Conflito pela posse de uma casa é levada ao limite da tolerância e suas consequências devastadoras
A obsessão pelo sonho americano também pode levar ao pesadelo e essa é a grande mensagem de Casa de Areia e Névoa. O conceito de que os EUA é a terra das oportunidades surgiu após a Segunda Guerra Mundial quando os norte-americanos passaram a cultivar a imagem de grande potência. Assim muitas pessoas partiram para lá sonhando com melhores condições de vida, mas na realidade as coisas não são tão fáceis como mostra o longa do diretor Vadim Perelman. Na verdade a mensagem não é restrita ao sonho americano, podendo ser aplicada em várias situações do cotidiano. Quantas vezes você já não brigou por motivos tolos? Às vezes o que é uma bobagem para os outros para você é de suma importância naquele momento e vice-versa. Cada cabeça é uma sentença e a vida é feita de conflitos que precisamos superar para nos tornar pessoas melhores, mas em alguns casos as coisas são complicadas. O longa poderia ser facilmente resumido como a história de duas pessoas que disputam um imóvel, cada qual com suas justificativas e ideais a defender, uma briga que revela a falta de limites e o egoísmo do ser humano quando movido pelo individualismo, mas o que fazer quando ambos os lados tem razões convincentes? A premissa simplória na realidade se transforma em um angustiante e envolvente drama pelas mãos do roteirista Shawn Lawrence Otto que adaptou em parceria com o próprio Perelman o best-seller homônimo de Andre Dubus III, uma obra madura e que é um verdadeiro soco no estômago.
Kathy Nicolo (Jennifer Connelly) é uma mulher que tenta se livrar do vício do álcool, mas sua depressão é um grande empecilho. Abandonada pelo marido, há meses ela se desligou do mundo e não abria nem mesmo suas correspondências, assim não era de seu conhecimento o fato de que impostos atrasados de sua residência estavam sendo cobrados. Ela só descobre que está para ser despejada quando a polícia já está batendo a sua porta reivindicando sua saída. Na realidade, as cobranças eram indevidas por serem tributações exclusivas para comércios, mas como ela não recorreu a tempo a casa que herdou dos pais já havia sido levada à leilão pela prefeitura. Sem dinheiro e para onde ir, a situação da jovem acaba comovendo Lester Burdon (Ron Eldard), o próprio policial que lhe comunicou sobre o despejo, que a ajuda a sobreviver em um abrigo provisório enquanto tenta reverter o processo na justiça, mas a convivência acaba os aproximando além de uma pura amizade, mesmo ele sendo casado e com filhos pequenos. Paralelamente, também ficamos conhecendo a contraparte do caso da venda do imóvel. Massoud Amir Behrani (Ben Kingsley) é um ex-coronel da Força Aérea Iraquiana que foi expulso de seu país natal por conflitos políticos e partiu para os EUA com o objetivo de manter um padrão de vida semelhante para sua esposa Nadi (Shohreh Aghdashloo) e o filho adolescente Ismael (Jonathan Ahdout), mas as coisas não são tão fáceis como parecia, ainda mais para um imigrante de um país que parece viver um eterno conflito. Sua antiga patente não significa nada em solo americano e por isso ele se divide entre dois empregos comuns. De dia é um pavimentador de estradas e a noite é caixa de uma loja de conveniências.
