domingo, 18 de janeiro de 2026

ENCONTRO DE CASAIS (2009)



Boa premissa é desprezada prevalecendo tom grotesco e escrachado para abordar crises conjugais


Todo casal não deve escapar de uma crise, mesmo que mínima, mas as vezes os episódios de discussões se tornam mais constantes que os momentos de afeto e alegria. Nesses casos, muitos procuram auxílio na chamada terapia de casal que pode ser feita de diversas maneiras, mas em Encontro de Casais essa ajuda vem de forma um tanto inusitada, colocando seus participantes em uma espécie de teste de resistência à traição. A trama começa apresentando a situação do casal formado por Jason (Jason Bateman) e Cynthia (Kristen Bell) que estão prestes a se divorciar. Como última tentativa de salvar o casamento, eles resolvem fazer uma viagem para participar de uma terapia de casais em uma ilha paradisíaca. Para conseguir um desconto, eles incentivam outros casais de amigos para viajarem também no intuito de eles irem apenas para se divertirem, mas sem acompanhar a terapia. Inicialmente relutantes, os parceiros Dave (Vince Vaughn) e Ronnie (Malin Akerman), Joey (Jon Favreau) e Lucy (Kristin Davis), e Shane (Faizon Love) e Trudy (Kali Hawk) acabam aceitando o convite. Quando chegam no tal lugar prometido como o paraíso, eles são alojados por Stanley (Peter Serafinowicz) na parte oeste da ilha e Joey logo descobre que na parte leste há um resort de solteiros, mas cuja entrada é proibida para as pessoas comprometidas. 

Já na primeira noite, todos os casais são informados que terão obrigatoriamente que se engajar na terapia, caso contrário, devem retornar para casa. Decididos a aproveitar os benefícios oferecidos pela ilha todos resolvem permanecer, porém, eles nem desconfiam pelas provas de fogo que irão passar para provarem que suas uniões ainda têm futuro. Juntar vários casais em uma paradisíaca ilha para fazerem terapia e melhorarem o relacionamento a dois parece um sonho, mas os selecionados para esta experiência comprovaram que a ideia é uma tremenda roubada. Um elenco divertido é exposto às situações mais vexatórias possíveis em um local onde os casais deveriam teoricamente buscar a harmonia e o entendimento, mas com a ajuda de profissionais um tanto suspeitos o resultado é desastroso. Os beijos e abraços são trocados por barracos e discussões. Isso já era de se esperar assim como não poderíamos ter expectativas de que aqui teríamos um estudo profundo sobre as relações amorosas quando sofrem o baque da famosa crise de meia-idade. No entanto, o enredo garante a diversão através de tipos bem distintos, obviamente calcados em estereótipos para proporcionar uma identificação rápida do público com os personagens. 


O casal Jason e Cynthia não tem filhos e a dificuldade da mulher engravidar acaba por trazer à tona diversos problemas conjugais. Talvez já não exista o mesmo amor entre eles dos tempos do namoro para justificar estreitar ainda mais tal relação. Se a falta de um filho é o problema deles, a existência de uma criança é justamente o que pode estar afetando a relação de Joey e Lucy, ele ex-capitão de um time de futebol americano e ela uma ex-líder de torcida. Eles acabaram se unindo por causa de uma gravidez inesperada, mas sem ter laços afetivos sólidos, apenas passaram uma noite juntos e vivem há anos apenas suportando um ao outro e na base da infidelidade. Já Dave só pensa no trabalho e lucrar muito para dar um bom padrão de vida à família, mas sua esposa Ronnie certamente preferia ter a companhia mais constante do marido, ainda que de longe formem o casal mais normal da excursão. Talvez por se sentir sozinha ela se tornou uma maníaca por reformas. Por fim, Shane foi abandonado pela esposa e tentando dar a volta por cima se juntou a uma garota bem mais jovem que ele e extremamente infantilizada. Se sentindo um lixo, ele acaba por fazer todas as vontades da namorada sem perceber os micos que paga, afinal ele já não tem mais vinte e poucos anos e está bem acima do peso. 

A relação de todos os casais azeda, assim como a boa premissa, quando entram em cena os coadjuvantes, como o monsieur Marcel (Jean Reno) que junto com sua equipe de massagistas, psicólogos e terapeutas acaba envolvendo todos os hóspedes em uma série de situações embaraçosas testando os limites e o nível de honestidade dos participantes . As atividades desenvolvidas divertem o público, mas em geral acabam mais por constranger, como as sequências envolvendo as aulas de yoga sob o comando de um profissional saradão e despudorado. Na maior cara-de-pau ele tira uma casquinha das mulheres abusando de posições físicas de duplo sentido enquanto os maridos ficam olhando tudo embasbacados. Apesar de piadas desnecessárias envolvendo escatologia ou teor sexual, o que acaba mesma com a produção é o último ato quando a previsível reconciliação dos casais se concretiza. A guerra dos sexos é declarada e as duplas se separam, mas todos continuam aprontando o quanto podem no resort. Como forma de punir as companheiras, entre outras coisas, pelo comportamento delas em relação ao professor de yoga, os homens decidem infringir as regras do local e desbravar o lado desconhecido da ilha, aquele ambiente exclusivo dos solteiros. O problema é que elas também têm a mesma ideia de conhecer a região. Após muita libertinagem, o reencontro traz as manjadas mensagens de moral e finalmente eles percebem que a união perfeita é uma ilusão. 


Com direção de Peter Billingsley, Encontro de Casais necessitava justamente de um peso mais racional para contrabalançar com o emocional exagerado. Emoção no caso ligada a euforia. No final, este trabalho é aquele típico filme que exala a sensação de liberdade que as férias e o verão carregam, tanto que com um cenário paradisíaco como o apresentado aqui fica difícil extravasar qualquer má impressão que o longa tenha nos deixado. O jeito é embarcar no clima, relaxar e dar algumas risadas se possível, bem ao estilo que a personagem Trudy leva a vida. Ela é extremamente irritante com seu jeitinho de adolescente mimada, mas talvez por isso mesmo a melhor criação do filme. É até irônico, mas justamente o tipo mais bizarro entre os oito protagonista é o que mais mexe com as emoções do espectador. Simpatia ou raiva, seja qual for o sentimento, ela talvez seja a única vaga lembrança que você terá desta comédia convencional que joga uma boa premissa no lixo sem dó alguma. Tendo seu roteiro assinado pelos atores Favreau e Vaughn, ainda que com a colaboração de Dana Fox, não há mesmo como ter esperanças que tal projeto fosse além de ser apenas um passatempo divertido, embora a premissa apontasse uma boa oportunidade de discutir a saúde dos relacionamentos amorosos após alguns bons anos de convívio direto e diário.

Comédia - 113 min - 2009 

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