segunda-feira, 17 de julho de 2017

A CHAVE DE SARAH

NOTA 9,0

Narrando dois dramas paralelos
interligados, longa resgata
ligação da França com o nazismo,
episódio escondido por décadas
Mesmo com muitos dos sobreviventes já falecidos, parece que a Segunda Guerra Mundial jamais vai deixar de ser uma fonte de inspiração para produtos culturais. Se hoje já não é possível colher tantos depoimentos de pessoas, a literatura faz sua parte para garantir os memórias deste triste período e as adaptações de livros para o cinema, teatro ou televisão garantem os registros visuais. Comumente ligamos tal fato histórico aos EUA, Japão e, principalmente, à Alemanha que teve sua imagem irremediavelmente manchada pelas atrocidades induzidas por Adolf Hitler aproveitando-se da ignorância das pessoas que declaravam ódio aos judeus sem muitos deles saberem o porquê. Contudo, o conflito que marcou a década de 1940 foi vivenciado por muitos outros países, diretamente ligados ou não. A participação da França nesse capítulo vergonhoso da História mundial não costuma ser lembrada nas salas de aula, mas o drama A Chave de Sarah ajuda a preencher tal lacuna e mostrar como os franceses também foram tão cruéis durante a ocupação nazista quanto os alemães. Adaptado do best-seller "Elles s'appelait Sarah" lançado em 2006 por Tatiana de Rosnay, o filme narra paralelamente duas tramas que no final convergem. Nos tempos atuais (lembrando que a ação se passa em 2009) a jornalista Julia Jarmond (Kristin Scott Thomas), uma americana erradicada na França, está às voltas com uma pesquisa para realizar uma matéria sobre a ação nazista em Paris. Ela está prestes a se mudar para um apartamento pertencente a família do marido Bertrand Tezac (Frédéric Pierrot) e descobre que o local tem ligações com a história da judia Sarah Starzynski (Mélusine Mayance), personagem real que descobre durante suas pesquisas. A garota e seus pais foram enviados a um campo de concentração onde forçosamente foram separados, mas antes de deixar sua casa tentou salvar a vida de seu irmão caçula trancando-o no armário do quarto e fazendo-o prometer que não iria sair de lá até que ela voltasse para buscá-lo. O problema é que o menino não ficou trancado algumas horas e sim dias sem alimento, água e ventilação restrita.

A chave do título é justamente a que abriria o armário e Sarah lutou para mantê-la sempre sob sua proteção. É dilacerante ver a inocência da menina acreditando que fugindo do campo nazista ainda encontraria o irmão com vida. Quando retorna ao apartamento ele já abriga uma outra família, justamente os Tezac. Eles não tiveram culpa alguma na tragédia, mas o fato é que Julia fica transtornada ao saber que se mudaria para um local com tão tristes memórias, ainda mais agora que seu casamento não anda nada bem. Pais de uma filha adolescente, há anos eles tentavam uma nova gravidez e agora tal dádiva aconteceu, mas o marido mostra-se indiferente à notícia e até apoia a realização de um aborto. Mesmo com essa preocupação pessoal, Julia fica cada vez mais obcecada pela história de Sarah e descobre detalhes que a levam de volta aos EUA e depois à Itália em busca de peças que fechem o quebra-cabeças, mas que no final seria apenas um grão de areia para ajudar a reconstruir um vergonhoso episódio que a França por anos procurou esconder. Em julho de 1942, o Velódromo de Inverno de Paris (no filme as vezes mencionado pela abreviação Vel' d'Hiv) foi palco de um pesadelo no qual cerca de 13 mil judeus foram aglomerados em condições sub-humanas antes de serem entregues aos nazistas. Famílias foram separadas, muita gente se suicidou lá mesmo e pouquíssimos conseguiram retornar a seus lares. A maioria teve o triste destino de serem assassinadas em campos de concentração na Polônia. O velódromo foi demolido no fim da década de 1950 como uma tentativa do governo francês esquecer o ocorrido e no seu local agora está instalado o Ministério do Interior. Como um detalhe de cena, é inserido em certa sequência um pequeno trecho de um discurso datado de julho de 1995 do então presidente Jacques Chirac rompendo o silêncio sobre o assunto após mais de cinco décadas. O diretor Gilles Paquet-Brenner, que assina o roteiro em parceria com Serge Joncour, foi corajoso ao remexer em feridas de sua pátria. Narrando o drama de Sarah até a juventude em paralelo as pesquisas de Julia e seus problemas com o marido, ele consegue prender a atenção do espectador, embora fique a sensação que evitou ao máximo cenas mais fortes. Um suicídio aqui e outro ali e as expressões de espanto de quem viu o corpo do irmão da garota dentro do armário parecem suficientes para chocar. De fato, é uma maneira sutil de expor a problemática.

O que prejudica um pouco a fita é que após a chave do título revelar tão triste segredo o roteiro volta as atenções totalmente para Julia que passa a se dedicar obcecadamente na busca de notícias do que aconteceu com Sarah. A pequena Mélusine rouba a cena com sua dedicação e emoção genuína, mas a personagem já não encanta em sua fase adulta, agora interpretada por Charlotte Poutrel. Não é culpa da jovem. A trama lhe reserva pouco espaço explorando mais o semblante de tristeza que a moça carrega mesmo tentando reconstruir sua vida formando sua própria família. Sarah e Julia não tem apenas o tal apartamento como elo, mas existe uma identificação entre elas quanto a vontade de lutar pela vida daqueles que amam. Mesmo com um filho e um marido para se preocupar, a judia não superou a culpa de inocentemente ter provocado a morte do irmão e ao tomar conhecimento dos rumos da vida da garota a jornalista repensa suas próprias vontades, afinal se levasse adiante a ideia do aborto certamente conviveria com peso semelhante e presa a um casamento de fachada. Claro que para essa engrenagem funcionar a trama toma a liberdade dos fatos das duas épocas se encaixarem com certa perfeição, o que explica a facilidade com que Julia tenha contato com William Rainsferd (Aidan Quinn), o filho de Sarah que desconhecia completamente o passado da mãe. Vencedor dos prêmios de Público e Direção no Festival de Tóquio, A Chave de Sarah segue a linha do bom cinema europeu e evita um final feliz escancarado e termina de forma aberta deixando para o espectador imaginar qual seria o futuro da jornalista, mas explicitando uma mensagem de esperança, de que aconteça o que acontecer a vida deve continuar e da melhor forma possível. Se em termos narrativos o longa divide opiniões por cutucar uma ferida histórica, mas sempre estancando o sangue, uma unanimidade é que a talentosa Kristin Scott Thomas toma os holofotes para si. Indicada ao Oscar por O Paciente Inglês, a inglesa participou de diversos longas em Hollywood, mas nunca deixou de ser uma coadjuvante de luxo. Ao se mudar para a França e se dedicar ao cinema local finalmente encontrou seu espaço realizando filmes mais reflexivos, ousados e porque não dizer autorais. O filme em questão mostra que ela não apenas interpreta, mas deixa transparecer seu prazer em fazer filmes que satisfazem seu gosto pessoal e levam conteúdo ao público. Nós agradecemos.

Drama - 111 min - 2010

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