terça-feira, 14 de novembro de 2017

UMA LADRA SEM LIMITES

NOTA 5,0

Melissa McCarthy mais uma vez
faz o papel da gordinha divertida, mas
encrenqueira, em comédia que requenta
velhas fórmulas e piadas desagradáveis
Todo gordinho obrigatoriamente deve ser engraçado? Bem, se depender dos esforços de Melissa McCarthy tal estereótipo continuará prevalecendo. Desde que foi catapultada ao sucesso com Missão Madrinha de Casamento a atriz vem emendando uma comédia atrás da outra e sempre com uma característica em comum: o humor por vezes grosseiro. Com Uma Ladra Sem Limites as coisas não são diferentes. Aqui ela interpreta Diana, uma experiente estelionatária que aplica um golpe que complica a vida de Sandy Patterson (Jason Bateman), um homem honrado e dedicado à família, mas com azar na vida profissional. Embora seja um aplicado profissional da área financeira ele nunca teve seu talento reconhecido por Harold Cornish (Jon Fraveau), seu chefe que não perde oportunidades para humilhá-lo, mas mesmo assim ele ainda confia que as pessoas boas são de alguma forma recompensadas pela vida. Quando alguns de seus colegas de trabalho resolvem se unir para começarem um negócio próprio o rapaz se entusiasma e decide abraçar a ideia, no entanto, sua documentação é rejeitada devido a inúmeras e pesadas dívidas que constam em seu nome. Por uma feliz coincidência, daquelas que só acontecem na ficção, Sandy recebe um telefonema de um salão de beleza na Flórida para confirmar um horário (descobriram seu número na internet, simples assim). Ele então se recorda que passou dados sigilosos em uma ligação que acreditava ser do banco, mas como a polícia faz corpo mole decide por conta própria investigar. Rapidamente ele chega ao nome de Diana que está usando e abusando da boa índole do nome do rapaz aproveitando-se que Sandy é uma alcunha unissex (tal piada perde totalmente a graça por ser usada a exaustão pelo enredo). Sem pensar duas vezes ele sai de Denver, sua cidade, e viaja para encontrar a criminosa e obrigá-la a se apresentar às autoridades e o inocentar, mas mal sabia ele o tipo de pessoa que encontraria.

Apesar do jeito rude, Diana não é uma criminosa violenta (bem, não muito) e sim uma mulher carente que compensa suas frustrações enchendo o guarda-roupa e extravasando todas as suas vontades que o dinheiro possa bancar... A grana alheia, fique bem claro. Com muita lábia e uma parceira máquina de fazer cartões, ela fez do estelionato sua profissão e a melhor forma para suprir suas necessidade emocionais. A prova de que ela só quer atenção é a rapidez com que aceita colocar o pé na estrada junto com sua inocente vítima tendo como destino certo o xilindró. A viagem obviamente é marcada por confusões, não faltando piadas do tipo que vem pautando o estilo de humor adotado por McCarthy. O diretor Seth Gordon, de Quero Matar Meu Chefe, ao que tudo indica acredita que a melhor forma de arrancar risos do espectador seja colocando a gordinha em episódios vexatórios levando a tira-colo o bom moço sem o mínimo de jogo de cintura para lidar com situações que o exponham ao ridículo. É fácil se identificar com o perfil de Sandy, o cara boa gente que constantemente é passado para trás, mas prefere engolir sapos a sujar sua reputação. O mesmo não acontece com sua companheira de cena que logo de cara não desperta simpatia e o desenrolar da história não convence a respeito da construção de seu caráter duvidoso. Por exemplo, por que cargas d'água a criminosa entraria em um bar prometendo pagar a conta de todos os clientes? Apesar da pose de espertalhona, Diana na verdade é de uma inocência quase infantil e acredita que só é notada quando paga para chamar a atenção, assim não é de se estranhar sua necessidade quase crônica em tentar ser simpática em tempo integral, o que é irritante, e a facilidade com que atrai vendedores, para desespero de Sandy que vai gastar horrores durante essa louca viagem. Detalhe: eles também serão perseguidos por um caçador de recompensas e por traficantes a quem a safada para variar também deve, embora o filme omita o fato dela ser usuária de drogas. Seria a revenda de entorpecentes mais uma forma de ganhar um dinheirinho extra?

Da metade para o final são nítidos os esforços para que o espectador se compadeça com o triste cotidiano da ladra bonachona, mas já é tarde demais para torcer a seu favor. Sabemos que sua redenção vai acontecer de qualquer maneira, contudo, não há como imaginar que escape da cadeia. O roteiro de Craig Mazin, de Se Beber Não Case - Parte 2, flerta com o etilo manjado dos road movies, aqueles em que os personagens viajam por horas ou até mesmo dias e vivenciam situações que independentes de serem divertidas, tristes ou tensas, de alguma forma transformam suas vidas. Com a convivência forçada, os protagonistas acabam descobrindo afinidades que superam suas diferenças físicas e de perfis, no caso, ela gordinha, baixinha e desbocada e ele magro, alto e um poço de educação. Isso soa familiar não? Para os mais novos a conexão imediata é com Um Parto de Viagem em que Robert Downey Jr. é obrigado a viajar com o nóia vivido por Zach Galifianakis, mas para quem tem boa memória também pode se lembrar do antigo Antes Só do Que Mal Acompanhado, no qual Steve Martin fazia as vezes de executivo da cidade grande aloprado pelo saudoso John Candy, a companhia desagradável, falastrona e intrometida. Para quem se recorda de uma ou de ambas as comédias, a maior diversão oferecida por Uma Ladra Sem Limites deve ser a oportunidade de caçar semelhanças entre as produções que compartilham inclusive invejável intimidade cênica entre as duplas. McCarthy e Bateman, irremediavelmente associados ao campo do humor, apresentam boa química e timing cômico e se o encontro não é memorável também não se pode negar que serve muito bem ao que o roteiro pede, ou seja, nada demais. O filme se atropela em sua própria falta de ambição e tenta se sustentar na base do humor físico exagerado, como o hábito da bandida em golpear a garganta das pessoas, e de algumas piadas com conotação sexual desnecessárias, como a invenção de que Sandy teve seus genitais queimados em um incêndio. De qualquer forma, é mais um funcional veículo para manter a fama de McCarthy que parece se contentar em reciclar o mesmo tipo de personagem, incluindo as piores características que lhes competem. 

Comédia - 112 min - 2013

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