelmente o longa original era melhor estruturado e com personagens mais sólidos, tudo o que falta ao remake. Na trama escrita por Jason Richman, do superior Em Má Companhia (o que não chega a ser um grande elogio), Cage vive Joe, um assassino profissional muito competente, mas que chegou a um estágio da atividade em que pesa a solidão que ela exige. A introdução busca fisgar o espectador dando a entender que este não é um filme de ação e suspense sem propósitos. Com narração em off, o protagonista revela detalhes sobre seu cotidiano que não compreende contatos sociais, apenas regras a serem rigidamente seguidas para seu trabalho ser perfeito. No entanto, ele sonha em abandonar essa carreira e levar uma vida normal.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

POR AMOR E HONRA

Nota 5,0 Contexto histórico e político é o que salva romance cujas tramas de amor não cativam

Em épocas de guerra muitas histórias de amor foram interrompidas e o cinema está sempre tentando levar ao público contos do tipo como alternativa para atrair pessoas avessas as atrocidades tão comuns aos conflitos (mortes, mutilações, bombardeios). Baseado em fatos reais, Por Amor e Honra é um desses exemplos, uma obra que em vários momentos nos faz até esquecer que a trama se passa no efervescente ano de 1969, época em que os ânimos acerca da guerra do Vietnã esquentavam, mas ao mesmo tempo as atenções estavam voltadas para aquela que seria a primeira viagem do homem à Lua. A trama escrita por Garrett K. Schiff e Jim Burnstein começa na província de Quang Nam quando um grupo de jovens militares americanos é atacado violentamente por vietnamitas. Após essa noite de tensão, o pelotão ganha uma semana de licença para seus membros poderem descansar. Entre os contemplados está Dalton Joiner (Austin Stowell) que sofre muito com as saudades que tem da namorada Jane (Aimee Teegarden), mesmo com o relacionamento um pouco abalado antes de sua viagem. Ele está disposto a reencontrá-la, afinal está certo que ela tinha medo dele não retornar e não queria ficar alimentando falsas esperanças, e no dia que deveria pegar o avião de volta ao Vietnã o rapaz desiste da guerra e decide seguir para os EUA. Mickey Wright (Liam Hemsworth), seu grande amigo no exército, está certo que a moça já deve estar com outro, mas resolve acompanhar Joiner na viagem, até porque ele está a fim de se divertir com garotas e bebidas. Jane vive em uma república e aceita bem a volta do namorado que chega até a pedi-la em casamento, porém, mais adiante o ciúme excessivo do rapaz começa a prejudicar a relação. Enquanto isso, Wright, que só pensava em diversão, logo se encanta por uma das colegas da moça, Candace (Teresa Palmer), e esse namoro começa a ficar cada vez mais sério. Embora seja uma história romântica, é curioso que nenhuma dessas tramas empolgam realmente, soando muito frouxas. O romance de Jane e Joiner não convence, inclusive a moça por várias vezes insiste que tem outro nome, detalhe que não agrega nada a trama. Já a outra trama é mais previsível e só ganha força porque está ligada diretamente ao conflito do Vietnã e a redenção, isca infalível para colocar o público na torcida.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O JOVEM GUERREIRO

Nota 6,0 Épico francês é divertido, mas peca por pouco se aprofundar em contexto histórico

Existem filmes menores lançados por distribuidoras pequenas que infelizmente acabam não atingindo o grande público. Está certo que a grande maioria destas produções é dispensável, mas outras se não são memoráveis ao menos garantem um passatempo divertido e de qualidade como é o caso de O Jovem Guerreiro, épico francês que acompanha a infância e a adolescência de Jacquou (Gaspard Ulliel), um corajoso rapaz que cresceu alimentando o desejo de vingar-se do homem que destruiu sua família. Em 1815, a França vivia tempos de revolução, mas ao mesmo tempo existia o desejo de retomar a hegemonia da monarquia, assim haviam constantes perseguições àqueles que eram contrários as medidas do rei e seus colaboradores. O pai de Jacquou (Albert Dupontel) estava sendo ferrenhamente caçado pelos subordinados do Conde de Nansac (Jocelyn Quivrin), um arrogante e cruel homem da nobreza. O valente camponês se recusava a fugir e preferiu enfrentar os inimigos, mas acabou sendo capturado e levado a julgamento, principalmente porque foram encontrados junto a seus pertences uma medalha de honra e uma patente de coronel dadas por Napoleão Bonaparte, nome odiado pelos nobres. Imediatamente sua esposa (Marie-Josée Croze) e seu filho são despejados de casa e obrigados a viver em um abrigo improvisado, mas o martírio só estava começando. Condenado à prisão, o pai de Jacquou tenta fugir longo no primeiro dia e acaba sendo morto e pouco tempo depois a mãe do garoto falece de tanta tristeza. Sozinho e sem ter como se sustentar, Jacquou em uma noite de muito frio e nevasca tenta se suicidar para juntar-se a seus pais, mas acaba sendo salvo pelo padre Bonal (Oliver Gourmet) que decide criá-lo. Esta primeira parte que retrata a infância do protagonista não abre muito espaço para o contexto histórico preferindo o roteirista Eugene Le Roy concentrar suas atenções para o sofrimento do garoto muito bem interpretado nesta primeira fase por Léo Legrand.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CAPITÃO SKY E O MUNDO DE AMANHÃ

NOTA 7,0

Apostando no casamento de
uma narrativa nostálgica com
visual moderno, longa diverte,
mas sua trama tem defeitos
Já fazia algum tempo que os filmes de ação e aventura estavam dependentes da tecnologia para atrair público e cada vez mais deficientes de trama para se sustentarem, mas eis que o estreante diretor e roteirista Kerry Conran trouxe em 2004 uma proposta ousada e inovadora. Capitão Sky e o Mundo de Amanhã tem visual de videogame, mas enredo que homenageia o cinema de antigamente. O início do projeto foi extremamente pessoal e sem recursos financeiros, apenas apostando na criatividade. O cineasta levou aproximadamente quatro anos de trabalho para criar míseros seis minutos de filme, uma pequena introdução que realizou em um simples computador para apresentar o universo diferenciado desta aventura e então apresentar a produtores e correr atrás de financiamento para levar a ideia adiante no formato de longa-metragem. A surpresa é que quem resolveu comprar a ideia e bancar o filme como um dos produtores foi o ator Jude Law que também se prontificou a protagonizá-lo. Na realidade, o projeto não era tão ambicioso inicialmente. O diretor apenas queria melhorar o que já tinha em mãos e lançar como um curta, mas foi convencido de que seu trabalho, que mostrava gigantescos robôs atacando uma Nova York nostálgica, inspirava uma projeção mais apurada. Até pouco tempo antes deste lançamento, Conran era apenas um estudante de cinema que trabalhava fazendo programação de computadores. Fã de quadrinhos e séries de TV antigas, como passatempo ele bolou um roteiro que colava estas lembranças aliadas a uma colcha de retalhos visuais, uma mistura de diversas técnicas que iam desde o uso de simples fotografias, passando por reproduções de trechos de filmes até chegar à animação computadorizada. O resultado retrô-futurista acabou conquistando a confiança de investidores e um razoável orçamento foi liberado ao cineasta de primeira viagem para investir naquela que podia ser uma obra divisora de águas, mas que acabou não sendo um sucesso e abortou qualquer possibilidade de se tornar uma franquia duradoura. Antes de falar sobre tal frustração vamos ao enredo. Em Nova York no final dos anos 30, a jornalista Polly Perkins (Gwyneth Paltrow) recebe um objeto de um homem misterioso que está sendo perseguido. Ela então descobre que os cientistas mais famosos do mundo estão desaparecendo sem deixar pistas, mas todos coincidentemente envolvidos em um projeto secreto dos tempos da Primeira Guerra Mundial.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

