quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A FORMA DA ÁGUA

NOTA 9,0

Em tom de fábula, acrescido de
temas atuais e relevantes, longa
conta uma história de amor atípica
ao mesmo que exalta os diferentes
O clássico conto de "A Bela e a Fera" apresenta uma história de amor entre uma jovem comum e um monstro, mas ao final, descobrindo o sentimento do amor, ele se transforma em um belo rapaz. Na vida real tal mágica não acontece, mas por que não amar o feio ou esquisito? Uma ode aos desajustados, aos incompreendidos, esta é a grande proposta da fantasia com toques de drama e romance A Forma da Água, mais um imaginativo filme assinado pelo espanhol Guillermo del Toro. Lançado no Festival de Veneza, no qual sagrou-se campeão, o longa seguiu uma vitoriosa carreira arrebatando diversos prêmios até culminar no merecido Oscar. Pode-se dizer que o diretor fez uma adaptação do clássico "O Monstro da Lagoa Negra" para contar uma história de amor nascida em meio a época da Guerra Fria. Em meados da década de 1960, Eliza Esposito (Sally Hawkins) é uma solitária mulher e sem o dom da fala desde a infância por conta de um ferimento que destruiu suas cordas vocais, mas nem por isso é uma pessoa infeliz. Faxineira noturna em uma base secreta do governo norte-americano, ela tem bastante serviço diariamente, incluindo os cuidados com o laboratório, local que recebe em segredo uma estranha criatura aquática, com característica humanas e simultaneamente anfíbias, capturada nos confins da América do Sul. Ela foi trazida pelo sádico e moralista agente policial Richard Strickland (Michael Shannon), a própria personificação do racismo, sexismo e complexo de superioridade. Curiosa, a auxiliar de limpeza acaba descobrindo o que os cientistas tanto prezam em esconder e se afeiçoa ao tal ser e é correspondida, fazendo jus ao ditado popular que diz que quem ama o feio bonito lhe parece. Nas madrugadas, eles escutam música, comem ovos cozidos e acabam se apaixonando, muito pelo fator da identificação já que ambos demonstram extrema generosidade e não conseguem se comunicar por falas, apenas por gestos e olhares. Quando os agentes do governo decidem usar a descoberta como cobaia nos processos da corrida espacial, Eliza decide protegê-lo e conta a com a ajuda de Giles (Richard Jenkins), seu vizinho,  Zelda (Octavia Spencer), sua colega de trabalho, e do Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg), um cientista que se encontra em um dilema moral em meio a um mundo político.

Ficasse restrito ao aspecto lúdico, o longa já teria garantido seu lugar de destaque na História do cinema, mas del Toro vai além inserindo componentes que conferem ainda mais estopo a essa complexa e madura obra. O roteiro, escrito pelo próprio cineasta em parceria com Vanessa Taylor, assimila temas atuais e relevantes sem deixar de lado o aspecto fantasioso, além é claro de não perder a oportunidade de satirizar a paranóia anticomunista e as tensões envolvendo os EUA contra a antiga União Soviética em plena efervescência da Guerra Fria. Nunca resvalando no inverossímil, aliar o inexplicável com assuntos sérios e algumas pitadas de terror ou suspense é algo bastante característico na filmografia do espanhol, como é comprovado nos elogiados A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno. O maior mérito está na construção dos personagens que não só causam empatia imediata como também nos oferece a oportunidade de os conhecermos intimamente com uma sensibilidade ímpar. Embora neste caso use como base os arquétipos mais clássicos dos contos de fadas, a trama não reprime seu excêntrico par romântico. Aquela que seria a Bela da história não é tão casta e tampouco indefesa e quem representaria a Fera não precisa de cura ou redenção, apenas ser compreendido ou no mínimo respeitado. Nesse contexto, Strickland surge não como um  vilão que deseja a destruição desse amor por interesse na mocinha, mas seus atos são justificados simplesmente pela maldade que assola seu coração, consequência provavelmente de uma criação familiar problemática. Propositalmente caricato, Shannon constrói um personagem apoiado em atitudes bipolares. Quando o filme revela sua rotina como pai de família, o mostrando como alguém moralista e até religioso, o faz com o objetivo de contrapor às suas reações em ambiente de trabalho, onde demonstra certo prazer torturando a criatura com choques elétricos e se aproveita de sua posição superior para assediar sexualmente suas subordinadas. Seu bom desempenho, porém, não é mais relevante que o excelente trabalho desenvolvido por Doug Jones, intérprete especializado em dar vida a figuras bizarras cujas caracterizações sempre impedem de conhecermos as reais feições do ator. Embora com aspecto medonho, ele constrói um personagem dócil e cativante e desde sua primeira aparição passamos a torcer para que não seja uma vítima fatal de pessoas mesquinhas e ignorantes. Sua criação justifica o título do filme que não se refere a um aspecto físico que a água poderia adquirir. Ele simplesmente é a forma de vida desconhecida cuja sobrevivência depende da manutenção do seu corpo sempre umedecido. Enquanto isso, Spencer funciona como um bem-vindo alivio cômico e ombro amigo da protagonista, mas o perfil de sua personagem poderia ser melhor explorado visto que trata-se de uma imigrante que também não está livre de preconceitos, principalmente por conta de sua etnia.

Se a tal criatura à primeira vista é o grande chamariz do filme, ainda nos primeiros minutos mudamos completamente de opinião. A produção tem como grande destaque o trabalho de Hawkins, atriz subaproveitada talvez justamente por um dos assuntos que o longa se propõe a discutir: o preconceito. Ninguém assume, mas para uma atriz tão talentosa o currículo sem grandes sucessos ou relevantes produções acaba por revelar que para os padrões da grande indústria ela não se encaixa simplesmente por não ser dotada de uma beleza estonteante, ser apenas uma mulher com aspecto comum. Em A Forma da Água, mesmo sem dizer uma palavra sequer, ela prova ter muito mais atributos artísticos que muita intérprete badalada. Ela fala com seu corpo, gestos e olhares e se comunica de maneira universal. Todos entendem o que quer dizer, seus pensamentos e até mesmo suas ironias. Seu relacionamento com o ser desconhecido preenche sua vida que antes era vazia e sem sentido, tendo como válvula de escape para a rotina o apreço por musicais, o que justifica a aparição da cantora Carmem Miranda em determinado momento em um videotape. Aliás, merece destaque a trilha sonora diversificada que ajuda a transportar o espectador para a época cuja reconstituição estética detalhada usa e abusa dos tons esverdeados e azulados dando um aspecto frio e instável a toda ação tal qual os tempos de conflitos propiciavam. Apesar dos duros temas abordados e da própria atmosfera propositalmente escurecida, o longa jamais torna-se pesado prevalecendo o clima lúdico do início ao fim. Mais que declarar seu apreço pelo bizarro, del Toro consegue conduzir sua obra com uma aura clássica acessível, mas ao mesmo tempo a mantendo complexa e original. Sem apresentar grandes reviravoltas e com uma conclusão rápida e morna, a produção prova que nem sempre o importante é o clímax do filme, mas sim qual será o caminho trilhado até ele. Ao final, por trás da aura onírica, certamente você irá refletir sobre a maneira que lida ou simplesmente observa a quem julga ser diferente.

Drama - 121 min - 2017

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A FORMA DA ÁGUA
1 – 2 Ruim, uma perda de tempo
3 – 4 Regular, serve para passar o tempo
5 – 6 Bom, cumpre o que promete
7 – 8 Ótimo, tem mais pontos positivos que negativos
9 – 10 Excelente, praticamente perfeito do início ao fim
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