segunda-feira, 16 de junho de 2014

PIÑERO

NOTA 7,0

Visual estilizado chama a atenção
para contar história de artista
rebelde que teve oportunidades para
vencer, mas seus vícios o derrotaram
Muitos atores desacreditados agarraram com unhas e dentes oportunidades que julgam únicas, mesmo que para tanto precisem se distanciar de sua própria personalidade para dar vida a um personagem completamente diferente de si mesmo. Os resultados geralmente surpreendem e rendem prêmios, mas o mesmo não aconteceu com Benjamin Bratt ao aceitar protagonizar Piñero, a dramatização da vida do poeta, dramaturgo e ator latino Miguel Piñero. Quem? Pois é, talvez nesta simples pergunta esteja implicitamente a resposta para o fracasso do filme escrito e dirigido pelo cubano Leon Ichaso. Fora dos EUA, poucos conhecem a história deste porto-riquenho que se mudou ainda criança com a família para a “terra de sonhos” e se decepcionou com o que encontrou. Bratt, mais conhecido como o interesse romântico de Sandra Bullock em Miss Simpatia e como um dos affairs da vida de Julia Roberts, entregou-se de corpo e alma para retratar a conturbada e agitava vida do agitador cultural, na verdade um entusiasta da contracultura que marcou época, principalmente em Nova York, durante os anos 70 e 80 com o seu “Nuyorican Poets Café”, um espaço reservado para performances de artistas alternativos que como ele não viam sentido na arte tradicional que simplesmente lançava cópias em sistemática industrial e desprovidas de emoções. Nesse ponto de encontros, regados a drogas e álcool, Piñero e seus colegas declamavam poesias, interpretavam peças e escutavam músicas, tudo acompanhado de gesticulações e entonações de voz que remetiam a situações de protesto, como se clamassem para serem ouvidos. Após viver uma infância problemática por conta da ausência do pai, ver o sofrimento da mãe para cuidar de cinco filhos e constatar que o propagado sonho americano é apenas uma utopia, o artista buscou as ruas como consolo, onde logo se envolveu com pequenos crimes seguidos do envolvimento com drogas e vida promíscua. O resultado foi a prisão durante anos, mas onde aprendeu a se expressar através da escrita. Quando conseguiu a liberdade, alcançou um enorme sucesso com a peça “Short Eyes” baseada em suas memórias dos tempos de cárcere, produção vencedora de sete prêmios Tony, o Oscar do teatro. Embora tenha chegado a atuar e escrever para a TV, teve um momento em que Piñero passou a sentir os efeitos nocivos de sua vida desregrada, o que acabou refletindo também em sua arte. A vida certinha não servia para ele que costumava dizer que precisava se comportar mal para manter a qualidade de seu trabalho.