UM SONHO DE AMOR

NOTA 8,0

Longa aborda a decadência de
uma tradicional família italiana
paralelo ao drama da matriarca
infeliz redescobrindo o que é viver
Infelizmente temos a cultura de assistir um filme apenas uma vez e levar a sério o ditado que diz “a primeira impressão é a que fica”. Dessa forma, deixamos de apreciar filmes excepcionais, mas que por vários motivos podem não revelar suas principais qualidades em um primeiro momento. Podemos apreciar as atuações, a trama, a trilha sonora, a direção de arte, as locações, mas é difícil encontrar um filme que reúna todos esses elementos de forma uniforme e com qualidade. Provando que premiações são puras ações de marketing, Um Sonho de Amor passou batido nesses eventos, conquistando como prêmio de consolação uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino, uma injustiça feita a um trabalho que flerta com a moda antiga de se fazer cinema, principalmente na Itália (cenário da trama), mas que traz a tona temáticas relevantes e sempre atuais. O diretor Luca Guadagnino, de 100 Escovadas Antes de Dormir, tem mais experiência na área de documentários, mas demonstra competência e intimidade com o mundo ficcional. Ou melhor, ficção é modo de dizer já que este drama está carregado de toques realistas. Na trama escrita pelo próprio cineasta em parceria com Barbara Alberti, Ivan Controneo e Walter Fasano, somos apresentados à família Recchi, aristocratas cujo poder e riqueza são notados logo nas primeiras cenas passadas dentro do casarão do clã em Milão. Uma grande festa está sendo preparada para comemorar o aniversário do patriarca Edoardo (Gabrielle Ferzetti), dono de uma das maiores fábricas de tecidos da Itália. A ocasião está sendo muito aguardada por todos os convidados, pois será revelado o nome do sucessor dos negócios da família. Sua nora Emma (Tilda Swinton) está tão envolvida com os ajustes finais do evento que até parece a governanta da casa, misturando-se facilmente aos empregados. De origem russa, ela está casada há muitos anos com Tancredi (Pippo Delbono), que está sendo preparado para ocupar o lugar de chefão da empresa do pai, mas o relacionamento entre o casal parece um tanto frio. Eles são pais de Edoardo (Flávio Parenti), que está prestes a ficar noivo de Eva (Diane Fleri); Elisabetta (Alba Rohrwacher), que não está certa se realmente ama o namorado, e Gianluca (Mattia Zaccaro), o filho caçula. Durante o jantar, é anunciada a esperada nomeação de Tancredi para assumir a empresa têxtil, mas seu pai ordena que as obrigações da presidência sejam divididas com seu neto mais velho. Não por acaso o rapaz leva seu nome, o que agrega aquela irresistível sensação de confiança e tradição à empresa.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

NUNCA MAIS

NOTA 5,5

Embora esquemático e com situações
inverossímeis, longa entretém e
cumpre função de ser um veículo de
promoção para Jennifer Lopez 
Toda mulher sonha em um casamento perfeito e duradouro até que a morte separe o casal, mas casos em que se descobre tardiamente que o príncipe encantado na verdade é um baita de um vilão infelizmente são extremamente comuns. Esse é o ponto de partida de Nunca Mais, suspense com pitadas de drama estrelado por Jennifer Lopez, para variar em um papel com um quê de latinidade que desperta a atenção dos homens. Ela vive Slim, uma dedicada garçonete de um restaurante decadente de Los Angeles que certa vez passa a ser incomodada por um cliente inoportuno que acha que a moça é do tipo fácil, claramente um preconceito inerente a sua profissão e ao seu visual “imigrante”. De repente, um outro homem entra no local oportunamente com todo jeitão de justiceiro e logo livra a moça do canastrão. Ele é Mitch Hiller (Billy Campbell), um sujeito bonitão e que aparenta ser de boa índole. Imediatamente, pinta um clima entre a garçonete e seu herói e Ginny (Juliette Lewis), a melhor amida dela e também funcionária do local, a incentiva a investir nesse relacionamento e em menos de dez minutos de filme já estamos acompanhando o casamento deles. Ela não só ganha um marido que parece super apaixonado como também uma vida confortável, afinal ele é milionário e assim ela vira exclusivamente uma dona de casa que não precisa se preocupar em ter uma profissão. A ação avança alguns anos e o casal então tem uma filha pequena, Gracie (Tessa Allen), mas a relação entre eles já dá sinais de desgaste. A rapidez do roteirista Nicholas Kazan, de O Reverso da Fortuna, para desenvolver esta introdução tem justificativa. Seu objetivo não era fazer um drama choroso, mas sim um thriller envolvente capaz de fazer o espectador se identificar a tal ponto de não ligar para algumas situações inverossímeis. Então para que se preocupar com pormenores do casal? Vamos logo ao que interessa. Slim descobre que Mitch está tendo um caso com outra mulher e confronta-o ameaçando se separar, mas como tom bom cafajeste ele se defende dizendo que seus instintos masculinos o obrigam a procurar prazer com outras e que não pretende deixar de dar suas puladas de cerca. Ele ainda deixa claro que ela não pode reclamar de nada, afinal ela tem tudo o que quer e em troca ele só pede liberdade para suas aventuras sexuais, mas exige a permanência da esposa que no final das contas vive para ele como uma espécie de empregada dentro de casa e nos eventos sociais como uma peça de adorno indispensável para a manutenção de sua imagem pública. Slim se revolta e acaba sendo violentada.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

