quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

JOÃO E MARIA - CAÇADORES DE BRUXAS

NOTA 3,0

Desinteressante desde o início,
longa tenta fazer versão hardcore
de conto clássico infantil, mas se
torna um trash movie de luxo
Muitos acreditam que as açucaradas versões Disney para contos clássicos são fieis aos conteúdos originais, mas na verdade a maioria guarda detalhes e desfechos macabros ou vingativos, longe de serem boas lições de moral. Essa brecha tem levado muitos estúdios, dentro e fora de Hollywood, a explorar refilmagens, continuações, sátiras ou até mesmo recontar as histórias através da perspectiva de outros personagens. Malévola, Branca de Neve e o Caçador e A Garota da Capa Vermelha são alguns exemplos de doces histórias infantis que ganharam suas versões darks para o cinema. Por não ter uma versão produzida na casa do Mickey Mouse para considerarmos por assim dizer definitiva, muita gente fora de órbita pode acreditar que o enredo de João e Maria - Caçadores de Bruxas segue a risca o conto original dos irmãos Grimm, mas não se engane. Eis aqui apenas um pastiche que falhou na tentativa de ser uma franquia de sucesso. Um dos motivos é porque não se define em um gênero e literalmente atira para tudo quanto é lado. Há situações de aventura, romance, terror, suspense, pancadaria e humor, mas nenhuma bem desenvolvida e assim o filme não tem identidade própria, simplesmente é um emaranhado de cenas alinhavadas por sangue e lutas. Para todos os efeitos é rotulada como uma produção de ação, contudo, desde o início não oferece adrenalina e sim tédio. A introdução é o mesmo argumento do conto. Dois irmãos ainda crianças são abandonados pelos pais em uma floresta e seguem uma trilha de doces até chegar à casa de uma bruxa que deseja devorá-los, mas eles são mais espertos e conseguem escapar e se livrar da megera. O problema é que feiticeiras é o que não faltavam por aí. É a partir dessa ideia que o diretor e roteirista Tommy Wirkola, de Zumbis na Neve (alguém conhece?), fantasiou a respeito do futuro dos menores. Já adultos, agora atendendo pelos nomes de Hansel (Jeremy Renner) e Gretel (Gemma Arterton), a dupla transformou o ato de coragem da infância em profissão. Como caçadores de recompensas, eles vivem viajando pela Europa para exterminar bruxas.

Em uma dessas paradas os irmãos são chamados para ajudar em alguns casos de crianças desaparecidas cujas suspeitas recaem sobre Muriel (Famke Jansen), uma poderosa feiticeira que está organizando uma reunião com outras representantes de sua laia de todo o mundo em uma noite cabalística, um raro momento em que a Lua fica tingida de vermelho. Logo que chegam ao vilarejo, os caçadores impedem que Tall (Zoe Bell) seja queimada viva em praça pública acusada de bruxaria e a jovem será de fundamental importância para impedir o encontro de megeras. Enquanto o clímax do enredo não chega Wirkola precisa achar alguma maneira de entreter o público, assim dá-lhe pancadaria com elaborados golpes de artes marciais, além de muito sangue e violentas mortes com a ajuda de armas imponentes e sofisticadas. Unir elementos de um universo dark a uma fábula infantil certamente atrapalharam a carreira do longa, afinal não se pode atingir um público quando ele não está bem definido ainda na concepção do produto. Para pré-adolescentes a fita tem passagens inapropriadas, mas para adolescentes e adultos a trama pode ser desinteressante. Não fica nem lá e nem cá, simplesmente fica no meio do caminho entre tentar assustar, injetar doses de adrenalina e divertir, inclusive flertando com o humor. Ao tentar contar uma história caracteristicamente medieval usando uma linguagem mais pop, esta produção nos remete de imediato a Van Helsing - Caçador de Monstros, até porque alguns figurinos, elementos cênicos e até os tipos de armamentos dos protagonistas parecem ter sido reutilizados da aventura de 2004 que embora também esquecível ao menos tinha uma introdução bacana em preto-e-branco homenageando os clássicos filmes de Drácula, Frankenstein e companhia. Wirkola não faz rodeios e rapidamente vai direto ao ponto-chave que é a (suposta) diversão.

O roteiro, assinado em parceria com Dante Harper, mais parece realizado para o lançamento de um videogame, uma estrutura repleta de situações para ver qual jogador destrói mais bruxas, porém, como o espectador não consegue se envolver plenamente com o enredo ele fica de fora do melhor da festa e a sensação de chatice é uma constante. Nem o elenco parece se divertir. Jansen faz uma vilã no piloto automático e não consegue despertar as emoções negativas necessárias para justificar os atos dos heróis, além de sua exagerada maquiagem, assim como de suas amigas de magia, trabalhar contra o clima de horror desejado. Mais parecem ter saído de um bloco de carnaval. Renner já apresenta desenvoltura nas cenas de ação, mas parece nunca entrar de cabeça na brincadeira. Muito contido, seus diálogos soam decorados ao extremo, ao contrário de Arterton que parece ter compreendido melhor a proposta e ficou mais a vontade em cena. Completam o elenco o canastrão Peter Stormare como o Xerife Berringer e Pihla Viitala como Mina, a bruxa boa que deveria servir de interesse amoroso ao João, mas não há química entre o casal. Também há o jovem Thomas Mann como Ben, que terá sua importância no embate com a feiticeira-mor e é um fã de carteirinha dos caçadores, no entanto, há uma incongruência no roteiro. Nos créditos iniciais é relatado que a fama da dupla já é de conhecimento público, mas quando chegam no vilarejo em questão ninguém jamais ouviu falar em seus atos heróicos. Ok, era preciso essa brecha para explicar o argumento ao espectador. O negócio é não levar a sério os furos e mergulhar na bagaceira. O problema é que o próprio filme não assume esse espírito nonsense e por vezes se leva a sério demais. Claramente pegando carona em uma onda cinematográfica, porém, sem algo consistente a apresentar, João e Maria - Caçadores de Bruxas falha desde seus primeiros minutos apresentando uma trama desinteressante e sonolenta, apenas uma desculpa para fazer jorrar sangue na tela (foi lançado nos cinemas com o respaldo da projeção 3D). Contando ainda com atuações risíveis, se o rotularmos como um legítimo trash movie certamente vamos estar falando de um dos mais requintados representantes deste subgênero. Isso seria um elogio?

Aventura - 88 min - 2012

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