sexta-feira, 7 de julho de 2017

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA

NOTA 8,5

Jogando pistas falsas e criando
uma constante atmosfera de mistério,
filme busca instigar sensações e seu
estilo marcou época tornando-se um cult
A década de 1970 foi um período de muitas experimentações no campo cinematográfico e algumas obras causaram verdadeiro frisson pelo modo diferenciado de se contar histórias ou por  trazer a tona cenas ou temáticas polêmicas. O cinema de horror e fantástico, que já se caracteriza por dar margem à imaginação sem limites, obviamente se beneficiou dessa liberdade criativa. Dessa safra existe uma produção que pode não carregar a aura de sucesso e mistério de alguns de seus contemporâneos, como O Exorcista ou Carrie - A Estranha, mas cujo passar do tempo tratou de alçá-la a status de cult e de grande influência para futuras gerações de cineastas. Inverno de Sangue em Veneza, do britânico Nicolas Roeg, não oferece a violência gráfica sugerida pelo título, mas sugestiona uma crescente e constante tensão graças a uma apurada construção do roteiro aliada a uma direção que compõe uma atmosfera que permite sensações únicas e várias interpretações. Baseado em um conto de Daphne du Maurier, autora cujas obras inspiraram Alfred Hitchcock para Rebecca - A Mulher Inesquecível e Os Pássaros, a introdução já é uma verdadeira aula de cinema mostrando como fisgar a atenção do espectador. Duas ações paralelas acontecem em uma propriedade rural na Inglaterra. Dentro da residência o casal Laura (Julie Christie) e John Baxter (Donald Sutherland) estão cumprindo tarefas de suas rotinas, mas ele sutilmente dá sinais de que pressente que algo de ruim está para acontecer, embora mais adiante ficamos cientes quanto ao seu ceticismo em premonições e afins. Do lado de fora seus filhos estão brincando próximo a um lago e a câmera parece seguir passo a passo da garotinha que veste uma capa com capuz de vermelho intenso, a mesma cor do vinho derramado acidentalmente em algumas fotos analisadas por seu pai, um restaurador de obras de arte. Roeg monta as sequências de forma intercalada e cria conexões sem usar diálogos, mas o suficiente para nos envolvermos com o drama dos protagonistas que perdem a filha por afogamento. A introdução é rápida e um corte seco de edição nos transporta até Veneza, na Itália. Algum tempo depois do triste acontecimento os Baxters estão na cidade por conta de um trabalho do restaurador, mas no fundo desejam que o tempo fora de casa os ajude a superar a perda. Contudo, isso será impossível.

Em um restaurante chama a atenção do casal duas senhoras de idade que olham fixamente para eles e parecem tecer comentários. Elas são as irmãs Wendy (Clelia Matania) e Heather (Hilary Mason), esta última uma médium que apesar de cega afirma para Laura que viu a sua filha sentada junto aos pais à mesa, inclusive frisando que ela estava trajava a tal capa vermelha e estava feliz. Os detalhes da visão fazem a mãe fragilizada acreditar piamente e desencadeiam uma série de acontecimentos que conturbam ainda mais a relação do casal já estremecida por conta do sentimento de negligência que os rodeia. Algum tempo depois, John certa noite vê entre os labirintos venezianos a imagem de uma criança correndo usando a mesma roupa que sua filha trajava quando morreu e embora tenha se impactado com a visão prefere ignorá-la. Já Laura novamente encontra a tal deficiente visual que volta a dizer que a garota falecida está rondando o casal, mas desta vez acrescenta que ela quer avisar o pai que ele corre perigo enquanto permanecer em Veneza. A partir deste ponto o roteiro se sustenta no embate entre o ceticismo de John e a crença no sobrenatural que ao mesmo tempo traz conforto e dúvidas para sua esposa. Em paralelo, lentamente é construída a expectativa de que a qualquer momento algum acontecimento ou revelação irá surpreender o espectador e Roeg faz isso sem apelar a clichês óbvios. Trabalhando com ambiguidades, ele sempre tenta apresentar uma causa natural para justificar os fatos, mas ao mesmo tempo elas mostram-se incapazes de esclarecer com objetividade. John está restaurando o afresco de uma catedral e faz amizade com o cardeal com quem compartilha a descrença no sobrenatural. Estaria  na fé no catolicismo a resolução do filme? Coincidentemente na mesma época fala-se sobre desaparecimentos e assassinatos de menores e curiosamente Wendy e Heather mantém em seu quarto de hotel fotos de diversas crianças e em determinado momento surgem gargalhando em frente as imagens. Teriam elas alguma ligação com os crimes? Elas também convidam Laura para uma sessão de evocação espírita e insistem para que tome uma bebida, o que de imediato nos faz lembrar do doce alucinógeno oferecido por uma vizinha à protagonista do clássico O Bebê de Rosemary. Suspeito não?

O roteiro de Allan Scott e Chris Bryant é permeado de situações que passam a falsa impressão de que algo estranho está acontecendo ou ainda irá ocorrer, mas personagens e público não sabem exatamente o que é. Todos estão desorientados e a sensação de inquietude permanece até os créditos finais, tendendo a continuar a seguir o espectador mesmo após o término. Inverno de Sangue em Veneza não tem o objetivo de contar uma história comum, linear e tampouco justificada. Na verdade é uma obra calcada em sensações a partir de uma envolvente atmosfera de desorientação e mistério. Alguns podem ficar estarrecidos negativa ou positivamente, outros com um nó na garganta, muitos se decepcionam e não faltam aqueles para aplaudir. Também não estranhe se todos essas percepções componham seu julgamento, afinal elas se aplicam a diversas cenas, algumas geniais, outras enfadonhas e muitas que ficarão na memória cutucando o espectador a rever a obra para montar o quebra-cabeças que no fundo não se revela tão complicado. Apenas não se pode contestar o nível de criatividade e originalidade do trabalho de Roeg, tanto que o estilo narrativo e de direção acabou fazendo escola entre outros cineastas, além da enigmática figura da menina vestida de vermelho ter se tornado um ícone do cinema de horror da década de 1970. Aliás, vale citar que a cidade italiana assume quase o papel de um personagem onipresente. Com seus característicos tons escuros e lúgubres acentuados pelo inverno, o local ganha uma aura gótica bastante condizente à proposta no filme que conta com várias sequências noturnas. Aproveitando-se dos becos apertados e mal iluminados, o diretor acentua a sensação de desorientação e isolamento dos protagonistas colocando-os na maioria das vezes caminhando a noite sem uma viva alma na rua sequer. Para completar, as gárgulas que adornam os santuários possuem expressões nada convidativas e parecem encarar o casal de forma a demonstrar que não são bem-vindos na cidade. É uma pena que com tantos aspectos técnicos e narrativos a serem analisados o filme ainda seja lembrado mais pela tórrida cena de sexo feita por Julie e Sutherland. Ousada para a época, hoje ela não choca, mas chama a atenção pelo rápido trabalho de edição que não dá chances do espectador caçar detalhes que atestem o boato de que de fato os atores transaram durante as filmagens. Mistério...

Suspense - 112 min - 1973

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