quarta-feira, 26 de março de 2014

O VIAJANTE (1991)

Tem aficionados por comédias, outros por ação e aventura, aqueles que só se entretém com um bom suspense ou terror, mas é fato que as histórias dramáticas têm uma legião de fãs mais numerosa e cativa. Quem não tem pelo menos um dramalhão na memória? Aquele filme triste que marcou época ou que faz você lembrar de algum período de sua vida? Além de temas mais consistentes embalados por atuações que geralmente exigem uma carga emocional maior dos atores, os dramas ainda levam vantagens por geralmente cativarem as plateias de críticos e isso os levarem facilmente a premiações, assim de certa forma eternizando-os. Porém, nem sempre isso ocorre e há inúmeras belas produções que ficaram perdidas no tempo, como é o caso do belo O Viajante. A palavra tragédia é sinônimo de um acontecimento que desperta tristeza e horror e talvez tenha partido desse entendimento a ideia inicial para que o escritor suíço Max Frisch escrevesse na década de 1950 o clássico existencialista "Homo Faber" que ganhou sua versão cinematográfica sob a batuta do cineasta alemão Volker Schloendorff. A trama basicamente conta a história de um triângulo amoroso cujas raízes remetem as antigas tragédias gregas, contudo, tem muito mais a oferecer, principalmente através de seu protagonista. Poderia se tornar uma obra de difícil assimilação pela maior parte do público já que é derivado de um livro com caráter intimista e com um tema para reflexão, mas o diretor teve a habilidade e a sensibilidade necessárias para transpor toda a carga dramática contida nas páginas para um belo e acessível filme. Bem, o acessível fica por conta do estilo narrativo adotado, elegante e feito para agradar cinéfilos de bom gosto, já que esta é mais uma produção cinematográfica infelizmente inexistente na era do DVD. Passada no ano de 1957, a história tem como personagem principal Walter Faber (Sam Shepard), um engenheiro entusiasta das ciências exatas, máquinas locomotoras e que acredita que qualquer trabalho deve ser encarado como um projeto de vida. Entre as várias viagens e tarefas que realiza, ele sempre reafirma o seu caráter de homem racional a fim de encobrir a sua ausência de emoções. Sim, ele foge da emoção justamente por ela ser algo imprevisível e cuja intensidade não pode ser calculada.

Para Faber, tudo que fuja a razão lhe amedronta, mas todos seus cuidados não o impedem de vivenciar a experiência de estar em um avião com problemas de certa forma lhe fazendo companhia. Um dos passageiros, Dieter Kirchlechner (Herbert Henke), é irmão de um amigo seu que não vê há muitos anos. Em Zurique, na Alemanha, Joachim (August Zirner), Hannah (Barbara Sukowa) e o engenheiro eram muito amigos quando a Segunda Guerra Mundial foi iniciada. A moça foi uma grande paixão de sua juventude, mas depois que se separaram ela se casou com seu melhor amigo e juntos tiveram uma filha, mas a união do casal não durou muito. Mexido com o reencontro que despertou suas emoções ao recordar o passado, Faber decide seguir para Nova York disposto a rever seu grande amor e quem sabe reatar laços, entretanto, no último instante, mais uma vez temendo a imprevisibilidade da relação, resolve embarcar em um navio rumo a Paris, mas uma nova surpresa lhe acontece. A bordo encontra Sabeth (Julie Delpy), uma moça com idade para ser sua filha, mas que desperta nele o sentimento de paixão que até então ele próprio julgava adormecido para sempre. Porém, o relacionamento entre eles dá início a uma série de coincidências que podem se revelar trágicas e modificar profundamente a vida deste metódico homem. Schloendorff, acostumado a abordar temas complexos e apresentá-los de forma mais simplificada ao público, como em sua obra mais conhecida o drama nazista O Tambor, aqui mais uma vez aplica um olhar maduro e reflexivo sobre a história que ganha mais força com a interpretação vigorosa de seu elenco. A francesa Julie Delpy, hoje muito conhecida por seus trabalhos alternativos, na época ainda era desconhecida e conseguiu o papel muito por causa da semelhança que tinha com a mulher que inspirou Frisch a criar a personagem, porém, a coincidência não ofuscou seu talento. Já Shepard foi uma escolha certeira para dar vida a um personagem complexo e literalmente intimista, alguém que vivia recluso em um mundo imaginário de certezas e que perde o chão quando desafiado pelo destino.

Para Schloendorff, o material do livro é uma reflexão sobre a tentativa do homem de ordenar o mundo a seu gosto seguindo fórmulas e regras, mas a vida trata de pregar suas surpresas para provar que ela e a ação do tempo são implacáveis e imprevisíveis. O próprio Frisch teve o privilégio de participar da escolha dos atores e discussões sobre o roteiro, mas faleceu no mesmo ano da conclusão da obra não chegando a ver seu lançamento. No entanto, sua participação nos bastidores não impediu que o roteirista Rudy Wurlitzer tomasse certas liberdades na adaptação, como narrar a trama por meio de flashbacks. Ao contrário do livro, a introdução do filme se passa em uma sala de espera do aeroporto de Atenas com o protagonista lembrando-se do que lhe acontecera nos últimos meses, da tragédia culminada por uma série de coincidências desde seu encontro com Kirchlechner num voo entre Caracas e o México. A queda do avião em uma região desértica ele já interpretava como um sinal de alerta assim como o retorno de suas memórias da juventude. Ele sobrevive ao susto, mas não consegue impedir que o episódio o aproxime de uma das coincidências que tanto teme. Embora tentasse calcular cada passo que dava, seu futuro prometia incertezas. Não é estragar surpresa alguma revelar que seu grande dilema é descobrir se a mulher por quem está apaixonado é ou não a filha de Hannah. Pior, desconfiar que ele pode ser o verdadeiro pai dela. Como esclarecer essa dúvida com medo de receber a resposta contrária ao seu desejo? E se as suspeitas forem confirmadas, como transformar o amor entre um homem e uma mulher em uma relação sentimental fraterna? Como já dito, inspirado por tragédias gregas, como a famosa história de Édipo que se apaixona pela mãe Jocasta, ao escrever seu romance em tempos em que as sociedades em geral estavam ainda com feridas abertas por conta da Segunda Guerra e o conceito de família clamava por reestruturação, Frisch ousava ao abordar a temática do incesto com verniz realista, ainda que calcado em situações esquemáticas (e aqui o termo não é usado de forma pejorativa). Belissimamente fotografado e com locações escolhidas a dedo em diversos países, O Viajante é mais um trabalho realizado com proposta interessante e atemporal, mas que infelizmente não está disponível no mercado. Mesmo com a boa aceitação que os filmes reflexivos têm hoje em dia, ainda há muitas produções excelentes esquecidas nos tempos das fitas cassete. 

Drama - 117 min - 1991

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