segunda-feira, 27 de julho de 2015

AMOR OBSESSIVO

NOTA 8,0

Drama com toques de suspense
psicológico, longa aborda a obsessão
em diferentes níveis a partir de um
acidente aparentemente banal
O ser humano é um bicho esquisito. Todos provavelmente já ouviram ou mencionaram esta frase diversas vezes e o cinema, por sua vez, tratou de transformar o seu sentido em imagens, e isso não é uma referência aos inúmeros filmes infantis que exploram a manjada temática do ser humano encarnado em um animal. Além do drama e do suspense, os conflitos psicológicos já inspiraram comédias, terror, romances, enfim já trafegaram por todos os gêneros, afinal de contas só temos uma história para contar caso os personagens tenham um mínimo de memórias ou referências emocionais, ainda que sejam as mais toscas possíveis. Felizmente existem enredos que seguem o viés de se aprofundar no mundo misterioso dos pensamentos e emoções humanas e Amor Obsessivo é um bom exemplo abordando o tema obsessão sob vários aspectos. Baseado no livro do inglês Ian MacEvan, a premissa é a seguinte: em um agradável dia ensolarado o professor e escritor Joe Rose (Daniel Craig) decide com sua namorada Claire (Samantha Morton) fazer um piquenique. Tudo corria bem até que ocorre um acidente com um balão nos arredores do parque e o rapaz tenta ajudar assim como um outro frequentador do local, Jed Perry (Rhys Ifans), mas não conseguem salvar a vida da vítima. O rápido e casual encontro entre esses dois homens acaba se transformando em um pesadelo, pelo menos para um deles. Jed passa a seguir Joe por onde quer que ele vá e em todos os locais tem uma desculpa na ponta da língua para justificar a coincidência de estarem sempre se esbarrando. Com o passar do tempo, a situação passa dos limites tirando a concentração do professor e atrapalhando inclusive sua relação com a companheira. Enquanto isso, Jed demonstra sinais claros de demência que podem levá-lo a colocar em prática atitudes extremas.

A partir do tal acidente, a vida dos indivíduos envolvidos, em menor ou maior grau, muda radicalmente. De alguns poucos minutos e algumas palavras trocadas, um rapaz perturbado cria em sua mente uma inesperada e mórbida relação de fanatismo ou desejo sexual que pretende vivenciar a todo custo. O outro, além da sensação de estar sendo perseguido por um louco, fica atormentado pelo fato de ter sido o primeiro a abandonar o local  da desastre e assim acredita ter colaborado para a morte de uma pessoa por não ter prestado a ajuda necessária. Joe passa a enxergar balçoes nos lugares mais inusitados e essas perturbações passam a atrapalhar seu relacionamento com Claire, esta que se esforça para entender tudo que está acontecendo desde o fatídico  dia no parque com todas as pessoas envolvidas. Já a esposa do falecido, a Sra. Logan (Helen McCrory), encontra um lenço de mulher no carro do marido e encasqueta que estava sendo traída e agora quer descobrir quem seria a tal amante. Com este material denso em mãos e personagens complexas, além de estar livre da batuta de grandes estúdios, o diretor Roger Mitchell conseguiu imprimir seu ritmo inglês de fazer cinema, dando um clima contemplativo ao seu longa que em certos momentos parece filmado com câmera na mão para realçar a sensação de voyeurismo que o espectador deve sentir em relação a temática da obsessão. Dito isto, muitos já devem pensar que esta produção é arrastada e chata, mas quem der um voto de confiança pode se surpreender, tanto de forma positiva quanto negativamente. O cineasta mistura ritmo relativamente lento, enquadramentos sombrios e outros que privilegiam sequências insólitas, diálogos restritos e muitos olhares de contemplação, além de uma ambientação melancólica e tão fria quanto as relações estabelecidas entre os personagens. Todos esses recursos são utilizados para mostrar as diversas maneiras que um mesmo fato pode ser interpretado ou documentado. Por exemplo, um casal namorando em um parque a poucos metros do local de um acidente pode gerar várias versões. Quem vivenciou de fato a ação a percebe de uma maneira. Aqueles que a acompanharam a distância veem com outros olhos. Dentro de cada um desses grupos cada indivíduo também pode lançar sua versão particular. Complexo não é? Assim é o ser humano e, consequentemente, a sociedade como um todo.

Mesclando thriller e drama, é curioso saber que Mitchell é o responsável pelos agradáveis Quatro Casamentos e Um Funeral e Um Lugar Chamado Notting Hill. Talvez para reforçar tal associação o primeiro título, quando cogitava-se seu lançamento nos cinema, seria "Amor Para Sempre" (mesmo nome do livro no Brasil), opção muito açucarada e que não vendia bem a ideia do longa, apenas uma forma trapaceira de fazer lobby com o nome do diretor. Por não ser um trabalho que se digere com facilidade, ele acabou sendo lançado diretamente em DVD intitulado de Amor Obsessivo, uma opção bem mais conveniente já que aborda o tema da obsessão em diversos níveis, principalmente no campo dos relacionamentos. Ifans compõe um personagem invasivo e perturbador. Amigável no início, aos poucos ele muda suas atitude revelando a exata dimensão do progresso de sua loucura  e seus constantes encontros previamente planejados com sua paixão platônica evidenciam o final trágico desta mórbida relação. Craig, cujo rosto é ambíguo deixando transparecer inocência e ao mesmo um tempo um quê de misterioso, também se sai bem no papel de uma espécie de vítima, tanto de um psicopata quanto de seus próprios receios. Como já dito, o diretor gosta de trabalhar com os vários vértices de um mesmo acontecimento ou tema, no caso o choque da fama e do anonimato. Se no citado romance passado em Notting Hill o sucesso da personagem de Julia Roberts e o jeito pacato do boa praça vivido por Hugh Grant resultaram em um relacionamento positivo, aqui Mitchell optou pelo viés da neurose que se estabelece entre a quase invisibilidade de um anônimo e sua fixação pelo certo prestígio de um professor para explicitar seus pensamentos quanto ao que o acaso pode provocar. O roteiro de Joe Penhall é intrigante, cheio de tensão e angústia e narrado de forma peculiar, uma opção bastante madura e para um nicho específico de público tal qual o romance de McEvan. Ainda assim, o texto final apresenta diversas diferenças em relação ao livro, mas preservando o principal: a essência tristonha e cruel.

Drama - 100 min - 2004

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Um comentário:

renatocinema disse...

Adoro o contexto obsessão e adoro a atriz Samantha.

Boa opção.

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