GUERRA S.A. - FATURANDO ALTO

NOTA 6,5

A guerra como fonte de economia
é alvo de comédia que ainda faz
outras críticas contundentes, mas
no final longa cai na palhaçada
Temas ligados a guerras devem ser tratados com seriedade, ainda mais conflitos recentes envolvendo povos árabes. Bem, o diretor Josh Seftel acreditou que os problemas entre os EUA e o Oriente Médio podia sim gerar uma comédia e apostou suas fichas em Guerra S.A. – Faturando Alto que passa longe de ser um trabalho excepcional, mas é bem melhor que muito filme por aí que tem a pretensão de fazer o público rir. Fazer as pessoas caírem na gargalhada sem apelar para o humor pastelão é muito difícil, que dirá quando a comédia tem que caminhar paralelamente a um argumento relativamente sério. Com roteiro de Mark Leyner, Jeremy Pikser e do ator John Cusack, também protagonista e produtor, esta obra é uma divertida crítica a absurda realidade do mundo atual, ao negócio lucrativo que é a guerra e sobra espaço até para criticar a indústria de bens de consumo e culturais, mais especificamente o campo fonográfico e midiático.  A ação se passa no fictício país do Turaquistão que foi devastado pela guerra e que está recebendo a visita de Brand Hauser (Cusack), um matador profissional que foi enviado para lá para impedir que Omar Sharif (Ludomir Neikov), o Presidente da Ugi Gas, conglomerado ugiquistanense, construa um oleoduto para escoamento de petróleo. O assassino foi contratado pela empresa Tamerlane, responsável por manter o monopólio de exploração dos recursos naturais da região e que ganha milhões forjando cenários de guerra em vários países com o intuito de mostrar os pontos positivos e ideológicos das batalhas como a reconstituição moral e ética do local atingido e o advento do direito a liberdade a seus moradores, entre outras pomposas justificativas. A corporação é propriedade do ex-Vice Presidente dos Estados Unidos (Dan Aykroyd) que tomou conta deste país visando apenas lucro, mas agora é preciso se livrar do tal empresário árabe que pode se tornar um grande concorrente. Hauser, um tanto desequilibrado, aceita a tarefa e para tanto ele terá que se disfarçar de produtor de eventos e organizar o casamento da ninfeta pop Yonica Babyyeah (Hilary Duff), uma espécie de Britney Spears idolatrada nos países asiáticos e adjacências. A cerimônia na verdade é uma ação de marketing praticamente e irá acontecer em meio ao congresso anual da Tamerlane, evento que reunirá grandes nomes da empresa, políticos e jornalistas.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ESTRANHA OBSESSÃO (2011)

NOTA 3,0

Com requisitos para atender as
expectativas de fãs de cinema mais
artístico, longa se revela enfadonho
e com situações desperdiçadas
A atriz inglesa Kristin Scott Thomas se transformou em uma espécie de marca de garantia de qualidade tal qual a francesa Juliette Binoche. Ambas com passe livre nas produções hollywoodianas, inclusive vez ou outra nas mais comerciais, e com carreira ativa em seus países natais, seus filmes geralmente são exibidos nos cinemas em circuito restrito ou lançados diretamente para consumo doméstico o que traz certa aura de intelectualidade a seus trabalhos. Não é difícil encontrar pessoas que enchem a boca para falar os nomes dessas atrizes para se passarem por intelectuais, mas no fundo não curtem suas obras ou sequer as entendem. Bem, quem decidir assistir a mescla de drama e suspense Estranha Obsessão atraído pelo nome de Kristin nos créditos não precisa fingir a frustração, o longa é realmente chato e sem pé nem cabeça. O título nacional genérico e desinteressante faz jus ao porte da produção, um trabalho menor e mal conduzido que pelo visto tentou reverter as expectativas nos minutos finais apostando no clichê da revelação bombástica, mas já tarde demais para alterar julgamentos, isso se alguém aguentar chegar até a conclusão, mesmo com a curta duração do filme. A trama acompanha Tom Ricks (Ethan Hawke), um melancólico professor de cinema e escritor americano que viaja para Paris a fim de se reconciliar com Nathalie (Delphine Chuillot), sua ex-esposa, que logo no primeiro encontro mostra-se contrária a qualquer tipo de aproximação, inclusive ameaçando chamar a polícia para denunciar o rapaz já que existe uma ordem judicial para que ele não se aproxime. Algum tempo antes ele se envolveu em um escândalo na universidade em que trabalhava e isso acabou com seu casamento e o afastou de Chloe (Julie Papillon), sua filha pequena com quem nunca teve muito contato. Após a tentativa frustrada de visitar a garota, esse homem azarado ainda é assaltado e perde sua bagagem e dinheiro. Sezer (Samir Guesmi), dono de um pequeno e decadente hotel, acaba ajudando Tom lhe oferecendo um quarto com a promessa de que tão logo ele arranje um emprego pagará a hospedagem. É conversando com este suspeito homem de origem árabe que ficamos conhecendo um pouco mais da vida do escritor.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

ONDE NASCE O AMOR

Nota 6,0 Embora agradável, novas gerações podem não se envolver com este estilo de romance

Romances em que o amor fica em segundo plano e o sexo está em primeiro lugar certamente devem horrorizar as vovós que não se sentem envolvidas pelas produções românticas atuais que visam se comunicar com platéias mais jovens que em geral começam relacionamentos direto na cama e sem precisar necessariamente saber os nomes dos envolvidos. Para gerações mais antigas, filmes de amor eram sinônimos de E o Vento Levou e Casablanca, por exemplo. Para atender a esse público desamparado e tentando conquistar novos adeptos, algumas produtoras estão preocupadas em produzir romances mais tradicionalistas, aqueles melosos e de época que podem parecer antiquados, mas que possuem fãs cativos. A literatura é uma fonte rica de inspiração para tanto e são das páginas do livro de Janette Oke que surgiu Onde Nasce o Amor, uma cativante e bucólica história de amor que do início ao fim transpira nostalgia, a começar por sua ambientação que remete aos antigos cenários de faroestes, mas esqueça os tiroteios e as perseguições a cavalo. Adaptada por Michael Moran, a trama se passa em meados do século 19, época da febre da Corrida do Ouro na Califórnia, tempos em que muitos homens abandonaram suas famílias para ir em busca do sonho de enriquecerem as custas da garimpagem, alguns prometendo só voltarem ao lar quando ficassem ricos. Clark Davis (Wes Brown) e seu amigo Daniel (David Tom) são dois jovens caubóis que também se iludiram com essa história, mas tiveram a viagem interrompida ao pararem em um pequeno restaurante para fazerem uma refeição. Daniel corteja uma moça e acaba comprando briga com alguns homens que a defendem. O episódio acabou causando danos ao estabelecimento e culminou na prisão dos rapazes que teriam que esperar cerca de um mês na prisão até a chegada do delegado responsável que então resolveria suas sentenças. Daniel acaba conseguindo fugir, mas Clark, mais ajuizado e honrado, decide ficar e propõe ao xerife Holden (Jere Burns) que possa sair da cadeia em troca de serviços prestados para pagar a sua dívida com Millie (Nancy McKeon), a dona do restaurante que ficou no prejuízo.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O VIZINHO PERFEITO

Nota 6,0 Dentro de suas limitações, suspense entretém mesmo com toda a sua previsibilidade