O filme aprofunda esta relação paradoxal. Embora não fosse de forma alguma um bom exemplo devido a seus vícios, era inquestionável que jamais deixou ser franco, expressava absolutamente tudo o que vinha à sua cabeça, e que sua arte era autêntica. Apesar de todo o prestígio que conquistou sendo considerado um “artista maldito” com seus trabalhos que contestavam governo, hipocrisia da sociedade e até mesmo o conceito de família, o rapaz não conseguiu abandonar as drogas e para manter o vício voltou a praticar pequenos furtos. Ele já sabia que seu fígado estava comprometido, mas Ichaso não quis debater o que leva uma pessoa a antecipar a própria morte, simplesmente tenta compreender a ideologia que rege a vida de alguém que tem a coragem de viver cada dia intensamente e sem medo de morrer. É previsível que seu destino seria a solidão, mas ele só se dá conta quando seus amigos já não estão mais vivos.  Bratt consegue personificar todas as transformações do poeta até chegar ao fundo do poço, um desempenho que para variar foi ignorado pelas principais premiações. Nem o diretor confiava no ator para interpretar uma figura tão complexa, tanto que o rapaz implorou pelo papel. É uma pena que todo seu esforço em nada alterou os rumos de sua carreira, voltando a ser um mero coadjuvante. O que teria dado errado visto que cinebiografias costumam ter boa recepção? São vários os fatores. Além do fato de homenagear um artista desconhecido fora de seu território, o longa foge de fórmulas batidas e dispensa a redenção ou lição de moral. Piñero viveu apenas 40 anos, faleceu vítima de cirrose em 16 de junho de 1988, mas sua passagem foi vivida intensamente e sua morte anunciada meses antes o ajudou a se preparar psicologicamente ou quase isso. Tinha consciência de que a cada nova injeção de alucinógenos seu tempo de vida diminuía, mas agia seguindo seus instintos, o que lhe importava era o momento. Não havia como limar as drogas do enredo e tampouco florear o final. Ele morreu praticamente como um mendigo e o filme segue sua trajetória fielmente. Em tempos em que tal vício parece descontrolado a ponto das pessoas irem as ruas lutar por sua legalidade, defenderem o direito de se matarem pouco a pouco e consequentemente levarem outras pessoas nessa onda, realmente é polêmico que filmes toquem no assunto sem aplicarem uma mensagem moralista. Presença rara no cinema nos últimos tempos, Rita Moreno, uma das vencedoras do Oscar e principais artistas dos anos 60, surge em algumas cenas como a mãe do protagonista com conhecidos lamentos e conselhos, mas sua participação não é aprofundada talvez justamente para evitar os clichês. Ela chega a se perguntar onde está o garotinho tão gentil que criou e o porquê de ele ter entrado para o crime se sempre teve tudo o que precisava para ser feliz, mas o pieguismo não vai longe.

A intenção do filme não é mostrar o sofrimento da família de um viciado e sim explorar a própria relação do doente com o mundo das drogas, tentar verificar o que lhe atrai e como lida com a contradição de saber que pode estar trocando um dia de vida por alguns minutos de prazer. Para pessoas menos instruídas pode não ficar claro que o longa não faz apologia às drogas, apenas lança seu olhar onipresente sobre esse submundo. Parece que Piñero apenas se relaciona com más companhias, mas a realidade é essa mesma. Uma pessoa que não é usuária dificilmente compactuaria a manter amizade com um viciado, pois as noções de realidade entram em conflito. O protagonista mostra bem isso chegando a um ponto que admite que tudo o que faz só vale a pena quando está chapado. Além desse problema de parecer uma afronta aos bons costumes, o longa foi lançado pouco tempo depois que outro poeta rebelde ganhou as telas, o cubano Reynaldo Arenas retratado em Antes do Anoitecer, cinebiografia narrada de forma mais tradicional apesar da vida do homenageado também ter sido uma espiral com destino ao abismo. Talvez por isso Ichaso foi ousado na apresentação de sua obra, o que também pode ter gerado resistência. Embora dê para compreender a trajetória do homenageado, toda a trama é entrecortada por cenas do passado, presente e futuro que se misturam sem cerimônia deixando uma sensação incômoda como se algumas situações estivessem sendo adicionadas ao acaso, além de também não ser muito eficiente o excesso do uso de câmera tremida e fotografia com cores diferenciadas ou recorrendo à simplicidade do branco e preto em alguns momentos. Tais efeitos são válidos para uma introdução, conclusão ou cena intermediária de impacto, mas ao longo de toda a narrativa cansa, uma viagem alucinante. Bem, a proposta aparentemente era essa mesma. A confusão de imagens seria uma metáfora ao espírito inquieto do protagonista, um convite para o espectador participar de seu mundo alternativo. Vendo por esse lado, Piñero alcança seus objetivos, deixando quem assiste angustiado, impotente e em vários momentos com a sensação de asco, mas sejamos franco, não é o tipo de produção que você assiste com prazer. Recomendável para quem curte refletir após os créditos finais ou está precisando de um choque de realidade.

Drama - 103 min - 2001

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