Apesar do bom argumento, narrativa é frágil e refém de violência gráfica extrema e excessiva
O diretor Eli Roth destacou-se no gênero de horror ao não se intimidar e abraçar o gore e a violência gráfica em seus estágios mais avançados em obras como Cabana do Inferno e O Albergue, capazes de incomodar até os espectadores mais escolados no gênero e com estômago forte. Após Feriado Sangrento, um eficiente slasher em seu modelo mais clássico, o cineasta resolveu voltar a suas origens com o controverso O Sorveteiro que não choca especificamente por sangue e vísceras servidos em generosas doses, mas causa certo impacto negativo ao colocar crianças como autoras de assassinatos e mutilações apresentados com riquezas de detalhes. O argumento poderia render uma sátira macabra com foco na oposição entre gerações imersas num conflito de proporções radicais, mas não há tempo para se aprofundar em questões do tipo. A estrutura narrativa frágil se apressa a expor o conflito principal sem rodeios e condiciona a obra a ser refém de cenas de ataques e mortes mirabolantes disparadas freneticamente na tela sem qualquer tipo de construção de clima de tensão. A história se passa na pacata Bayleen Bay, uma cidadezinha que parece imersa na estética dos subúrbios americanos dos anos 1950. Se não fosse pelos modelos de carros atuais e celulares facilmente poderíamos acreditar estarmos acompanhando a uma produção de época, mas em poucos minutos a carnificina toma a tela nos lembrando que trata-se de um filme para um público que cresceu na Era dos Jogos Mortais e similares.
Sem se aprofundar na construção de personagens, rapidamente reconhecemos estereótipos entre os habitantes da cidade, sendo o protagonista Jared (Charlie Zeltzer) o típico garoto que tem poucos amigos, é alvo constante de ameaças de bullying, vive de implicância com a irmã mais velha Lizzie (Sarah Abbott), mas mesmo assim vive em harmonia com seus pais (interpretados por Karen Cliche e pelo próprio Roth exercitando seu lado de ator). Ah, e o menino é intolerante a lactose, um detalhe importante, assim ele é uma das poucas crianças a não provar o sorvete ofertado por um misterioso homem que passeia pelas ruas a bordo de seu colorido furgão e que atrai atenções tocando um singelo jingle. Todos acreditam se tratar de um sorveteiro a moda antiga que chegou a cidade e logo formam-se filas para pegar os sorvetes distribuídos gratuitamente, mas a aparente ação promocional tem propósitos insanos. De madrugada, o mesmo carro vaga pela região e ao tocar a tal música desperta todas as crianças que provaram o brinde. Elas parecem em transe e cada uma ter a incumbência de matar os próprios pais com requintes personalizados de crueldade. É aí que o filme choca ao imprimir uma comicidade mórbida, colocando o espectador entre a euforia de gargalhar com cenas inimagináveis e a culpa de estar se divertindo assistindo crianças praticando atos dignos dos piores psicopatas.
No dia seguinte, algumas crianças atacam outros adultos que cruzam seus caminhos, mas a maioria delas parecem zumbis rumo à escola onde permanecem em silêncio e com olhar distante. Jared estranha o comportamento dos colegas e parece que além dele apenas Tommy (Shiloh O'Reilly) e Mia (Kiori Mirza Waldman) estão em sã consciência. Quando o sorveteiro passa em frente ao colégio tocando seu jingle, agora é a vez dos professores serem as vítimas dos alunos que se divertem com a mesmo animação de quem participa de uma gincana, no caso disputando quem é mais cruel. Agora o trio sobrevivente precisa encontrar uma maneira de barrar o sorveteiro antes que eles mesmos sejam forçados a se transformarem em máquinas de matar. Alegoricamente o argumento emula o perigo que muitas crianças correm a não dar ouvidos as advertências de jamais aceitar coisas de estranhos, tanto que o simplório título inserido num contexto de horror remete a crimes reais em que elementos convidativos ao universo infantil são usados como chamariz para sequestros, tráficos de órgãos ou assassinatos por pura maldade. Roth, no entanto, subverte as expectativas colocando as crianças no centro de um plano de vingança contra os adultos, o que também pode explicar as críticas negativas e o descaso do público. Em tempos em que o ódio e a intolerância proliferam com velocidade absurda nas sociedades, é um pouco repulsiva a ideia de um filme que banaliza a violência e que pode servir como má influência ao apresentar crimes cruéis em tom cômico.
Existem diversos casos de psicopatas cujos registros de infância trazem lembranças desde o aparente vício inocente de quebrar brinquedos, principalmente bonecas e ursinhos de pelúcia, até atos cruéis praticados contra animais. É impossível não lembrarmos disso ao longo de O Sorveteiro que, embora idealizado como uma diversão escapista, pode servir de gatilho para mentes fracas ou ainda em formação. Sabemos que uma classificação indicativa não é empecilho algum para crianças acessarem conteúdos impróprios, assim ficamos com a incômoda sensação de que estamos diante de uma ferramenta que banaliza a remoção de um cérebro ou de vísceras em meio a gargalhadas, por exemplo. A reação de alguns atores mirins passam o pavor de que a qualquer momento arrancar os cabelos ou os membros de uma boneca perderá a graça já que não podem chorar e clamar por piedade. Todavia, o baixo aceite da produção felizmente nos tranquiliza que situações apocalípticas desse tipo venham a se tornar corriqueiras, afinal este não é o primeiro e certamente nem será o último filme a apresentar crianças como ameaças. Aliás, o roteiro do próprio Roth, em parceria com Noah Belson, emula diversas referências de outros filmes. Menores sacrificando adultos já vimos em Colheita Maldita e A Cidade dos Amaldiçoados e o elemento fantástico da trama nos remete A Hora do Mal, este que ainda compartilha um cenário muito parecido com a cidadezinha de Bayleen Bay. E é claro que o sorvete como hospedeiro de algo maldito nos faz lembrar do iogurte de A Coisa.
O longa ainda traz certa similaridade com Terrifier. Assim como o palhaço Art, o personagem-título, interpretado por Ari Millen, não fala uma única palavra, faz uso de artifícios lúdicos e mímicas para chamar atenção e suas expressões faciais flertam com o deboche. A diferença é que ele não coloca suas mãos em contato com sangue, deixando o trabalho sujo para uma espécie de seita que comanda e na qual apenas crianças são aceitas. Mesmo que um adulto tome o seu sorvete ele apenas ficará paralisado, pois o sorveteiro o quer vivo para saborear sua morte. Fica a impressão que o diretor, propositalmente ou não, flerta com o trash de antigamente buscando o exagero na representação visual do sangue, vômitos e até mesmo de um cérebro servido como bola de sorvete, algo tão enojador quanto o que é visto em A Morte do Demônio original, mas substituindo efeitos práticos pela suspeita de uso abusivo de IA, afinal é um tanto insano pensar que pais permitiriam seus filhos a gravarem cenas tão pesadas e nojentas. Não há cachê que compense um trauma desses. Embora deixe claramente brecha para uma possível continuação, a curta duração do filme denuncia a fragilidade do personagem-título para se tornar um vilão memorável e segurar uma franquia. Após impactar com a precoce apresentação de seu modus operandi, Roth precisa dar estofo a figura do sorveteiro e recorre a referências do velho conto do pacto com o diabo a até mesmo a origem do lendário Freddy Krueger de A Hora do Pesadelo, assim tentando em vão criar uma mitologia própria para sua criação.
Terror - 86 min - 2026
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