quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A BAILARINA

NOTA 7,0

Animação franco-canadense
tem visual simplório como
destaque, mas sua narrativa
frágil dispersa a atenção
O mercado de cinema de animação é dominado por Hollywood, isso é um fato incontestável e duradouro, assim toda e qualquer produção do gênero produzida por outros países de imediato deveria conseguir despertar a atenção pela coragem de lutar por um espaço em um meio tão restrito. Desenhos costumam exigir muitos gastos financeiros e tempo de dedicação para suas realizações, assim é louvável que existam pessoas dispostas a arriscar e peitar gigantes como Disney, Pixar e Dreamworks. O problema é que o público já está mal acostumado e não aceita nada menos que a perfeição oferecida por filmes calcados em efeitos digitais e tridimensionais. Somam-se a isso enredos geralmente acima da média aliando uma pretensa genialidade e diversão e fica muito difícil para um desenho não-americano encontrar espaço para exibição. Com sorte alguns acabam tendo certa divulgação graças a festivais e mostras cinematográficas, todavia, a segregação acaba sendo benéfica de alguma forma já que atingem um público mais seletivo e maduro. Co-produzido entre a França e o Canadá, A Bailarina poderia ter seguido tal caminho, mas a vontade de atrair crianças prejudicou o andamento do projeto. A procedência pode sugerir um sopro de originalidade e inteligência, mas a formula utilizada é conhecida, repetitiva e infelizmente com falhas. A história se passa em meados do fim do século 19 quando a sonhadora Félicie vive em um orfanato em um subúrbio da Bretanha, mas almeja chegar à Paris o quanto antes para tentar ingressar em uma renomada companhia de balé. Pretender ser reconhecida como uma grande dançarina clássica não é apenas um objetivo profissional e tampouco um capricho. Mais do que isso envolve também uma forte questão emocional já que a única lembrança que ela tem da mãe que a abandonou é uma caixinha de música. Para conseguir fugir e chegar à cidade luz a menina conta com a ajuda de Victor, também órfão e seu melhor amigo. Com o dom para inventar engenhocas, o garoto também deseja uma vida melhor e juntos bolam um plano de fuga.

Já em Paris, Félicie percebe que as coisas não serão tão fáceis como imaginava. Por conta de um mal entendido ela acaba assumindo uma falsa identidade e vai morar com Odette, a faxineira do Grand Opera, a maior casa de espetáculos da França, e que também trabalha na casa de madame Régine Le Haut, uma senhora rica e mesquinha. Certa vez que vai ao teatro ajudar sua tutora, um incidente coloca a garota por acaso para participar de uma aula de dança. Era o destino lhe dando um bem-vindo empurrãozinho para realizar seu grande sonho. Outrora também dançarina, a própria Odette se dispõe a ajudar a menina com um treinamento na base de métodos pouco comuns, contudo, a determinação de Félicie não é suficiente para criar um nível de identificação e afeição satisfatórios. A construção de seu perfil tem algumas falhas, mais especificamente desvios de caráter. Ela não hesita em mentir ou fugir de suas responsabilidades quando julga necessário, mas o que mais incomoda em sua trajetória é como ela se deixa seduzir facilmente pelas possibilidades desse novo mundo que está descobrindo a ponto de se encantar logo na primeira deixa de um suposto interesse amoroso por parte de um jovem bailarino, esquecendo-se rapidamente de Victor que alimenta uma paixão platônica pela amiga. Aliás, é uma pena que o garoto não ganhe uma atenção especial da narrativa visto que seu arco dramático soa bem mais interessante que o da aspirante a bailarina. A trama se passa durante a chamada Belle Époque, período em que a França vivenciava diversas transformações físicas, sociais e culturais, e o menino inventor, cujo maior desejo é criar algo que faça os humanos voarem, personifica o marco da modernização e está diretamente ligado ao mundo efervescente daquele período. Aliás, ele tem a sorte de se tornar assistente de ninguém menos que Gustave Eiffel, o idealizador do mais famoso monumento da capital francesa. A torre batizada com seu sobrenome é retratada em construção, assim como a Estátua da Liberdade que os parisienses viriam a presentear os norte-americanos e que também serve como cenário, ainda em fase de retoques.

Apesar do bom gancho da trama de Victor, algo necessário para atrair os meninos adicionando um pouco de aventura ao texto, o titulo deixa claro que agradar as garotas é o foco principal. Para tanto, os diretores Eric Summer e Éric Waris se esforçaram para reproduzir com o máximo de fidelidade a atmosfera que cerca o universo do balé, contando com a ajuda da coreógrafa francesa Aurélie Dupont, diretora do grupo que representa a Ópera de Paris, que os orientou nas cenas de ensaios e apresentações das pequenas bailarinas alcançando uma beleza estética e veracidade extremas. Contudo, talvez para evitar polêmicas em um mundo ainda tão hipócrita, perde-se a chance de discutir a diversidade não explorando a presença de um menino dançarino na companhia. Summer, que participou da criação do premiado As Bicicletas de Belleville, assina também o roteiro em parceria com Laurent Zeitoun e Carol Noble, mas parece não se preocupar muito com a coerência dos fatos que apresenta o que, como já dito, prejudica a identificação total do público com a protagonista. Todavia, a lição de moral é preservada. Não importa o quanto seja dificultoso o caminho, sempre busque a realização de seus sonhos, mensagem típica das animações, mas aqui apresentada descartando clichês como animais falantes, a busca por um príncipe encantado e piadas tolas disparadas sem necessidade, embora o humor pastelão (gags corporais como tropeços, esbarrões, trapalhadas) se faça presente e condizente com a ingenuidade e ternura inerentes a obra. A vilania do enredo fica por conta de Régine e sua filha Camille, a grande rival de Félicie na disputa pelo papel principal no espetáculo "O Quebra-Nozes". Exagerando nas maldades, a dupla invejosa só é abordada de forma superficial e acionada para destilar veneno. Pouco aproveitadas na história, o clímax com uma perseguição desmedida à protagonista acaba soando forçada. Os melhores momentos de A Bailarina são justamente quando suas pretensões são deixadas de lado e a simplicidade realçada, seja pela trilha sonora, que troca a esperada música clássica por ritmos pop, ou pelos traços delicados que, mesmo sem a precisão oferecida por produções de Hollywood, encantam com seu colorido e remetem ao estilo impressionista em voga no período da trama.

Animação - 90 min - 2016

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