segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CRUPIÊ - A VIDA EM JOGO

NOTA 6,0

Apesar da premissa batida
envolvendo o universo dos
cassinos, longa ganha pontos com
o refinamento do texto e direção
É curioso como filmes acerca do mundo dos jogos de azar conseguem chamar a atenção principalmente dos chamados cinéfilos de final de semana, mesmo sendo uma temática bastante fechada. Claro que existem nichos de pessoas que conhecem as regras das roletas, carteados e afins, mas a grande maioria é alheia a esses assuntos, principalmente pelo fato dos cassinos serem proibidos no Brasil, assim não sendo uma atividade bem vista e frequentemente associada ao submundo dos crimes e drogas. Crupiê - A Vida em Jogo de certa forma reitera tais preconceitos, mas faz isso com certo refinamento. Na trama escrita por Paul Mayesberg, de O Último Samurai, os gêneros drama, thriller e policial se mesclam de maneira um pouco disforme, mas compensa com um estilo sóbrio que combina com o estilo do protagonista, um homem que também de maneira cautelosa planeja seus passos para se dar bem, mas acaba envolvendo as pessoas que o cercam em ciladas. Jack Manfred (Clive Owen) sonha em se tornar um escritor de sucesso, mas em meio as suas tentativas para publicar seu primeiro romance acaba afogando-se em dívidas. Ele fica sabendo sobre uma vaga de emprego em um cassino londrino como croupier, mas ele tinha prometido a si mesmo que não se meteria mais com jogatinas. Contudo, as dificuldades o forçam a correr atrás deste emprego e, diga-se de passagem, seu desempenho surpreende dia após dia, sem essa de sorte de principiante, mas sua namorada Marion (Gina McKee) insiste para que ele peça demissão e retome a carreira literária. Mal sabe ela que seu companheiro está nesse negócio justamente para observar os frequentadores do cassino e se inspirar para escrever um novo livro sobre um assunto que domina. Não demora muito para que Manfred se desvirtue, principalmente quando se envolve amorosamente com Bella (Kate Hardie), uma colega de trabalho, ao mesmo tempo que não resiste as investidas de Jani (Alex Kingston), uma jogadora que lhe faz uma ousada proposta. Ela quer a ajuda do rapaz para acobertar um grupo de criminosos em um plano para roubar a casa de jogos. Por fim, todas essas experiências o inspiram a escrever a história do croupier Jake, claramente seu alter ego.

Hoje um ator de sucesso e capaz de atrair público facilmente, na época Owen estava tentando conquistar seu espaço e aqui encontrou um bom personagem, um tipo que exigia uma interpretação ambígua, quase uma dupla personalidade, um desafio e tanto para qualquer intérprete, ainda mais em início de carreira. Ora ele é o mocinho pelo qual deveríamos torcer para conseguir conquistar seus objetivos pessoais e profissionais, ora ele se apresenta como um canalha mulherengo, ganancioso e metido até o pescoço com negócios ilícitos. Responsável por embaralhar e distribuir cartas para os apostadores e supervisionar as partidas, aos poucos percebemos que um bom croupier jamais deve ter destaque no salão e sim se portar como uma figura onipresente, mas ao mesmo tempo quase invisível. Discretamente ele deve observar a tudo e a todos e se controlar para não cair na tentação de assumir o posto de jogador, regras seguidas á risca por Manfred e que contraditoriamente o levam a ser notado pelo chefe do cassino e seus colegas de profissão. O roteiro apresenta inteligentes analogias entre o ofício do protagonista e as suas próprias escolhas pessoais, sendo assim a vida desequilibrada do rapaz apenas reflete as escolhas que faz, a forma como decide seus próximos passos de acordo com as cartas que recebe para continuar o jogo, sempre lidando friamente com os sentimentos dos outros. Todavia, chega uma hora que ele perde o controle e forçosamente tem que aprender a ser manipulado para sobreviver nesse universo onde ricaços se divertem e tentam enriquecer ainda mais à custa de dinheiro alheio. Tal papel caiu como uma luva para Owen que carrega a fita praticamente nas costas em meio a um bando de rostos desconhecidos, embora ele próprio praticamente fosse reconhecido apenas em seu país natal, a Inglaterra, onde passou a ser apontado como o ator ideal para assumir a vaga de James Bond, talvez a figura mais icônica da cultura inglesa. A ideia não vingou, mas a carreira do astro sim.

Produzido na Europa em 1998, o longa só teve lançamento em alguns países após dois anos engavetado, embora tenha sido exibido na televisão holandesa antes mesmo de estrear em solo americano. Esse teria sido o motivo de seu impedimento para estar na lista dos pré-selecionados para o Oscar, foi considerado como um telefilme, uma pena visto que se tornou um inesperado sucesso de bilheteria e de crítica nos EUA mesmo em circuito de exibição restrito. Caiu nas graças de um público mais maduro e seletivo. Já no Brasil, além do atraso, chegou aos cinemas com um mínimo de divulgação. Sem a publicidade das premiações, Mike Hodges acabou perdendo a chance de ter seu nome elevado ao primeiro time de cineastas. Responsável por trabalhos de qualidade como Carter - O Vingador e O Diário de Um Gângster, o diretor estava a quase uma década dedicando-se apenas a projetos de televisão após uma sucessão de fracassos nas telonas. Talvez por isso seu retorno ao cinema carregue em sua estética, ritmo de edição e até na narrativa um quê do estilo televisivo, ainda que a premissa seja no mínimo interessante, embora batida. Além dos inúmeros verbetes e gírias utilizados nas cenas de jogatinas que não fazem muito sentido os leigos em carteado, Crupiê - A Vida em Jogo no fundo não traz novidades, apenas conta com certo refinamento pela enésima vez a história do cara que quer viver dignamente, mas acaba corrompido pelo ludibriante mundo do dinheiro, drogas e sexo fácil. Já vimos esse conto várias vezes. O diretor apenas joga um verniz em um argumento envelhecido. É um passatempo ligeiro, por vezes divertido, mas que tem algumas sequências que comprometem o interesse do espectador. É até difícil especificar o que é, mas existe a nítida sensação de que falta algo ou há certo exagero no roteiro, principalmente para os mais tradicionais que defendem que os mocinhos dos filmes devem dar bons exemplos. Todavia, nem só de heróis se faz o cinema. Os anti-heróis estão na moda... E há tempos.

Drama - 94 min - 1998 

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