quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A NOIVA CADÁVER

NOTA 9,0

Conto romântico conquista o
espectador com seu visual
simplório, porém, arrebatador,
e trama inteligente e irônica
Filmes sobre almas de outro mundo e cadáveres que saem de suas tumbas para voltar ao mundo dos vivos são coisas para adultos. Bem, para Tim Burton isso não é verdade e tais criaturas apavorantes podem tranquilamente habitar o imaginário infantil. Conhecido pela sua excentricidade e adoração ao gótico, o cineasta imprime seu estilo em uma animação de stop-motion (aquela que anima bonecos quadro a quadro) e chama a atenção não só dos pequenos, que encontram a mistura ideal de humor e suspense que tanto curtem, mas também do público mais velho que se depara com uma história inteligente tingida praticamente de tonalidades escuras e frias. Terror, suspense, comédia, drama, romance, fábula ou fantasia? A Noiva Cadáver é uma mistura perfeita de referências a todos esses gêneros e a opção pelo desenho animado para amarrar tudo isso casa bem com a ideia, ainda mais com a técnica de animação em desuso que dá todo um charme a mais à produção. A narrativa se passa em meados do século 19 e gira em torno do franzino Victor Van Dort, um rapaz atrapalhado e muito inseguro que deseja se casar com Victoria Everglot, uma jovem de famíia tradicional e que é tão tímida quanto o noivo. Na realidade, as famílias de ambos é que fazem mais questão desta união arranjada. As duas estão em decadência e enxergam a solução para seus problemas financeiros neste casamento, pois ambas desconhecem a real situação das finanças uma da outra.  Sem estes pensamentos egoístas, os jovens realmente acabam se apaixonando, mas Victor coloca tudo a perder quando ensaia seus votos de casamento em um local afastado da cidade. Muito azarado, ele acaba fazendo sua declaração próximo onde repousava o corpo de uma jovem que foi assassinada justamente no dia de seu casamento, assim não realizando seu grande sonho. Emily, conhecida como a tal Noiva Cadáver, então encasqueta que o rapaz deve cumprir seu juramento de amor eterno e se unir a ela. Relutante inicialmente, ele acaba conhecendo um mundo divertido junto aos mortos e surge a dúvida se ele deve abdicar de sua vida sem graça e aderir a um descanso eterno e feliz ou voltar e cumprir o desejo da família, o que pode significar sua infelicidade e mais uma decepção para a noivinha pálida e gelada. Aliás, a defunta é uma super criação. Ao mesmo tempo em que é bizarra com seu corpo semi-decomposto, ela também é adorável e passa ares de melancolia e ingenuidade irresistíveis através de seus grandes olhos adornados por uma maquiagem chamativa. É curioso que sempre que está em cena ela é envolta por uma espécie de aura, um efeito de iluminação obtido com trucagens caseiras com a intenção de retratar a personagem como uma espécie de diva. Outra curiosidade sobre Emily é que uma minhoca vive literalmente em sua cabeça, uma espécie de consciência como se fosse o Grilo Falante de Pinóquio, embora bem menos inteligente e astuta.