Não cobiçarás a mulher do próximo. Esse é um mandamento bastante conhecido, mas que há muitos anos precisa andar acompanhado de sua variação: não cobiçarás o homem de tua semelhante. Embora a frase original coloque o homem na posição de traidor, o que tem de histórias por aí a respeito de mulheres de olho do marido alheio é impressionante. O pior é quando não é só o amor que está em jogo, mas também uma polpuda conta bancária, o sentimento de superioridade, padrão social... É por esse viés que a trama de O Vizinho Perfeito se desenrola, suspense com todas as características típicas de um telefilme, mas que consegue entreter e não constrange o espectador, mesmo com toda a previsibilidade do roteiro de Richard Dana Smith. O filme começa com Donna Germaine (Barbara Niven) viajando de ônibus até a casa de sua tia Grace (Linda Darlow), a quem não via a cerca de vinte anos. Recentemente ela foi abandonada pelo marido que a traía e como desgraça pouca é bobagem ela ainda perdeu seu emprego e estava cheia de dívidas. Mesmo baqueada por todos esses acontecimentos, ela chega à casa da tia toda sorridente e prestativa, no melhor estilo falsa fofa como popularmente são chamadas as mulheres que parecem uns amores, mas no fundo fazem tudo com segundas intenções e chegam até a atos criminosos para conseguirem o que querem. Obviamente, casos extremos não são apenas frutos de má índole, mas também estão ligados a problemas psicológicos e emocionais e o diretor Douglas Jackson não faz questão alguma de esconder que Donna é desequilibrada deixando pequenas pistas logo nos primeiros minutos de projeção.  Ela logo conhece suas novas vizinhas, a pequena Trish (Lila Bata-Walsh) e sua mãe Jeannie (Susan Blakely), que formam uma família feliz com William Costigan (Perry King), o alto executivo de uma emissora de TV. Anualmente esta família oferece uma aguardada festa para a comunidade e Donna obviamente é convidada e comparece disposta a distribuir sorrisos e beijinhos, mas por trás de seus olhinhos brilhantes ela é corroída por um incontrolável ciúme. Automaticamente ela decide conquistar William para destruir uma família feliz, afinal se ela não pôde ter uma por que deixar os outros terem?

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

PLANETA DO TESOURO

NOTA 6,5

Texto clássico sobre aventura
de piratas ganha repaginada
e cenário futurista, mas falha
com personagens que não cativam
Quando a Fox lançou Anastácia, a Disney não estava preocupada com a concorrência e relançou nas férias de verão A Pequena Sereia. Um ano depois, a Dreamworks trouxe O Príncipe do Egito e houve a coincidência do lançamento de Formiguinhaz quase que simultaneamente a Vida de Inseto. Os estúdios Aardman, apadrinhado por Steven Spielberg, trouxe o excelente A Fuga das Galinhas para duelar com A Nova Onda do Imperador. Parecia que a concorrência não assustava a casa do Mickey Mouse até que Atlantis – O Reino Perdido foi massacrado por Shrek. O sinal de alerta enfim foi aceso e chegou a hora dos chefões do tradicional estúdio de animação tomarem providências. Planeta do Tesouro pode ser visto como a primeira grande tentativa de recuperação da empresa já que moderniza radicalmente um clássico texto literário, contudo, o projeto já era idealizado desde 1985 pelos diretores Ron Clements e John Musker, mesma época em que propuseram a realização de A Pequena Sereia, longa que, curiosamente, marcou o renascimento da Disney após um período de dificuldades internas e produções de menor porte e baixa repercussão. Baseado no romance “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson escrito em 1883, com certeza a antiga ideia deveria ser bem diferente do longa que foi entregue em 2002. Adaptado em um inusitado formato de ficção científica pelos próprios diretores em parceria com Rob Edwards, a obra literária já havia rendido uma versão live-action clássica e inspirado uma aventura dos Muppets, ambas produções assinadas pelo mesmo estúdio que neste caso trouxe para o campo da animação a aventura de piratas com uma nova roupagem. A história gira em torno do jovem Jim Hawkins, um adolescente rebelde que só traz problemas a sua mãe, Sarah, a dona de uma pequena estalagem em algum canto do espaço sideral. Sua grande diversão é fazer manobras radicais em sua prancha voadora por uma área proibida, praticamente um skatista futurista, mas em um desses momentos ele acaba sendo pego por policiais e é ameaçado de perder sua liberdade condicional. Embora não seja especificado em que século a trama se passa, o grande problema do rapaz e sua mãe não é estranho as pessoas do presente: falta de dinheiro. Para piorar, certo dia um grupo de piratas ataca o comércio da família e coloca fogo no local, mas depois disso Jim encontra o mapa de um grande tesouro escondido há anos por um pirata espacial, confirmando o ditado que diz que há males que vem para o bem.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O ABRIGO (2011)

NOTA 7,0

Drama convida o espectador a
vivenciar o cotidiano amedrontador
de protagonista que não sabe se está
louco ou tendo visões proféticas
Os empresários donos de salas de cinema é que só visam lucros ou é o público que cada vez está mais alienado e vendido a tecnologias que prometem uma experiência única no escurinho do cinema a preços exorbitantes? Infelizmente essas duas hipóteses já faz tempo que ganharam o status de constatação e com isso quem sai prejudicado é o próprio espectador, principalmente aqueles que se dizem cinéfilos e perdem a oportunidade de ver excelentes filmes no cinema simplesmente porque eles não têm firulas visuais ou necessitam que a cadeira chacoalhe em determinados momentos. Sem passagem pelas telonas, a maioria também é lançada no formato home vídeo sem grande publicidade e mais uma vez não chega ao conhecimento do grande público. É triste ver que esse quadro não acontece apenas no Brasil, mas é um problema mundial, o que explica o fracasso de O Abrigo, um sucesso de crítica e exibido em diversos festivais que acabou não arrecadando nem o suficiente para cobrir seu mísero orçamento. A trama se passa em uma pequena cidade em desenvolvimento no estado de Ohio onde vive Curtis (Michael Shannon), um homem trabalhador, honesto e amoroso e dedicado com a esposa Samantha (Jessica Chastain) e com Hannah (Tova Stewart), sua filha de apenas seis anos que está prestes a ser submetida a uma cirurgia por conta de uma deficiência auditiva. A família vive em harmonia, mas obviamente tem seus problemas, inclusive financeiros. Enquanto a mulher tenta vender bordados em uma feira popular, geralmente tendo que baixar os preços para conseguir alguma venda, Curtis leva a sério a posição de chefe de família como uma espécie de protetor e cuida para que nada falte em sua casa. Operário de obras, ele tem não tem um emprego dos sonhos, mas ao menos garante a cobertura das necessidades básicas, incluindo um plano de saúde, algo essencial neste momento para Hannah. Contudo, ventos ruins parecem soprar. O rapaz começa a ser atormentado por constantes pesadelos e ilusões envolvendo ameaças a sua família, principalmente à filha. Tais pensamentos remetem a uma forte tormenta com catastróficas consequências e são compreendidas por ele como espécies de pressentimentos de que algo ruim está para acontecer. As imagens assustadoras que só Curtis vê fazem um contraponto interessante ao bucólico ambiente em que reside, um local que transmite paz e a sensação de que nada de mal pode vir a abalá-lo, embora a região constantemente sofra com violentas tempestades e tornados, mas não na proporção de seus pensamentos.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

