terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O RETORNO DOS MALDITOS

NOTA 2,0

Continuação às pressa deturpa as
qualidades conquistadas em Viagem
Maldita
apostando em trama capenga
aliando terror e clichês de guerra
No Brasil, Viagem Maldita não pegou, passou em brancas nuvens, efeito que provavelmente aconteceu em muitos outros países devido a violência explícita da fita. Em solo americano também fracassou, mas estranhamente os parcos lucros abriram as portas para uma continuação que obviamente já devia estar engatilhada antes mesmo do lançamento do primeiro filme. A pressa para jogar no mercado uma segunda carnificina gerada pelo embate de humanos versus mutantes foi um tiro no pé. O Retorno dos Malditos é uma grande decepção já pelo argumento. Como parte de uma missão de treinamento, um grupo de soldados americanos é enviado para uma remota região do Novo México onde encontram um campo de pesquisas nucleares abandonado. Após presenciar um sinal de perigo em uma montanha distante, os recrutas decidem iniciar uma missão de busca e resgate por conta própria, porém, eles desconhecem o fato de que cerca de dois anos antes o local fora visitado por uma família que sofreu o diabo nas mãos de canibais. Esse é o fiapo que une os dois longas. No original, na verdade uma refilmagem de Quadrilha de Sádicos do mestre Wes Craven, o espectador era pressionado a confrontar uma história sobre instinto primitivo e de sobrevivência, tanto por parte da vítimas quanto dos vilões, um intenso e violento exercício principalmente estético para qualquer diretor. A função ficou a cargo do francês Alexandre Aja que entregou um trabalho digno de elogios indo fundo na bizarrice e sanguinolência, mas sem perder a mão com o conteúdo em torno de críticas a política e imperialismo dos EUA. Os insanos mutantes que atacaram a família Carter eram justificados como descendentes de uma tribo que sofreu com os efeitos nocivos da radiação gerada por experimentos com bombas nucleares bancados pelo governo norte-americano. Com uma obra praticamente redondinha, Aja sabiamente pulou fora da sequência, mas Craven infelizmente quis levar o projeto adiante envolvendo-se como produtor e roteirista.

A ideia inicial era que um dos sobreviventes dos Carter, a adolescente Brenda que fora interpretada por Emilie de Ravin, traumatizada com tudo que vivenciou se aliaria ao exército como uma forma de extravasar seus medos e raiva. Logo de cara, ela seria convocada para voltar ao local onde tudo aconteceu, pois seria a única pessoa capaz de apontar a localização exata onde se escondem os mutantes. Com agenda cheia por causa de um seriado de TV, a atriz declinou o convite, mas Craven não desistiu e apenas adaptou o argumento com a ajuda de seu filho Jonathan. Se Aja honrou a memória de seu clássico setentista, fica claro que havia certa preocupação que a segunda parte mantivesse o mesmo nível de qualidade, mas o diretor Martin Weisz, de 60 Segundos, não compreendeu muito bem a proposta e praticamente fez um filme de guerra com soldados em meio a perseguições e tiroteios. O terror se faz presente em cenas de forte impacto visual, mas jogadas em meio a trama, sem trabalhar o suspense. Os ataques são diretos, praticamente sem armadilhas mirabolantes, e os humanos caçados não transmitem a mínima sensação de sofrimento. Assim pouco nos importamos com o que vai acontecer ao grupo de soldados formado pelo sargento casca grossa Jeffrey (Flex Alexander), o politicamente correto Napoleon (Michael McMillian), a recruta com pinta de mãezona Missy (Daniella Alonso), a bonitona e corajosa Amber (Jessica Stroup), o esquentadinho Crank (Jacob Vargas), o medroso e desengonçado Spitter (Eric Edelstein), o matador Delmar (Lee Thompson), isso sem falar nos outros personagens que aparecem em cena rapidamente só para marcar presença e aumentar a contagem de cadáveres. Se a trama em si já não fosse o suficientemente desinteressante, os diálogos travados entre esses indivíduos unidimensionais e estereotipados afastam qualquer possibilidade para torcermos pela sobrevivência de algum deles. Haja paciência para tantos palavrões e trocadilhos.

O longa até que tem um início promissor. Aos adeptos de bizarrices, a sequência inicial apresenta um parto em que além do sofrimento habitual da futura mamãe também temos a tensão provocada por um ambiente inóspito e o nascimento de um novo ser mutante que desde cedo já será doutrinado na base da violência insanidade. Pena que todo o interesse despertado por tal cena não demore a se esvair e o nível de adrenalina e pavor caia drasticamente quando a fita assume o ritmo de um thriller de guerra capenga. Fora a introdução visceral, a única coisa que se salva é mais uma vez o trabalho da equipe de caracterização que investe pesado no visual dos mutantes, ainda mais deformados e nojentos e agora munidos de armas de fogo que roubam dos militares, estes, diga-se de passagem, que mesmo com todo conhecimento adquirido em treinamentos e com um considerável arsenal de defesa em mãos acabam caindo nas emboscadas com facilidade constrangedora. A família Carter, composta por pessoas comuns e algumas que nunca haviam segurado em uma arma, passou por situações extremas no longa anterior e mesmo com algumas baixas não sucumbiu a humilhação. Ficou feio para o pessoal do exército ianque que deveria ser um obelisco de coragem e honra, mas desde os primeiros minutos parecer esfalecer sob as temperaturas escaldantes do deserto. O resultado final de tantos tropeços é que O Retorno dos Malditos soa mais como uma paródia híbrida, um trash movie que insulta os amantes do terror e não poupa o público das fitas de guerra. É apenas a reciclagem mal feita de clichês de ambos os gêneros somadas a referências de produções recentes, como a excessiva e nonsense violência  no estilo Jogos Mortais e a claustrofobia oriunda de fitas como Abismo do Medo já que boa parte da ação se passa em espaços subterrâneos. Em tempo: Quadrilha de Sádicos também teve uma péssima continuação lançada em 1985 que desonrou a memória do longa original, mas o trabalho de Weisz não é inspirado nessa fita. Seria isso algo a nos consolar por pensar que o desastre desta segunda parte poderia ser ainda maior?

Terror - 90 min - 2007

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