segunda-feira, 26 de novembro de 2018

EU OS DECLARO MARIDO E... LARRY

NOTA 7,0

Adotando um discurso politicamente
correto, mas sem dispensar piadas de
gosto duvidoso, longa consegue
divertir e trazer mensagens positivas
Adam Sandler não é um excepcional sinônimo para o gênero comédia. Não para aqueles que apreciam um humor de qualidade ou até mesmo satírico. Seus trabalhos são puro nonsense. Todavia o ator acabou conquistando uma legião de fãs e geralmente extrapola o aproveitamento de sua fama com atuações exageradas e repetitivas, porém, não se pode negar que é um astro que permite que seus companheiros de cena também se destaquem. Deixando o humor físico e as caras e bocas de lado (bem, nem tanto assim), Sandler divide com seu velho amigo Kevin James as boas piadas de Eu os Declaro Marido e... Larry, uma eficiente comédia na qual eles interpretam dois héteros tentando se passar por gays para ganharem benefícios de um programa social do governo. Embora a primeira vista possa parecer mais uma produção para achincalhar a imagem dos homossexuais, na realidade o humor aqui é usado de forma agradável e consciente levando uma mensagem otimista e reflexiva ao público, afinal todos têm direito a serem felizes, mas o caminho para alcançar tal felicidade cabe a cada um escolher e aos demais só resta ao menos respeitarem. É certo que não é com essas palavras que literalmente tiramos uma boa lição do filme, só os mais bondosos podem perceber tal ideia. O recado mais forte é sobre a valorização da amizade, principalmente nos momentos de dificuldades. Chuck Levine (Sandler) e Larry Valentine (James) são dois destemidos bombeiros que não são unidos apenas profissionalmente, mas também são grandes amigos quando estão longe dos incêndios e livre de seus uniformes de trabalho. Larry ficou viúvo muito cedo e se preocupa com o futuro dos filhos, mas devido a problemas burocráticos não consegue colocá-los como beneficiários em seu seguro de vida. Para tanto ele precisaria se casar novamente, mas o problema é que ele ainda não superou a perda da esposa e sabe que não pode confiar em qualquer mulher quando há dinheiro envolvido na relação. O jeito é recorrer ao seu grande amigo que tem com ele uma dívida de gratidão por ter salvo sua vida em um incidente de trabalho.

Em nome da amizade Chuck topa então viver uma união de fachada com Larry para ajudá-lo e de quebra se livrar do peso de lhe dever um favor, porém, pegando muita gente de surpresa, esta relação revelada repentinamente é colocada em xeque de imediato. Muitas pessoas aderiram a união com alguém do mesmo sexo com o único objetivo de conseguir benefícios, portanto, todos os casais moderninhos precisavam ter suas vidas e rotinas minuciosamente avaliadas, assim os bombeiros estão na mira de seu chefe linha dura, o Capitão Tucker (Dan Aykroyd), e do oficial de justiça Clint Fitzer (Steve Buscemi), certo que o suposto casal está aplicando um golpe. Agora eles precisam transformar o casamento de mentirinha em realidade, ao menos quando estão em locais públicos, e vão contar com a ajuda de Alex McDonough (Jessica Biel), uma advogada especializada em direitos dos homossexuais por quem Chuck acaba se apaixonando e complicando ainda mais as coisas. Os dois protagonistas funcionam mais ou menos como o casal de homem e mulher típico das comédias românticas: aparentemente são completamente opostos, mas aos poucos percebem que se complementam e não podem viver um sem o outro... Contudo, só amizade, nada mais. A principal diferença entre eles está no modo como se comportam e encaram a vida. Chuck é animado, tem sempre uma piada ou um comentário irônico na ponta da língua e colecionar conquistar mulheres é seu hobby preferido. Já Larry é mais acanhado, sereno, evita badalações e não tem uma vida muito alegre desde que ficou viúvo. As características dos personagens são bem defendidas por seus intérpretes e a maneira como cada uma trabalha com o humor é o ponto-chave. Sandler, embora mais comedido que de costume, ainda está exagerado e não dispensa uma ou outra piada bizarra. Ele não é nada refinado, mas parece que aqui percebeu que a temática é um pouco mais séria que os roteiros que lhe caem nas mãos. De machista radical, seu Chuck aos poucos vai se tornando mais humanizado e percebendo o quanto o preconceito é cruel. Já James mostra-se mais sutil e trabalha o humor economizando palavras, mas compensando com olhares e gestos que evidenciam seu dilema. Tentando ao máximo levar a farsa adiante, fica claro seu desconforto com a situação, pesando o fato da consciência de estar atrapalhando a vida de um amigo em prol de sua felicidade.

O diretor Dennis Dugan, com extensa lista de parcerias com Sandler tendo como destaque a comédia-família O Paizão, deu carta branca para que seus protagonistas improvisassem nas cenas, o que talvez explique como uma comédia que podia ser repleta de piadas de mau gosto consiga ser leve e divertida. Existe certo senso de realidade na produção. Apesar do tema convidativo ao escracho e polêmicas, é importante ressaltar a habilidade dos roteiristas Barry Fanaro, Jim Taylor e do conceituado Alexander Payne, este último vencedor do Oscar pelo texto de Sideways - Entre Umas e Outras e Os Descendentes. Embora apostem em tiradas preconceituosas e debochadas, acabam por deixar ao final uma mensagem politicamente correta para abrandar os ânimos como, por exemplo, na cena do baile à fantasia quando Chuck e Larry são ofendidos e humilhados intensamente. A sequência é finalizada com um discurso a favor da diversidade sexual dito em alto e bom por Sandler em um dos raros momentos de lucidez de seu personagem. Todavia, não demora muito e lá está ele de volta com suas caras e bocas e trejeitos novamente bancando a "amiga" confidente de sua advogada durante uma tarde de compras. Entre piadas homofóbicas e mensagens que condenam o preconceito, Eu os Declaro Marido e... Larry aborda de forma leve um tema espinhoso, retratando com bom humor os problemas que dia-a-dia são vividos por aquelas pessoas que fogem do padrão engessados do que é considerado ser tolerável ou natural dentro da sociedade. Embora não seja um filme com momentos de gargalhar e com uma introdução que não promete coisa boa pela frente, é certo que o desenvolvimento da trama acaba por surpreender trazendo algum conteúdo relevante. Como já dito, a exaltação da amizade verdadeira e da solidariedade, além da sensibilidade despertada pelos conceitos sobre discriminação, fazem esta comédia valer a pena. De quebra os saudistas ainda podem se divertir com alguns hits famosos do passado embalando as desventuras do casal fake e matar as saudades do ator Richard Chamberlain, gay assumido e ativista GLS, em uma pequena ponta atestando o valor da produção quanto a causa que o próprio defende, aproximando a discussão do público jovem sem fazer pressão.

Comédia - 110 min - 2007 

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