Obra homenageia clássico a partir da recriação da série, mas se perde entre clichês exageros
Adaptar um programa de televisão para o formato cinematográfico não é fácil, mas Hollywood sempre tenta fazer essa transição. Sex and The City, mesmo após o término da série, fez certo barulho nos cinemas e ganhou uma continuação; Agente 86 foi resgatado do túnel do tempo de forma ágil e de fácil assimilação por novas plateias; e a adaptação de As Panteras pisou fundo na adrenalina e nas referências pop. Esses são apenas alguns exemplos, mas existem muitos filmes baseados em seriados que foram lançados na época do boom das fitas VHS e hoje relegados ao ostracismo. Somando muito mais erros que acertos, parece que a indústria de cinema americana não aprendeu a lição e continua investindo na ideia. Se a intenção é tão forte, o melhor mesmo é procurar formas alternativas de resgatar a memória do seriado e foi isso que a diretora Nora Ephron fez com A Feiticeira recorrendo ao recurso da metalinguagem, o que certamente decepcionou muita gente que esperava ver uma espécie de episódio esticado, mas se deparou com um novo projeto, um remake do programa dentro do filme. É surpreendente o número de críticas negativas que até hoje esta comédia recebe, principalmente do público que acompanhava a série que foi ao ar entre 1964 e 1972 e foi reapresentada a exaustão pelas décadas seguintes. Claro que não é uma obra digna de prêmios e elogios rasgados, mas certamente cumpre bem seu papel de simplesmente entreter.
Mexer com ícones culturais, e neste caso um fenômeno mundial, é complicado e merece respeito a opção de ousar em ser até certo ponto original entregando aos espectadores algo que eles não esperavam, mas é aquela velha história, o público reclama da mesmice, porém, quer sempre mais do mesmo. Há muitos anos a ideia de adaptar o clássico seriado protagonizado por Elizabeth Montgomery para o cinema rodava pelos estúdios e no início da década de 1990 a atriz Meryl Streep era a mais cotada para ser a protagonista e parecia animada, mas nem mesmo uma ponta lhe deram quando o longa finalmente saiu do papel. A história começa bem e já mostrando a que veio: montar uma nova versão do seriado, assim jogando por água abaixo as expectativas de quem esperava ver logo na introdução a tradicional e marcante música da abertura do seriado (ela entra bem mais a frente). Jack Wyatt (Will Ferrell) é um ator egocêntrico que está desesperado por causa dos fiascos que foram seus últimos trabalhos, mas ainda assim ele se sente a cereja do bolo. Sua carreira pode dar um grande salto com o convite para entrar no elenco do remake da clássica série, mas com a condição que ele seja o protagonista e a personagem-título seja quase uma figurante interpretada por alguma novata. Ele então tem a sorte de encontrar por acaso uma jovem que involuntariamente mexe o nariz de forma idêntica a protagonista original e que parece encarnar a personagem naturalmente, mas sua ingenuidade é a característica que mais importa para Wyatt.
Isabel Bigelow (Nicole Kidman) é a escolhida para interpretar a feiticeira Samantha, uma mulher que busca levar uma vida comum ao lado do marido, o mortal Darrin, personagem sem grandes atrativos, mas elevado a protagonista para acatar os caprichos de Wyatt. O que ele não sabe é que descobriu uma verdadeira feiticeira que com seu carisma e simpatia vai roubar a cena. Inconformada com a rotina em que tudo que deseja literalmente consegue num passe de mágica, Isabel resolve mudar de vida radicalmente decidindo morar sozinha e levar uma vida comum como a própria personagem que lhe é oferecida, porém, ela não conseguirá ficar longe da magia tanto para as atividades domésticas mais simples quanto para se destacar no trabalho. Quando percebe que ela é quem realmente deveria ser a grande estrela do programa, fazendo jus ao título, a novata atriz lança mão de seus truques para ocupar seu lugar de direito e para o desespero de Wyatt, mas a esta altura ela descobre estar apaixonada por ele. Mais uma vez recorrendo a magia, a moça o enfeitiça e de uma hora para a outra ele passa a demonstrar por ela um amor exagerado e sem controle, algo que também o faz desinflar o ego exaltando até mesmo o fato das pesquisas populares apontarem Isabel como a mais adorada pelo público ao passo que ele próprio é considerado a pior coisa do seriado. Até mesmo a atuação de um cachorrinho tem melhor aprovação. Em uma trama paralela, e infelizmente pouco desenvolvida, temos um flerte entre os veteranos Shirley Maclaine e Michael Caine interpretando respectivamente a atriz Iris Smythson que dá vida a Endora, a mãe da bruxinha da série, e Nigel Bigelow, o pai da feiticeira de verdade,
O roteiro se apoia na ideia da vida imitando a arte com toques fantasiosos que tem até a sua metade uma narrativa promissora e de certo modo inovadora, contando obviamente com citações à inspiração original, inclusive recriam a abertura da série de modo bem particular. O caldo entorna quando Ferrell, em um papel que cairia como uma luva a Jim Carrey e que poderia ajudar nas bilheterias e prestígio do filme, começa a cansar com suas declarações de amor exageradas e excesso de humor corporal e caricatural, ao passo que roteiro trilha por caminhos repletos de clichês e um final previsível e açucarado. Todavia, o humor é sustentado pela boa química do casal protagonista que acaba repetindo na vida real os conflitos fictícios das gravações. A graça está nas atitudes e falas de Isabel, requentando as piadas da pessoa considerada diferente se adaptando a uma realidade alheia, todavia, ela parece inocente demais na maior parte do tempo, quase como uma criança descobrindo o mundo. A feiticeira original tinha uma postura mais adulta, altiva e inteligente, mas é preciso lembrar que a bruxinha interpretada por Kidman é a atriz que fará o seriado fictício e não a própria, alguém que jamais chegou sequer a assistir o programa original, pois sua família a proibia por considerar uma ofensa a categoria dos bruxos. Claro que assim que é confirmada no papel Isabel procura ver alguns episódios, mas sua interpretação é mais na base da intuição e de suas próprias experiências de vida.
O roteiro escrito pela própria diretora em parceria com sua irmã irmã Delia Ephron pode soar um pouco confuso ao misturar três realidades em um mesmo produto. Temos uma visão do que ocorre acerca das gravações do seriado, outra da trama dos intérpretes fora de cena e ainda outra percepção do filme em si e ainda podemos nos deixar influenciar por aqueles que batem na tecla que a série original era bem melhor e diferenciada. De qualquer forma, A Feiticeira não é a tragédia que tantos falam, simplesmente é uma comédia simpática e leve no melhor estilo sessão da tarde, algo que muitos tentam fazer e acabam conseguindo resultados catastróficos diferentemente deste projeto. A crítica especializada e até mesmo alguns espectadores precisam aprender a ser mais condescendentes com as produções criadas para puro escapismo e esquecer os Oscar e demais prêmios que o elenco tenha em casa, algo que no caso pesou na hora das considerações de muitos críticos. Apesar de no final as coisas serem resolvidas rapidamente e tudo ser muito previsível, este filme é um achado para curtir com a família e amigos sem constrangimentos.
Comédia - 102 min - 2005



2 comentários:
A Feiticeira foi muito criticado quando foi lançado, mas sabe que eu acabei gostando. Claro que não chega aos pés do original, mas acaba sendo uma grande homenagem.
Eu penso exatamente como o Gilberto.
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