quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

UM PLANO PERFEITO

NOTA 4,5

Comédia romântica francesa
tenta se aproximar do estilo de
Hollywood, mas peca com casal
protagonista com pouca química
Quando se fala em cinema francês automaticamente nos vem a cabeça referências melodramáticas, de erotismo, contemplação ou reflexão. Quem ainda acredita que a indústria de filmes de lá sobrevive de produções destinadas a um público mais cult e maduro é quem parou no tempo, precisa rever seus conceitos. Diretores, produtores e roteiristas locais estão cada vez mais procurando diversificar os estilos e, para o bem ou para mal, se aproximar dos padrões das produções de Hollywood visando uma penetração maior no mercado. Em outras palavras lixo em embalagem de luxo. Não exageremos. Se dos EUA recebemos muita porcaria, o cinema europeu com pegada mais comercial no mínimo traz certa dose de refinamento como verificamos, por exemplo, em Um Plano Perfeito. O título genérico nos remete de imediato a uma produção de ação ou suspense, mas na verdade trata-se de uma comédia romântica que poderia perfeitamente ser estrelada por alguma queridinha dos ianques e faturar alto, mas a protagonista escolhida, a alemã Diane Kruger, infelizmente não conta com uma grande legião de fãs, embora esbanje beleza, seja talentosa e tenha iniciado sua carreira em solo norte-americano. Após chamar a atenção no épico Tróia, mas não a ponto de ofuscar Brad Pitt, a atriz fez várias fitas comerciais por lá, mas mantendo sempre um estreito laço com a cinematografia europeia alternando roteiros mais elaborados com outros cuja função é simplesmente oferecer uma diversão escapista. No longa dirigido por Pascal Chaumeil, que já havia investido no gênero em Como Arrasar Um Coração, Kruger interpreta Isabelle, uma bela balzaquiana que faz parte de uma linhagem de mulheres que, coincidência ou não, só conseguem um casamento feliz e duradouro quando trocam alianças pela segunda vez. A relação com o primeiro marido sempre acaba em brigas, separação e até mesmo morte, o que as leva a crer que sofrem de alguma espécie de maldição que perpetua geração após geração.

Apaixonada por Pierre (Robert Plagnol), a quem considera sua alma gêmea, eles formam aquele tipo de casal que de tão perfeito facilmente desperta inveja nos outros. Eles simplesmente combinam em tudo. Ambos são dentistas e dividem o mesmo consultório, fazem metodicamente os mesmo programas nos mesmos dias da semana, aproveitam intensamente (na medida do possível) cada minuto juntos e por aí vai. O que atormenta Isabelle é que eles estão prestes a completar dez anos de namoro e seu relógio biológico já começa a dar sinais de alerta caso ela queira ser mãe. Seu parceiro até concorda com a ideia que chegou a hora de formarem uma família, contudo, muito tradicional, algo raro hoje em dia, ele só aceita ser pai após subir ao altar. Mas como pensar em se casar sabendo que forçosamente acabará sendo separada do grande amor de sua vida? Eis que ela bola o tal plano perfeito do título. Para fugir da maldita sina, ela decide se casar com o primeiro desconhecido que lhe cruzar o caminho e no mesmo dia pedir o divórcio, assim ficando desimpedida de se unir a Pierre. O que ela não esperava era que o tal sujeito fosse alguém tão persistente e imprevisível quanto Jean-Yves (Dany Boon), um redator de guias de viagem tranquilo, ingênuo e que leva a vida conforme a música, não planeja nada. Cercando-o por todos os lados e armando situações para se esbarrarem, o rapaz caiu fácil na farsa e de tão apaixonado nem pede justificativas quando a esposa simplesmente some por uns dias. Pelo contrário, ele até propõe uma viagem de lua-de-mel para o Quênia aproveitando que estará fazendo um trabalho por lá. Dessa convivência forçada, a moça vai acabar revendo seu relacionamento com Pierre  e perceber que a vida a dois como levavam e considerava perfeita na verdade era de uma monotonia ímpar e praticamente a obrigava a ser submissa as restritas vontades dele, fruto de seu próprio comodismo em busca de uma relação sem conflitos. Por sua vez, o dentista está tranquilo e nem ao menos estranha o sumiço repentino da noiva nesse período em que ela viaja com o outro, plano que ela consegue acobertar com a ajuda da irmã Corinne (Alice Pol) e do cunhado Patrick (Jonathan Cohen) que reforçam álibis.

Baseado no argumento de Philippe Mechelen, a premissa fantasiosa é um convite para a diversão, mas falta açúcar para o longa ficar docinho. Na realidade, incomoda a química frágil entre os protagonistas. Embora a trama assinada por Laurent Zeitoun, Yoann Gromb e Béatrice Fournera faça de tudo para se assemelhar aos moldes de uma típica comédia romântica americana, remetendo inclusive em alguns momentos às histórias de Como Perder Um Homem Em 10 Dias, A Proposta e até mesmo Maldita Sorte (excluindo as piadas de cunho sexual e escatológicas), Kruger e Boon não convencem como par romântico. De fato, Isabelle deveria manter certo distanciamento do marido de mentirinha, afinal ela tinha um objetivo concreto para essa união, mas existe o ponto da virada quando se dá conta que se apaixonou de verdade e sente a necessidade de trocar a vida metódica ao lado de Pierre pelos sobressaltos do cotidiano de Yves. Essa transição é o calcanhar de Aquiles da trama. Já Boon faz um divertido boa-praça, aquele sujeito simpático e divertido que todos gostariam de ter como amigo. Além de um respeitável comediante, ele é um verdadeiro astro em sua terra natal, daqueles cujo nome é capaz de levar multidões aos cinemas. Ele é o protagonista, por exemplo, de A Riviera Não é Aqui que levou mais de vinte milhões de franceses para vê-lo nas telonas. Já em outros países o longa foi lançado diretamente para consumo doméstico, assim como Um Plano Perfeito. A situação do ator deve ser parecida com a de alguns fenômenos brasileiros, como Paulo Gustavo e Leandro Hassum, cujos filmes fazem sucesso internamente, mas dificilmente teriam espaço em circuito internacional devido ao tipo de humor adotado, algo muito enraizado e com piadas restritas. Embora a imagem da França ainda esteja muito atrelada a dramas e filmes-cabeça, é certo que o país também é um fértil campo para as comédias, principalmente as que envolvem interesses românticos. Simplória e previsível, é certo que esta obra está longe de ser uma das mais representativas para  a filmografia do país, mas isso não é demérito. Agradável, leve e bem feitinha tecnicamente, não deixa nada a dever a qualquer produto do gênero oriundo de Hollywood. Assista sem pré-julgamentos.

Comédia - 94 min - 2012
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