ENCANTADORA DE BALEIAS

NOTA 8,5

Através da manutenção de
uma crença de uma tribo em
extinção, drama leva a reflexão
da tradição versus modernidade
Em tempos de sociedade globalizada, é uma atração e tanto quando podemos assistir ou participar de festejos tradicionais de outras nacionalidades, no entanto, geralmente quando o cinema quer abordar tal assunto acaba utilizando o viés do humor apostando no clichê da guerra entre os mais velhos tentando defender crenças e costumes contra os mais jovens que inevitavelmente acabam seduzidos pelos fascínios e novidades da modernidade. Quando o tema já envolve povos seculares e com risco de serem dissolvidos a coisa já ganha um tratamento mais respeitoso como é o caso do drama Encantadora de Baleias que enfoca uma tribo Maori tentando preservar suas tradições ao mesmo tempo em que procura evitar a degradação cultural e o choque de gerações. Produzido entre a Alemanha e a Nova Zelândia, o longa escrito e dirigido por Niki Caro, de Terra Fria, é baseado na obra “The Whale Rider”, de Witi Ihimaera. A trama se baseia em uma antiga lenda do povo neozelandês que afirma que um dia, cavalgando nas costas de uma baleia que domou, surgiu um líder de nome Paikea, uma espécie de semideus que após ter sua canoa virada conduziu seus semelhantes até um local seguro para viver. Os maori, povo típico local, acreditam ser descendente deste herói e que um dia ele reencarnaria em um membro das novas gerações para mais uma vez guiá-los para tempos melhores. Assim como todos os demais indígenas, os maori sobrevivem em grupos pequenos e tentam resistir a passagem do tempo e a diluição de sua cultura primitiva. A fim de manter os ritos de seus ancestrais, Koro (Rawiri Paratene) está a procura de um futuro líder para a sua comunidade, porém, se decepciona com a surpresa que o destino lhe reservou. Descendente dos chefes da tribo Whangara, linhagem com ligação direta a Paikea, ele tinha certeza que assim que tivesse um neto este seria o líder natural de sua aldeia seguindo a crença de que o primogênito de cada geração dos seus nasceria com uma missão a ser cumprida para o bem de seu povo. No entanto, sua nora dá a luz a um casal de gêmeos, mas o parto complicado acabou levando a morte mãe e filho. A menina é batizada com o mesmo nome do lendário líder, porém, é mais conhecida como Pai (Keisha Castle-Hughes) e cresce sob os cuidados dos avós já que seu pai traumatizado com os problemas do parto preferiu se mudar para a Alemanha para reconstruir sua vida.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

DESONRA

NOTA 8,5

Apesar da narrativa aparentemente
lenta, drama traz a tona importantes
questões sociais, políticas, culturais
e históricas que merecem reflexão
O que é um estupro? Um ato sexual praticado quando a vítima também é submetida a violência física. Provavelmente essa seria a resposta mais apresentada, porém, poucos sabem que tal crime também pode ser praticado sob a influência da violência psicológica e moral. O pior é que muitas vezes quem estupra aproveitando-se de seu poder social ou financeiro para seduzir não se dá conta que também cometeu um grave erro, mas o fato de não ferir fisicamente parece que os exime da culpa. Bem, isso só em suas mentes doentes. O drama Desonra apresenta como protagonista um personagem contraditório, um homem que se encontra em uma encruzilhada moral quando precisa conflitar suas próprias condutas com as daqueles que aponta como fora-da-lei. Baseado no livro homônimo do sul-africano J. M. Coetzeel, o roteiro adaptado por Anna-Maria Monticelli em um primeiro momento pode desagradar, até por sua conclusão realista, porém, difícil de engolir. Talvez sejam necessárias mais uma ou duas revisitadas a esse universo onde discussões morais e políticas não faltam para compreender os propósitos da obra. A trama gira em torno de um professor universitário que se relaciona com uma aluna utilizando-se de sua autoridade, é descoberto e obrigado a se demitir. Com a imagem manchada, ele resolve ir morar na fazenda da filha onde passará por uma nova provação. Resumidamente, a premissa parece não ter nada demais, nem impacta mais a notícia do abuso daqueles que deveriam educar. Infelizmente tornou-se um problema comum. O que injeta potencial nesta produção é o contexto em que esta história se desenvolve e suas mensagens subliminares. Com direção de Steve Jacobs, também sul-africano, somos convidados a conhecer um pouco da sujeira existente na região, particularidades que talvez não sejam identificadas a primeira vista, que necessitem de um pouco de reflexão para um completo entendimento. A trama começa nos apresentando ao cinquentão David Laurie (John Malkovich), professor de literatura na Universidade da Cidade do Cabo. Detentor de um histórico de muitos casamentos e relacionamentos rápidos, ele fica obcecado por uma de suas alunas, Melanie Isaacs (Antoniette Angel), a quem paquera descaradamente, embora a moça se mostre incomodada com as investidas. De forma respeitosa, porém, insistente, ele acaba forçando um relacionamento com a jovem em troca de boas notas em sua disciplina. Na realidade, ele não quer namorar com ela e sim conseguir transas casuais até que se canse dela ou o mais provável que ela fuja dele até sua desistência finalmente.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

GHOST TOWN - UM ESPÍRITO ATRÁS DE MIM

NOTA 7,5

Após um procedimento médico,
homem ranzinza ganha o dom de
falar com os mortos e de quebra a
chance de dar novos rumos à sua vida
Os mistérios acerca da dúvida se existe vida após a morte já renderam diversos filmes nos mais variados gêneros, sendo os mais interessantes aqueles que enfocam espíritos que desencarnam deixando assuntos pendentes, uma temática que chama a atenção de muita gente assim como os fenômenos de almas que não deixaram o corpo físico eternamente e sim por algum período indeterminado, podendo ser até mesmo por alguns poucos minutos. Assuntos do tipo podem render ótimos dramas, romances, suspenses e até mesmo comédias. Sim, o campo do humor também pode explorar temáticas espíritas sem ser desrespeitoso com a religião específica e tampouco ofender os adeptos de outras crenças como prova a comédia Ghost Town – Um Espírito Atrás de Mim. A história criada por John Kamps e David Koepp, este último também responsável pela direção, não prima pela originalidade, mas de qualquer forma é um passatempo agradável, com ótimos diálogos, humor de bom gosto e com uma lição de moral importante. Fugindo do lugar-comum, a trama aposta em um protagonista com características longe de conquistar a empatia do espectador, mas graças ao carisma do seu intérprete é possível se envolver com seu mau-humor e torcer para que ele sofra ao longo da narrativa transformações que o tornem uma pessoa mais afável.  Bertram Pincus (Rick Gervais) é um dentista competente, porém, estranhamente repudia o contato com os seres humanos, evitando ao máximo conversas e intimidades com qualquer um.  Embora sua profissão o obrigue a ser simpático para conquistar clientela, todos parecem conhecer seu jeito egoísta e antipático de ser, afinal ele não faz questão alguma de disfarçar seu mau-humor e apreço pela solidão e privacidade. Contudo, sua vida muda completamente após ser submetido a uma colonoscopia, um exame para análises dos intestinos e região retal que exige a introdução de uma espécie de tudo com câmera... Bem, você já deve imaginar onde o tal aparelho é colocado. O constrangimento na hora de preencher uma ficha com algumas informações íntimas necessárias antes da realização do procedimento não é nada perto do que o rechonchudo dentista vai passar assim que deitar na maca, a começar pelos rostinhos jovens que compõem a equipe médica que irá atendê-lo, o que já o deixa apreensivo acreditando estar nas mãos de amadores. Seu medo é correspondido.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

UM CAMINHO PARA RECOMEÇAR

Nota 5,5 Durante viagem, pai e filho tentam se entender, mas faltam ingredientes a esse clichê