Vivendo de aparências, inclusive para conseguir um bom casamento para a filha mais velha, Behrani tem a grande chance de recuperar seu padrão de vida e finalmente se sentir respeitado em seu novo país quando vê no jornal o anúncio de uma confortável e tradicional casa perto da praia sendo leiloada a um preço muito menor que o mercado ofereceria, justamente a residência de Kathy. Ele junta todas as suas economias e realiza a compra, já prevendo fazer algumas melhorias nela para futuramente vendê-la por um preço até quatro vezes maior que o que desembolsou, assim finalmente chegando ao patamar de vida que almejava. Só o fato de morar nela nesse momento já lhe traria respeito diante da sociedade que ele julgava lhe olhar como um estranho ou alguém inferior. Enquanto isso, Kathy com a ajuda de Lester e da advogada Connie Walsh (Frances Fisher) consegue provas de que a prefeitura errou ao efetuar cobranças indevidas, mas só teria seu imóvel de volta caso o atual morador aceitasse revendê-la pelo mesmo preço que a adquiriu no leilão. Então começa um intenso conflito psicológico e emocional entre as partes que leva a consequências inacreditáveis. Ela quer sua casa de volta por questão de justiça e por ser o único bem material de valor que teria para seguir sua vida já tão desestruturada. Já ele quer ficar com o imóvel por orgulho e por também ver a residência como um lucrativo investimento.
Embora siga um rito relativamente lento, Perelman consegue envolver totalmente o espectador com uma história sem maniqueísmos.. Os conflitos sempre possuem ao menos dois lados a serem analisados, cada qual com suas justificativas, algumas plausíveis e outras sem razão, mas se fazer qualquer uma das partes compreender seus equívocos na questão não é fácil que dirá ceder. Entre objetivos reais, como a areia que pode ser tocada, ou emotivos, como a névoa que pode transmitir a sensação de vazio, os dois protagonistas estão no mesmo barco de certa forma, mas a realidade vivida por Kathy pode parecer mais dura. Sem dinheiro, emprego, família e tampouco objetivos de vida, seu cotidiano é mais fácil de tocar o espectador, mas também é possível compreender a insatisfação de Behrani. Apesar de ter a companhia e o carinho da família e da possibilidade de ter suas economias de volta em troca da casa, suas chances de voltar a ter um padrão de vida semelhante ao atual são nulas e consequentemente ele seria mais uma vez o imigrante que veio para pegar o emprego de um americano e que deveria abaixar a cabeça para tudo e para todos. Dessa forma, a cada nova cena temos uma surpresa. Ora estamos do lado de um personagem, ora do outro, mas curiosamente não conseguimos sentir raiva de nenhum deles, no máximo um certo incômodo vez ou outra devido a certas atitudes que tomam. Nem mesmo as várias vezes que Kathy intercepta o caminho de Behrani e seus familiares conseguem transformá-la numa chata, pois suas motivações são críveis e uma forma de demonstrar rebeldia contra injustiças.
Com um conflito de alcance universal, Casa de Areia e Névoa é uma daquelas joias raras que, mesmo tendo concorrido a diversos prêmios, não alcançou o reconhecimento merecido com o passar dos anos. Além de um excelente trabalho de direção e um roteiro complexo, mas perfeitamente apreciável pelos mais variados tipos de públicos (desde que preparados para fortes emoções), o longa obviamente merece destaque por seu elenco. Connelly e Kingsley protagonizam verdadeiros duelos de titãs em cena e é difícil dizer qual o melhor momento de cada um. O eterno Gandhi já não tinha mais que provar seu talento, mas para a sua parceira certamente este trabalho foi essencial para comprovar que não era apenas um rostinho bonito. Os coadjuvantes também são valorizados e, conforme a narrativa encaminha-se para seu final, Lester, Nadi e Ismael têm participações essenciais para os desfechos dos protagonistas. Com um visual melancólico que combina com a proposta do texto, principalmente nas cenas noturnas com a casa envolta em névoa, este trabalho é perfeito para quem gosta de filmes que realmente tenham conteúdo, daqueles que não fogem de sua memória facilmente. Mesmo com um final extremamente amargo, é difícil não ficar com um gostinho de quero mais. Palmas para Perelman que realiza uma obra que condensa em cerca de duas horas tantos acontecimentos e emoções a ponto de aguçar a curiosidade do espectador em saber qual será o desfecho de um conflito aparentemente simples, todavia, visto com olhar mais intimista, extremamente difícil de julgar.
Drama - 126 min - 2003



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