Pela sinopse, fica claro que esse projeto é a cara de Burton e ele poderia perfeitamente o ter realizado com atores e cenários reais, mas sem dúvida a opção por uma animação tradicional e nostálgica caiu como uma luva neste caso. Na época do lançamento, os desenhos com tecnologia de ponta já estavam bombando e projetos como este surgiam como sopros de originalidade em meio a um cenário estagnado e habitado por personagens hiperativos e sempre com uma piada na ponta da língua. Já neste delírio mórbido proposto pelo diretor de fantasias como Os Fantasmas se Divertem as coisas são diferentes. Existe um cuidado não só na criação dos personagens, mas também na condução da narrativa e na confecção do visual, o que difere a produção até hoje. A movimentação lenta dos personagens e as tonalidades escuras, em que predominam tons azulados e acinzentados, dão a tônica do início e das últimas sequências do filme, quando o foco está no mundo dos vivos. Já a realidade dos defuntos, na qual a alegria parece não ter fim, ganha cenários coloridos e os personagens, propositalmente exagerados e com características peculiares, se movimentam com maior cadência. As semelhanças entre os dois mundos ficam por conta do uso de jogos de luz e sombra e os traços físicos exagerados e distintos dos seus habitantes. Essa intimidade de Burton com a técnica do stop-motion e o contraste entre dois mundos se deve ao fato dele também ser o responsável pela produção de O Estranho Mundo de Jack. Embora não o tenha dirigido, essa viagem pelo mundo do Natal e do Halloween guarda em cada fotograma suas marcas. E olha que isso ainda era no início da década de 1990. De lá para cá seu estilo fez escola e outros cineastas tentam copiá-lo. Entretanto, não é correto encobrir que o filme foi co-dirigido por Mike Johnson, provável pupilo do mestre e que deve seguir seus passos. Na realidade Burton estava envolvido com as filmagens do remake de A Fantástica Fábrica de Chocolate e se reunia com o amigo quase que diariamente para aprovar e supervisionar o andamento dos trabalhos. Contudo é difícil não rotular a animação, enquadrá-la em uma grife. Tudo aqui é puro estilo Burton de fazer cinema, só falta sua assinatura no rodapé de cada cena. Até nas dublagens é impossível esquecê-lo, já que sua esposa, Helena Bonhan Carter, e seu fiel parceiro de trabalho, Johnny Depp, emprestam suas vozes na versão original para os protagonistas. Sobrou até uma ponta para Christopher Lee dublar um personagem secundário. Para que nada escapasse do seu crivo, o cineasta ainda deixou a trilha sonora a cargo de Danny Elfman e o roteiro nas mãos de John August, outros profissionais de sua completa confiança. Assim as chances deste projeto ter alguma falha eram nulas, o que de fato foi comprovado. O único senão é a curta duração da obra que deixa um gostinho de quero mais.

Inspirado em um conto do folclore russo, as co-roteiristas Pamela Pettler e Caroline Thompson, tiveram liberdade para criar e inserir ironias no melhor estilo do humor britânico, seco, porém, espinhoso, deixando claras as críticas à famigerada felicidade de fachada, como quando a mãe de Victoria afirma não amar o marido e ter se casado por interesses, ressaltando que mesmo assim eles continuavam juntos. Isso talvez por estarem na expectativa de que ainda poderão voltar a ser ricos com o casamento da filha. Assim, de forma leve e divertida, são dadas algumas alfinetadas à sociedade hipócrita de antigamente que preferia ter a todo custo o que não podia comprar ou ostentar um sobrenome famoso ou nobre do que assumir sua verdadeira face e manter a dignidade. Visto por esse viés, atualmente ainda temos adeptos desse pensamento ridículo e a crítica se faz contundente e necessária, sobretudo para ensinar algo ao público infantil, embora muito provavelmente os adultos precisem decodificar tal mensagem primeiro. Alguns podem até vir a se ofender com a compreensão. Por mais fantasiosos que seus trabalhos pareçam, Burton sempre deixa alguma crítica social implícita, sendo a mais habitual o tratamento dado aos seres que se sentem deslocados no meio em que vivem. Victor se acha um estranho no mundo dos vivos, pois lhe exigem muito e poucos se interessam pelos seus sentimentos ou vontades ao contrário do que acontece no além onde é bem recebido, se diverte e finalmente é compreendido. Aliando um roteiro enxuto e muito bom, personagens adoráveis, técnicas de animação que misturam nostalgia com toques de modernidade, trilha sonora excepcional, enfim tudo o que uma boa animação precisa, Burton conseguiu arrebatar o seu público de amanhã. Quer dizer, conquistou o público que hoje aguarda ansioso cada novo lançamento que leve sua assinatura. Da mesma forma que muito marmanjo se encantou quando pequeno ao assistir Edward - Mãos de Tesoura e tornou-se seu fã, com A Noiva Cadáver uma nova geração passou a se acostumar com o jeito bem humorado de lidar com esquisitices e mistérios do cineasta. E a corrente continua com a constante renovação de público que no caso do cineasta não parece substituir admiradores, mas sim somar mais e mais deles. Embora o desfecho não surpreenda, o conjunto todo é muito agradável e cumpre um dos papéis principais do cinema: fazer o público esquecer por algum tempo a cinzenta realidade embarcando em uma colorida fantasia. Esse efeito escapista está bem explícito aqui tingido com cores fortes e em prosa que exalta a vida, inclusive a que possivelmente existe após a morte. Aos que repudiam espiritismo e afins, não se preocupe, em nenhum momento você se sentirá pressionado a acreditar em nada, exceto que você deve viver o máximo em vida e como desejar.

Animação - 77 min - 2005

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