O que se pode esperar de um filme que logo na introdução deixa claro que o filho de uma lenda do beisebol está tentando seguir os mesmos passos do pai, mas está encontrando dificuldades? Cenas e mais cenas de árduos treinos, brigas com o treinador e amigos provocando e outros dando força para o protagonista chegar a atingir seu grande objetivo. Se você também faz tal ideia, Um Caminho Para Recomeçar pode te surpreender levemente por enfocar o esporte somente na introdução e ao longo da narrativa vez ou outra lembrar que ele é talvez o único gosto em comum entre os protagonistas. Ou talvez nem isso. Na trama escrita e dirigida por Michael Meredith, o jovem Carlton (Justin Timberlake) está tentando seguir carreira no beisebol, assim como seu pai que se tornou uma lenda da modalidade. No entanto, ele não parece motivado nos treinos e está sendo ameaçado de ser cortado de seu time, mas realmente neste momento suas atenções estão mais voltadas à saúde da mãe, Katherine (Mary Steenburgen), que sofre de um grave problema cardíaco e precisa se submeter a uma cirurgia o quanto antes. O problema é que ela se recusa a assinar o documento que autoriza o procedimento até que ela possa reencontrar o ex-marido, já que acredita que pode vir a falecer, e o filho fica encarregado da difícil missão de promover esse reencontro. Kyle Garret (Jeff Bridges) não fala nem mesmo com Carlton há cerca de cinco anos, mas antes desse sumiço já demonstrava mais apreço pela carreira esportiva que pela própria família. Entrando em contato com o agente do pai, o rapaz descobre que ele está participando de um evento em Ohio e viaja para lá na companhia da amiga Lucy (Kate Mara). Na realidade, eles namoraram por algum tempo, mas a obsessão de Carlton em ser um exímio jogador acabou deixando-o sem tempo para sua vida pessoal, assim eles preferiram se separar e continuar bons amigos. O reencontro de pai e filho é cordial, mas sem emoção, todavia, ao saber os motivos da procura Kyle concorda em voltar a sua antiga cidade para atender aquele que poderia ser o último desejo da ex-esposa.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O JOGO DA MORTE (2006)

Nota 7,0 Apesar de lento, suspense é claustrofóbico, intrigante e com conteúdo relevante

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, muitos produtores começaram a caçar roteiros que trabalhassem com a temática do preconceito e o medo dos americanos em relação aos povos árabes, mas e o avesso desta situação seria possível? É esse o foco do diretor Laurence Malkin com o suspense O Jogo da Morte, título genérico que não vende bem o filme. Quem busca ação, tiros e sopapos certamente irá se decepcionar, pois na realidade o que impera é uma narrativa lenta e que alterna momentos de puro silêncio a outros de grandes diálogos que podem parecer confusos inicialmente, mas pouco a pouco vão envolvendo o espectador que certamente não espera a conclusão crítica oferecida pelo roteiro escrito pelo próprio cineasta em parceria com Chad Thumann. O filme é centralizado em um idealista holandês, Martijin (Ryan Philippe), que estava muito entusiasmado com sua viagem ao Marrocos com o objetivo de iniciar um fundo de caridade. O rapaz contrata os serviços de Gavin (Colm Meaney), um guia turístico que só conheceu pessoalmente já no aeroporto. Chegando ao destino, o ônibus que a dupla estava foi atacado por bandidos e quando eles se dão conta se encontram em uma espécie de galpão abandonado onde estão amarrados, um de costas para o outro, e com os olhos vendados. Imediatamente o holandês começa a acusar o guia de que tudo isso seria sua culpa, ainda mais depois que ficou sabendo que no passado ele trabalhava em uma empresa de produtos químicos que oferecia treinamentos anti-sequestros por conta dos perigos que alguns países ofereciam por serem contra tais atividades, provavelmente algo envolvendo exploração do trabalho. A discussão é observada de longe por Ahmat (Laurence Fishburne), líder de um grupo terrorista que não pensa duas vezes antes de matar o guia turístico. O problema era o próprio Martijin que então é obrigado a jogar xadrez com seu algoz que passa a questioná-lo sobre sua verdadeira identidade e seus reais interesses em solo árabe. A cada resposta que não o agrade, uma tortura é aplicada ao prisioneiro, até mesmo a perda de alguns dedos caso julgue necessário. Entre conversas tolas a respeito de sexualidade, preconceitos e etnias, Ahmat consegue torturar psicologicamente Martijin demonstrando saber muito sobre sua vida, detalhes que vão desde o conhecimento do conteúdo de conversas particulares até a respeito de números de seus documentos. Em flashbacks, um pouco de seu passado vai sendo revelado, deixando cada vez mais latente que o rapaz foi ao Marrocos em missão de paz, assim acentuando o perfil de vilão de Ahmat.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

MANSÃO MAL-ASSOMBRADA

NOTA 7,5

Divertido e com alguns bons
sustos, esta é uma legítima
comédia para toda a família que
agrada com seu visual de arrepiar
É curioso como produções de horror e suspense ao mesmo tempo em que assustam também fascinam as crianças e de olho nisso sempre os produtores estão sempre atentos à caça de algum bom roteiro que possa unir comédia, aventura e terror. Já tivemos grandes produções do tipo, como Convenção das Bruxas e A Família Addams, por exemplo, mas é uma pena que a maioria dos filmes que seguem esse caminho acabam subestimando a inteligência do espectador ou até mesmo constrangendo com seus “defeitos” especiais, sendo apenas passatempos para crianças bem pequenas. Mansão Mal-Assombrada não é excepcional, mas no conjunto é uma opção que agrada a todas as idades, até porque tem um irresistível clima de nostalgia, parecendo um trabalho pinçado dos anos 80 ou 90 bem estilo sessão da tarde. No entanto, ele é um representante legítimo do século 21, tanto é que sua realização só foi possível por conta do sucesso de Piratas do Caribe – A Maldição do Pérola Negra. O que há em comum entre estas duas obras? Além de serem produtos Disney, ambas nasceram de forma inusitada inspiradas em brinquedos do parque de diversões da empresa. Com uma crise de criatividade duradoura em Hollywood, exigências visuais para os filmes conseguirem fazer carreira nos cinemas (justificar o preço alto dos ingressos) e visando incentivar um maior número de visitantes para seus parques temáticos, o estúdio do Mickey Mouse recebeu carta branca dos chefões para criarem longas-metragens baseados nos conceitos de algumas atrações que já haviam recebido milhares de visitantes. A primeira experiência, Beary e os Ursos Caipiras, fracassou, algo já esperado pelo seu visual simplório como se fosse uma produção de canal de TV educativo infantil, mas os milhões arrecadados pela citada aventura em alto mar protagonizada por Johnny Depp animou os executivos e assim que os primeiros resultados de faturamento chegaram às suas mãos começou a entrar em produção a comédia que tem como cenário principal um casarão habitado por fantasmas. O diretor Rob Minkoff, experiente no conceito filmes-família tendo dirigido a animação O Rei Leão e as aventuras O Pequeno Stuart Little e sua continuação, procurou se cercar de elementos já aprovados em outros produtos do estilo, assim não é de se estranhar a escalação de Eddie Murphy como protagonista, ainda mais que na época ele havia recobrado seu prestígio com o sucesso de A Creche do Papai.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O PREÇO A PAGAR

