sábado, 1 de julho de 2017

A CHEFA

Nota 3,0 Feito para atriz principal brilhar, comédia é rasteira e com argumento mal desenvolvido

Quem é Melissa McCarthy? Até o sucesso de Missão Madrinha de Casamento, que lhe rendeu uma inesperada indicação ao Oscar como coadjuvante, ela era apenas uma ilustre desconhecida, aquela gordinha engraçada que você sabe que já viu em algum filme ou série, mas cujo nome não sabia ou lembrava. Sua primeira cena em A Chefa, coincidência ou não, lembra bastante a postura da atriz em aparições públicas após as indicações a prêmios: cheia de marra e vendendo a imagem de uma pessoa vitoriosa e amada por todos. Michelle Darnell, sua personagem, faz a abertura do show de um rapper e é ovacionada por milhares de pessoas inebriadas por sua aura de sucesso. Dona de várias empresas e autora de um best-seller de auto-ajuda, ela faz questão de destacar que se tem muito dinheiro e poder é graças a muita dedicação ao trabalho, mas nos bastidores ela é odiada por aqueles que são obrigados a conviver com sua tirania e futilidade. Claire (Kristen Bell), sua assistente há anos, nunca reclamou dos mandos e desmandos, mas está aguardando uma promoção faz tempo e quando decide colocar a empresária contra a parede é tarde demais. Investigada em um caso de corrupção e espionagem empresarial, a magnata que até então se considerava intocável e que tudo seu dinheiro poderia comprar acaba indo parar atrás das grades. Meses depois lhe é concedida liberdade condicional, mas agora todo seu patrimônio está confiscado e apenas Claire que tanto humilhou e explorou é quem oferece ajuda, muito por insistência de Rachel (Ella Anderson), a filha pequena de sua ex-colaboradora que é mãe solteira. Michelle então vai morar por alguns dias no pequeno apartamento delas, mas espaçosa como ela só a estadia acaba se estendendo a perder de vista e a convivência inicialmente é bastante conturbada. Contudo, o roteiro simplifica tal relação ao máximo e num passe de mágica  a harmonia reina absoluta entre elas a ponto de firmarem uma sociedade para venderem brownies, a especialidade de Claire na cozinha.

Tentando transmitir edificantes mensagens a respeito de valorização das amizades, humildade, solidariedade e outras coisas positivas, o roteiro de Steve Mallory com pitacos de McCarthy e de seu marido Ben Falcone, também diretor da fita, acaba se perdendo em meio a situações previsíveis e gags visuais nem sempre funcionais. É nítido que o filme foi feito para a protagonista brilhar, assim como Tammy, projeto anterior do casal, mas talvez ela tenha levado isso ao pé da letra e exagerou no histrionismo. O enredo simplesmente joga na tela uma personagem rechonchuda, com visual espalhafatoso e escandalosa. Não há construção de um perfil bem delineado. Um prólogo mal ajambrado nos revela que na infância Michelle vivia de idas e vindas para um orfanato, sempre rejeitada pelas famílias que tentavam adotá-la, o que revela seu gênio forte e indomável. Poderia ser uma história de superação, mas o comportamento da personagem adulta deixa explícito que enriqueceu pisoteando em cima dos outros. Não é a toa que recém-saída da cadeia passa a ser persenguida por Renault (Peter Dinklage), seu antigo namorado que também foi prejudicado por ela, apesar de ele também não ser nenhuma flor que se cheire. O longa também perde a chance de trabalhar temas a respeito da ascensão da mulher no mercado de trabalho e sobre empreendedorismo. Michelle por trás da imagem segura que vende esconde uma romântica inveterada (ou seria uma tarada?) e Claire obviamente não deixa de ter um interesse romântico para incentivá-la nos negócios, no caso Mike (Tyler Labine). E parte do argumento apesar de lembrar o esquecido Presente de Grego, no qual a personagem de Diane Keaton enxerga na necessidade de fazer papinhas de bebê a oportunidade de um negócio, aqui é usado como uma mera desculpa para a união da empresária falida e sua ex-funcionária em prol de sua reestruturação financeira e de status. Mesmo com problemas, A Chefa passa despercebido como um passatempo, mas é a prova de que McCarthy já não pode mais bancar a citada pose de bambambã. Tal qual sua personagem, sua carreira de uma hora para a outra pode ruir. 

Comédia - 99 min - 2016

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