segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

AMOR IMPOSSÍVEL (2011)



Plasticamente belo, mescla irregular de gêneros, no final das contas. não convence em nenhum 


Quem se sentir atraído pelo singelo título certamente vai se decepcionar com esta produção assinada por Lasse Hallström, diretor experiente com dramas e romances e queridinhos das premiações. Muito provavelmente seu nome envolvido impulsionou Amor Impossível a ganhar visibilidade e ser indicado a diversos prêmios e festivais.  Existe sim um gancho romântico na trama, mas ele demora a ser desenvolvido e não conquista emocionalmente o espectador, assim muitas pessoas podem ficar com a sensação de ter comprado gato por lebre. O título original, "Salmon Fishing in the Yemen" já dá a dica de que o foco da produção é outro: contar a história insólita de um milionário que desejou ter uma criação de salmão em uma região desértica para praticar seu esporte favorito, a pesca. Baseado no livro homônimo de Paul Torday, o pontapé inicial da história é dado por Muhammed (Amr Waked), um xeique visionário que acredita que a pesca pode transformar a vida de seu povo e está disposto a gastar o quanto for necessário, mas as dificuldades quanto a implantação de seu sonho não são de sua alçada. 

A consultora de investimentos Harriet Chetwode-Talbot (Emily Blunt) é então chamada para levar a ideia até o Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor), um especialista britânico no assunto e o único capaz de fazer água surgir no deserto literalmente e ainda dar cria de peixes. O cientista deve oferecer o embasamento técnico, dizer o que precisaria ser feito para adequar o clima árido ao sonho do contratante, mas a princípio o rapaz acha a história absurda e faz pouco caso da oferta. Todavia, quando Patricia Maxwell (Kristin Scott Thomas), a assessora de comunicação do Primeiro Ministro da Inglaterra, toma conhecimento do projeto faz de tudo para que ele seja levado adiante por motivos políticos. Os britânicos e os povos do Oriente Médio estão vivendo um momento pouco amistoso por conta de uma ocupação no Afeganistão e uma notícia como a da iniciativa do xeique poderia apaziguar os ânimos e desviar a atenção daqueles que condenavam a participação dos ingleses no conflito. A assessora pode ser vista como uma vilã, mas na realidade é apenas uma pessoa que sabe tirar proveito das situações. Em uma ideia autêntica e inocente enxerga a possibilidade de benefícios, talvez até financeiros, e por isso ela está ocupando um cargo alto e de confiança. É esperta e perspicaz como só ela. Jones entra no projeto a contragosto já que corria o risco de perder seu emprego, assim ele não faz questão alguma de esconder sua insatisfação e é antipático com todos. É nesse ponto que o tolo título nacional pode encontrar sua frágil justificativa. 


O comportamento fechado do rapaz é um empecilho para se aproximar de Harriet. É pouco provável que uma moça tão sensata se sentisse atraída por alguém que cria suas próprias barreiras para evitar aproximações, e essa mesma sensação é transmitida com perfeição ao público extrapolando até os limites do necessário. Um romance que se preze precisa ter personagens que despertem a simpatia do espectador, o que não é o caso. Hallström já conseguiu realizar trabalhos bem melhores com orçamentos modestos, como Regras da Vida e Chocolate, também baseados em livros e com vários personagens e subtramas, mas a adaptação do best-seller pelas mãos de Simon Beaufoy falha ao forçar um relacionamento entre personagens desinteressantes, mesmo eles tendo seus dramas paralelos a serem resolvidos enquanto tentam engatar um romance. Ela tem um noivo que desapareceu em uma missão militar e o cientista está vivendo uma crise em seu casamento. Os ganchos envolvendo os respectivos cônjuges são lembrados vez ou outra, mas nem assim o foco é centrado na construção de algum sentimento entre os protagonistas. Se existem alguns esforços eles são diluídos em meio a uma trama cansativa e longa. O grande problema são os diversos diálogos abordando discussões técnicas sobre como os peixes poderiam ser criados no Oriente Médio. Felizmente, nada é justificado como truques de mágica, pelo contrário, tudo tem suas explicações, como o fato de terem sido encontradas reservas aquíferas no deserto e há dois anos Muhammed já ter patrocinado a construção de um reservatório de água. Quem disse que dinheiro não faz milagres? 

McGregor faz de longe o personagem mais verossímil, com direito a síndrome de Asperger que ajuda a compor o papel de homem aparentemente insensível, o único que parece ver as dificuldades que envolvem a operação, tanto que faz pedidos absurdos ao xeique com o objetivo dele desistir do negócio. Contudo, sua racionalidade extrema vai baixando a guarda aos poucos ao tomar contato com um universo e pessoas onde e para quem a fé, a solidariedade e o positivismo são levados em máxima consideração. Blunt também faz o que pode para dar credibilidade ao seu papel, a profissional perfeita que acata ordens sem pestanejar e sempre tem uma boa resposta para atacar elegantemente o negativismo de seu parceiro de trabalho. Harriet só se torna acessível nos momentos em que está preocupada com o namorado ou abrindo seu coração para o cientista. Por fim, a sempre competente Scott Thomas leva a melhor honrando a essência do livro inspirador que na realidade faz uma sátira à política, à burocracia e até mesmo aos veículos de comunicação, algo que fica claro em uma das primeiras cenas de Patricia na qual ela busca desesperadamente algum assunto ligando britânicos e árabes positivamente para abafar o da guerra. O problema é que essas críticas também acabam diluídas no enredo assim como o romance ou ao menos é essa a impressão que temos ao final.  


Romance, comédia romântica ou drama? Amor Impossível é tudo isso e ao mesmo tempo nada disso. Chamar de projeto único seria elevar muito a bola a um filme irregular e que parece não saber qual seu objetivo concreto. Produção experimental seria a melhor definição, uma forma diferenciada de contar uma história de amor e com algum conteúdo relevante, mas que acabou se perdendo pelo caminho resumindo-se a um drama pouco convencional. Com montagem que imprime certa agilidade, o longa certamente passaria despercebido, mas acabou tendo certa projeção devido as indicações a alguns prêmios. Não é uma obra de todo ruim, tem algumas qualidades pontuais, principalmente em questões técnicas que costumam marcar as obras de Hallström, mas a lembrança em premiações e festivais mostra que talvez o nome do cineasta é que tenha sido determinante para algum reconhecimento da filme que, em resumo, é praticamente uma longa palestra disfarçada sobre como criar salmões em condições adequadas, mesmo em regiões improváveis.

Romance - 107 min - 2011 

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