NOTA 7,0

Dois homens de classes sociais
distintas se aproximam por um
problema em comum: suas esposas
só querem o dinheiro deles
O que é uma mulher dondoca? Tal rótulo geralmente é dado às esposas que não trabalham e vivem de luxos conquistados às custas do marido. Em tempos em que o valor de uma pessoa é medido primeiramente pela etiqueta de sua roupa, pessoas do tipo são cada vez mais comuns e nada melhor que o cinema francês para fazer uma crítica irônica a esse respeito, afinal a França é conhecida por suas grifes famosas que vão dos sapatos ao perfume que as madames usam. Em O Preço a Pagar, a diretora e roteirista Alexandra Leclère aborda este tema por um viés sarcástico, mas no fundo ele tem potencial para despertar polêmicas. No entanto, ela mostra os dois lados da moeda, também apresentando uma personagem que busca justamente sua independência financeira através do trabalho. São dois casais protagonistas em situações financeiras opostas, mas conflitos semelhantes. Curiosamente, os personagens menos abastados não têm sobrenome enquanto os burgueses são chamados constantemente pelo sobrenome. Todavia, na hora do aperto todos são iguais e da identificação com problemas conjugais é que nasce a amizade entre Jean-Pierre Ménard (Christian Clavier) e Richard (Gérard Lanvin), respectivamente patrão e motorista. Ambos com idades próximas, em torno de 50 anos, eles estão insatisfeitos com seus casamentos. Monsieur Ménard é um empresário muito rico que está triste com o aparente desprezo da esposa Odile (Nathalie Baye), não havendo demonstrações de carinho entre o casal e nem mesmo com a filha adolescente que entra em cena apenas para figuração, assim como a empregada da família. Sem ter com o que ocupar seu tempo, Madame Ménard se dedica diariamente às compras de roupas, futilidades e idas a salões de beleza. Vez ou outra ela se lembra de comprar algo para o marido, como se fosse para se livrar de um peso que a atormentasse, mas na verdade é ele mesmo quem está pagando e, o pior, geralmente ela erra seu número de vestimenta, o que mostra o quanto ela se interessa por ele. O casal chegou ao ponto de até dormir em quartos separados com ela justificando a medida como algo necessário por conta dos hábitos noturnos diferenciados de cada um deles.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

PUTZ! A COISA TÁ FEIA

NOTA 5,0

Falta humor, criatividade, apuro
visual e personagens carismáticos
à releitura de conto clássico, mas ao
menos a lição de moral é preservada
Um desenho animado destinado ao público infantil não pode ser apenas divertido, também precisa necessariamente de uma mensagem edificante para o programa ter algum valor, algo que possa auxiliar na educação dos pequenos. Com o tema bullying em evidência nos primeiros anos do novo milênio, cada vez mais os temas a respeito de beleza e aparência física tem sido inseridos no universo infantil e consequentemente o cinema segue tal tendência, mas não para idolatrá-la, mas sim para provar que imagem não é tudo, o que importa é o seu conteúdo, ou seja, os valores morais e o caráter dos indivíduos. Shrek é um dos exemplares mais evidentes desta corrente. Podemos voltar no tempo e relembrar o caso de A Bela e Fera. E por que não citar Putz! A Coisa Tá Feia? O quê? Realmente, esse título é doer, mas esta é uma produção dinamarquesa que faz uma releitura do conto clássico “O Patinho Feio”, de Hans Christian Andersen. Com direção de Karsten Kiilerich e Michael Hegner, o longa não fez sucesso, pelo contrário, angariou uma quantidade surpreendentes de críticas negativas. É certo que não é um trabalho excepcional e conta com vários equívocos, a começar por sua terrível nomeação no Brasil, mas é triste ver como vários comentários insistem em compará-lo com produções da Pixar ou Dreamworks. Isso é uma covardia e tanto, afinal basta observar sua curta duração e país de origem para perceber que o projeto é de porte pequeno, porém, os recursos escassos não justificam a falta de criatividade, principalmente quanto ao texto redigido pelos próprios cineastas em parceria com Mark Hodkinson. Ratso é um rato da cidade grande obcecado pela ideia de ganhar dinheiro como artista e seu grande sonho é realizar um show em um parque de diversões, porém, ele vai parar em uma região mais campestre e a forma que encontra para sobreviver é explorando o trabalho da minhoca Wesley, a quem apresenta como sendo o maior de sua espécie graças a trucagens ordinárias. Raramente alguém os aplaude, mas depois que já pagaram o ingresso nada mais importa. Certa vez, a apresentação é interrompida por Phyllis, uma ratinha literalmente topetuda e acompanhada de dois capangas que começam a persegui-los. A dupla acaba conseguindo escapar, mas a rata parece ter razões para sua raiva e promete caçar Ratso onde quer que ele esteja.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A GUERRA DOS WINTERS

NOTA 7,0

Drama independente aborda as
consequências de uma tragédia
sobre uma família, porém, evita
momentos de conflitos explosivos
Um dos temas prediletos do cinema americano independente é falar sobre famílias desestruturadas, mas o que era visto com olhares de novidade outrora já faz algum tempo que perdeu o espírito de novidade. Contudo, quem gosta de dramas e histórias mais realistas e humanas certamente deleita-se com produções desse tipo, embora seja uma pena que a maioria só ganhe projeção quando indicada ou vencedora de prêmios importantes, o que infelizmente não é o caso de A Guerra dos Winters, filme simples que aposta em temáticas batidas, mas que de qualquer forma mostra-se um belo trabalho de estreia do diretor e roteirista Josh Sternfeld. Lançado nos cinemas com o nome Sobre Pais e Filhos e sem grande projeção, é justificável seu esquecimento quando lançado em DVD, erro não corrigido até hoje por parte do público. Por conta de uma mudança de distribuidora para comercialização do longa em home vídeo, a troca de título foi infeliz, pois vende a ideia de uma comédia, quando na verdade é um drama leve, porém, sem a mínima dose de humor. O foco da trama é falar sobre as dificuldades de comunicação entre as pessoas e a falta de perspectivas para quem vive em cidades interioranas. Contemporâneo, o enredo faz um paradoxo interessante a vida nas grandes metrópoles, visto que nelas as opções de ascensão parecem não faltar e é propagada aos quatro ventos a ilusão de que a comunicação via meios eletrônicos aproxima as pessoas. Sternfeld, no entanto, só deixa subentendida essa diferença, o que deixa sua obra com um irresistível clima bucólico, como se a cidade em que a trama se passe tivesse parado no tempo. Tal tranquilidade só é quebrada quando nos lembramos do episódio que abalou as estruturas da família Winter. Há cinco anos a matriarca do clã faleceu em um acidente de carro quando buscava o filho caçula no treino de beisebol na região central da cidade (cujo nome não é mencionado). Tal informação só é dada na reta final, mas não configura surpresa alguma, contudo, essa revelação serve para confirmar tudo aquilo que absorvemos ao longo da projeção a respeito da família protagonista. De classe média, procuraram viver e educar os filhos longe dos agitos e vícios das metrópoles, mas a tragédia acabou provocando reações adversas nos filhos e no marido, cada um tentando superá-la de uma forma, mas todos coincidentemente procurando a introspecção como escudo.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O SILÊNCIO DE MELINDA

