sábado, 29 de agosto de 2026

ROSARIO (2025)

 


Com abordagem superficial e estereotipada sobre a cultura latina, obra é carregada por clichês


Sem as intenções de ser uma cópia de um título específico, Rosario é simplesmente uma síntese de vários elementos já apresentados em outras produções de terror alinhavando maldição, casa assombrada, rituais e possessão. Emeraude Toubia defende a personagem-título, uma jovem de origem latina que chega às pressas ao apartamento da avó após receber uma ligação de Marty (Paul Ben-Victor), o síndico do prédio que encontrou a senhora no local já sem vida. É uma noite de forte nevasca em Nova York, clima propício para uma trama de mistério, e obviamente o tal edifício é antigo e está caindo aos pedaços e imerso na penumbra. O elevador não funciona, há problemas com as instalações elétricas, portas e janelas emperram e é perceptível a sujeira e o mofo que toma conta de todo o prédio. Completando a ambientação tenebrosa, Joe (David Dastmalchian), um dos vizinhos da falecida Griselda (Constanza Gutierrez), é um homem estranho e que parece perturbado mentalmente. Não se pode negar que o diretor Felipe Vargas acertou em cheio na ambientação um tanto claustrofóbica e que parece esconder mistérios por absolutamente todos os cantos.

Apesar de a introdução se passar na adolescência da protagonista em meio a uma confraternização familiar, o roteiro de Alan Trezza logo de cara deixa explícito que Rosario não almejava uma vida simples e com o passar dos anos se afastou dos parentes e consequentemente das tradições latinas. Atualmente ela é uma bem-sucedida corretora da bolsa de valores e leva uma vida totalmente independente, assim não é de se estranhar a forma fria com que recebe a notícia da morte da avó. Sem qualquer outro parente por perto, a jovem se vê obrigada a cuidar dos preparativos para o sepultamento, o que inclui a espera por uma equipe médica para apurar as circunstâncias do falecimento. Devido as péssimas condições climáticas, o socorro demora a chegar, assim Rosario precisa passar a noite no apartamento confrontando lembranças indesejáveis. Ao descobrir que a avó aparentemente lhe lançou uma maldição, a garota precisa lidar com sentimentos controversos ao mesmo tempo que precisa enfrentar os medos despertados pela própria ambientação soturna e degradante, além de encarar uma versão decrépita de Elena (Diana Lein), sua mãe também já falecida.


Por trás da estética amedrontadora, o filme aborda, ainda que superficialmente, a temática da busca dos imigrantes pela utopia do chamado sonho americano e das pessoas que são deixadas para trás no caminho até ele e, com um pouco mais de sensibilidade artística, isso poderia ter conferido ao filme um certo diferencial. Todavia, o texto de Trezza opta pelo caminho comum ao lançar um olhar para a cultura latina (no caso a colombiana) arraigado de elementos preconceituosos ligados a religiosidade, resumindo a representatividade da protagonista e seus ancestrais como algo exótico e insignificante em meio ao caos nova-iorquino. A direção de arte até se esforça na iconografia da religião praticada por Griselda, uma mescla de rituais africanos com toques de catolicismo e espiritismo chamada Palo. Fugindo da obviedade da simbologia cristã ou pagã, apresentando novas regras e conceitos para o espectador, a fotografia demasiadamente escura e a ambientação suja e precária acabam realçando o sentimento de repulsa e preconceito com o tipo de religiosidade apresentada. O próprio desconforto da protagonista em voltar ao apartamento reforça isso, um confronto com um passado que ela já havia esquecido em nome de sua aceitação e ascensão em solo americano. 

Apesar de ser uma atriz mais acostumada ao estilo e ritmo das produções feitas para a TV, Toubia se esforça e é quem carrega o filme nas costas entregando uma performance que a aproxima mais ao estereótipo de uma heroína de ação do que uma típica scream queen (as populares sobreviventes em produções de terror). Ela nunca perde a pose e muito menos a oportunidade de dizer alguma frase de efeito antes de encarar um desafio, o que acrescenta certa dose de humor à trama. A protagonista encontra o ponto de equilíbrio entre a astúcia e a ironia, transitando também com desenvoltura no campo da tensão quando necessário, mas obviamente seria uma figura até mais interessante se o roteiro explorasse o arco dramático da ruptura com seu passado para justificar sua ascensão no presente. Neste caso o manjado emprego do uso de flashbacks seria benéfico, inclusive para explorar o perfil intrigante da personagem Griselda que, embora a narrativa se desenvolva a partir de suas ações, em cena literalmente seu corpo é apenas mais um adorno mórbido em um cenário com aura pesada em que tudo parece a espera de um descarte definitivo.


Absolutamente concentrado, tanto em número de personagens quanto de cenários,  o filme é honesto e não tenta ir além do que uma produção muito modesta pode chegar, o que não é demérito algum. Todavia, o título e a temática poderiam até enganar que se trata de uma produção oriunda do cinema fantástico realizado e, até certo ponto, reconhecido na América Latina, mas na verdade é apenas mais um produto carregando os vícios encontrados no terror hollywoodiano. Embora uma coprodução com a Colômbia, isso não impede que Rosario seja mais um exemplar a vender para o resto do mundo a cultura latina impregnada de estereótipos e de forma um tanto superficial. Sem explorar a fundo os mitos e rituais abordados, Vargas perde a oportunidade de oferecer uma experiência verdadeiramente enriquecedora em termos culturais e apenas alimenta uma curiosidade preconceituosa, o interesse em ter algum contato com a religiosidade apresentada, mas ao mesmo tempo reforçar o pensamento que o melhor é se manter longe dela. 

Terror - 88 min - 2025

Leia também a crítica de:

Nenhum comentário: