quarta-feira, 1 de novembro de 2017

AWAKE - A VIDA POR UM FIO


NOTA 6,0

Com elenco e duração enxutos,
suspense começa bem com uma
ideia bastante perturbadora, mas
não tarda a se entregar aos exageros
Precisar passar por uma cirurgia por si só já é motivo para tirar o sono de muita gente, mas imagine então entrar na sala de operação sabendo que as chances de tudo dar errado são altas ou, pior ainda, que esta não será a solução definitiva de seu caso, apenas um paliativo que lhe oferecerá mais alguns anos de vida. Se desgraça pouca é bobagem imagine ainda que você pode ser uma das pessoas que se enquadram em uma rara estatística. Existe um fenômeno no qual pessoas que recebem anestesia geral não perdem a consciência mental, apenas o corpo físico adormece, assim o paciente acompanha todo o procedimento cirúrgico. Esses são os dilemas vividos pelo jovem Clay Beresford (Hayden Christensen), o protagonista de Awake - A Vida Por Um Fio, uma interessante mescla de drama e suspense. Bem, isso até pelo menos a sua metade. O filme de estreia do diretor e roteirista Joby Harold começa de forma bastante competente apresentando sem pressa os poucos personagens e o cenário principal, um hospital. Pode parecer o mínimo que se espera de um roteiro bem estruturado, mas para uma produção enxuta que não chega a uma hora e meia de arte concreta esses minutos são preciosos. Um incauto qualquer poderia tentar resumir ao máximo a introdução para partir logo ao plot principal, o que certamente prejudicaria o envolvimento do espectador com o protagonista e até mesmo com sua mãe que ganha importância na segunda metade da trama. O milionário Beresford não chegou nem à casa dos trinta anos, mas já sofre de um grave problema cardíaco e só um transplante de coração poderia salvá-lo, ainda que prolongando sua vida por cerca de uma década. O problema é que seu tipo sanguíneo é raro, o que dificulta achar um órgão compatível, mas quando surge a oportunidade o rapaz se vê em meio a outro impasse. Certa vez ele sofreu um ataque cardíaco e por um triz foi salvo pelo Dr. Jack Harper (Terrence Howard) e desde então se tornaram amigos, assim o paciente faz questão que ele faça seu transplante contrariando a vontade de Lilith (Lena Olin), sua mãe que deseja que a cirurgia seja feita pelo renomado Dr. Jonathan Neyer (Arliss Howard).

Filho único, herdeiro de uma grande fortuna e órfão de pai desde criança, Beresford foi criado com rigidez pela superprotetora mãe que sempre controlou sua vida. Apesar disso, eles mantém um amistoso relacionamento, o que não impede que ela reprove seu relacionamento com Samantha Lockwood (Jessica Alba), ou simplesmente Sam, a secretária do empresário que estende sua prestação de serviços a algumas pequenas necessidades particulares de sua futura sogra, contudo, ela nem sabe que os jovens ficaram noivos às escondidas. Toda essa apresentação de personagens dura cerca de meia hora, mas a trama começa de verdade quando o protagonista entra na sala de cirurgia. Ele recebe a anestesia, mas ela age apenas em seu físico o imobilizando. Sua mente, no entanto, não adormece, assim ele se mantém consciente durante todo o procedimento, compreendendo tudo o que se passa ao seu redor. Dessa forma ele vem a descobrir que de fato sua vida está em risco, não só clinicamente, mas também por conta de uma conspiração. Harold é habilidoso na direção e consegue oferecer momentos angustiantes, sejam visuais, apresentando com impressionante realismo detalhes da cirurgia, e também narrativos, quanto a imobilidade do rapaz para poder se defender do esquema armado dentro e fora do centro cirúrgico. Mesmo passando a maior parte do tempo deitado em uma maca, Christensen praticamente aparece em 80% do longa, mas lhe falta carisma e presença de tela, algo fundamental para torcermos pela recuperação de seu personagem. A trama também não ajuda muito porque seu conflito fica totalmente amarrado as ações que ocorrem no exterior a sala de operações, além de que em paralelo ele relembra um trauma de infância mal trabalhado pelo roteiro e que acaba não agregando nada ao plot principal.

O público acaba se preocupando mais com a situação de Lilith que se torna peça-chave para a resolução da trama, muito graças a dedicação de Olin, ao contrário de Alba que com sua apatia costumeira trabalha contra o roteiro que não consegue surpreender quando lança uma revelação bombástica a respeito da jovem. Alegre, preocupada, triste ou dissimulada, não importa, a atriz mantém sempre a mesma inexpressividade. Apesar do ótimo argumento que tinha em mãos e de apresentar um trabalho bem interessante até a metade, Harold acaba se dispersando entre exageros narrativos em uma busca apressada para encontrar uma conclusão impactante. Aparentemente tudo indica que a trama renderia mais se mantivesse o foco na consciência anestésica do protagonista, assim mostrando como ele se desvencilharia do plano que arquitetaram contra ele ao mesmo tempo que tentaria exorcizar seus problemas de infância atrelados ao pai, memórias tristes que o perturbavam diariamente e que vem a tona nesse momento tão difícil. Enquanto acompanhamos seu sofrimento inerte à mesa de cirurgia, escutando cada barulhinho de instrumentos e os diálogos infames da equipe médica, sentimos um crescente clima de tensão no ar, mas tudo se esvai quando o roteiro abre caminho para o sobrenatural. O espírito de Beresford consegue deixar seu corpo físico e vagar por onde bem queira. Nesse ponto o longa muda drasticamente seu ritmo. Toda calmaria inicial é descartada e os fatos começam a surgir na tela apressadamente, um atrás do outro, sem tempo para o espectador pensar, ou melhor, apenas respirar, visto que tudo é minuciosamente detalhado pelos personagens não abrindo espaço para ninguém tirar suas próprias conclusões. Infelizmente falta criatividade e esmero na condução de Awake - A Vida Por Um Fio, produção que parece mais preocupada em criar situações de impacto do que resolvê-las adequadamente. Mesmo assim, Harold fez uma estreia acima da média, digna de mais elogios quanto a sua posição como diretor do que como roteirista. Talvez tentando fazer um filme limpo, sem sangue ou violência gratuitos, ele tenha se esquecido que a intenção era realizar um suspense. Pela curta duração e deficiências, o que foi entregue daria um ótimo episódio para uma dessas típicas séries televisivas passadas em hospitais.

Suspense - 84 min - 2007

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