NOTA 6,0

Voltado para os adolescentes,
drama reafirma a importância do
diálogo, mas mesmo com tema polêmico
em pauta longa não se aprofunda
O processo de extinção das videolocadoras físicas infelizmente já vem acontecendo há alguns anos, mas aquelas que conseguiram se manter ativas entre 2008 e 2013 certamente se beneficiaram do fenômeno Crepúsculo. Além da renda gerada pela série, também deve ter sido verificado o interesse dos fãs pela filmografia dos protagonistas, sendo que Kristen Stewart levava ligeira vantagem nesse quesito na comparação com seus pretendentes no romance sobrenatural mesmo com uma carreira curta até então. Para as lojas que não tinham o costume de vender o acervo inativo, provavelmente deve ter gerado algum lucro certos títulos desconhecidos, mas que só por ostentar o nome da estrelinha teen já despertariam o interesse de muitos. O Silêncio de Melinda é um bom exemplo.  Lançado em 2004, este drama juvenil é uma adaptação do romance “Speak”, de Laurie Halse Anderson. O roteiro de Annie Young Frisbie e Jessica Sharzer, esta que também assina como diretora, conta a história da adolescente Melinda Sordino (Stewart) a partir do primeiro dia de aula de um novo ano letivo. Embora já estudasse no colégio, ela aparenta ser uma completa estranha no ambiente e seu estado de espírito em nada se assemelha a euforia dos demais estudantes. Sentindo-se deslocada e considerando seus professores completamente excêntricos, ela só relaxava quando estava na companhia do Sr. Freeman (Steve Zahn), o novo professor de artes que por ser também jovem parecia compreender melhor os alunos e dava a liberdade para que todos se expressassem através de desenhos livres. Ela também admirava o jeito contestador de Dave Petrakis (Michael Angarano), aluno com coragem para expor opiniões e contrariar professores, não raramente dizendo as coisas que estavam engasgadas na garganta dela. A narração em off da protagonista procura deixar claras suas sensações, expectativas e angustias, mas chama a atenção quando ela comenta sobre Rachelle Bruin (Hallee Hirsh), aquela que viria a ser a sua ex-melhor amiga. Hã? Sim, isso mesmo. O início do filme é um pouco confuso por aparentemente narrar a adaptação da garota a um novo colégio, o que não deixa de ser verdade de certa forma visto que para ela tal ambiente está completamente mudado.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

COM AMOR... DA IDADE DA RAZÃO

Nota 7,0 Quarentona tem a chance de mudar sua vida graças a um presente vindo do passado

Quando somos crianças sonhamos em ter mil e uma profissões e formar uma família bem sucedida e unida. Com uma infância feliz, a tendência é que o indivíduo venha a ser um adulto de bem com a vida, salvo raras exceções. Mas como será o futuro de um menor que viveu fatos marcantes e tristes? Teria chances dessa pessoa recobrar a esperança e a felicidade? Esse é o tema de Com Amor... Da Idade da Razão, draminha francês bem leve e com pitadas de humor que nos apresenta à Margareth Flore (Sophie Marceau), uma executiva muito atarefada e destemida que está envolvida em um grande negócio com investidores da China. Enquanto tenta ver qual a melhor margem de lucro que pode tirar desta negociação, ela namora as escondidas Malcolm (Marton Csokas), um colega de trabalho. No dia de seu aniversário de 40 anos, duas coisas inesperadas lhe acontecessem. Ela é pedida em casamento e também recebe a visita de um velhinho que pelo pouco que conversaram dá a entender que conhece muito sobre esta mulher, porém, a chama incessantemente de Margarida. Apesar de renegar, mais tarde ela acaba confessando que este é realmente seu nome de batismo, mas adotou Margareth na vida adulta por achar que impõe mais respeito e confiança no mundo dos negócios. Por esse motivo somado a sua compulsão pelo trabalho já dá para perceber que ela é uma mulher ambiciosa que não se importa em deixar sua vida pessoal de lado, porém, ela não era assim, ficou dessa forma. O tal idoso, o Sr. Mérignac (Michel Duchaussoy), a procurou para lhe entregar um presente providencial para seu quadragésimo aniversário. Ele lhe oferece um embrulho contendo alguns objetos e imagens que remetem a sua infância juntamente com quatro cartas escritas por ela mesma quando tinha apenas sete anos de idade, a idade da razão como a própria dizia. Ela nem se lembrava desses escritos, mas curiosamente, entre coisas absurdas e outras inocentes, ela encontrou palavras que necessitava nesse momento da vida, frases que a fizeram relembrar a criança sonhadora que era e o que a levou a se tornar uma adulta durona e gananciosa. As cartas seriam registros da outrora sábia garotinha já prevendo que um dia esqueceria sua essência e precisaria ser resgatada, mas só a mulher que ela seria um dia poderia fazer isso.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

MENSAGENS DO ALÉM (2007)

Nota 4,0 Apesar do título, longa é suspense policial com boa premissa, mas resultado é irregular

Quem se sente atraído pelo genérico título Mensagens do Além certamente espera que a temática da comunicação do mundo dos mortos com o dos vivos seja destacada, porém, o longa do diretor David Fairman deve decepcionar os fanáticos pelo assunto, revelando-se um suspense muito mais de cunho policial que espiritual. O roteiro de Wayne Kinsey e Ivan Levene começa apresentando um rápido acidente de carro no qual a vítima é arremessada para fora pelo vidro dianteiro. Oito meses depois, um corpo de mulher é encontrado em um matagal, mais uma vítima de um assassino serial que parece estar atacando na região. O que tem a ver estes dois episódios? Ambos são de interesse do Dr. Richard Murray (Jeff Fahey) que perdeu a esposa Carol (Geraldine Alexander) no citado desastre e trabalha no setor de autópsias do hospital local que está recebendo os corpos mutilados das vítimas do desconhecido maníaco. Este médico legista é um bom profissional, porém, constantemente está em atrito com o Dr. Robert Golding (Bruce Payne) que implica com suas constantes faltas e seu vício em bebidas, problemas que Murray justifica pelas dificuldades em superar a morte da mulher que aparece em flashbacks mostrando que a vida do casal estava um pouco conturbada. Ela amava demais o marido e jamais sentiu que seu amor foi correspondido à altura, assim passou a criar em sua cabeça delírios a respeito de infidelidade que culminaram em sua trágica morte. Além de lidar com o Dr. Golding, que não inspira ser de confiança, o legista ainda terá que enfrentar um encontro com seu passado com a chegada da Dra. Frances Beales (Kim Thompson), sua namorada nos tempos da faculdade. O fogo da paixão nas reascende, mas ela serve como uma espécie de confidente, afinal sua área de atuação é a psicologia. Murray conta a ela que certa noite viu no seu computador uma mensagem de pedido de ajuda, mas não se lembra de tê-la escrito. Em outra ocasião sonhou com a morte de uma jovem e quando acordou viu no espelho do banheiro o nome Julie French, justamente a quinta garota a falecer de forma brutal e que ele mesmo terá que fazer a autópsia.

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...