Produção infantil recicla com sucesso a fórmula do bichano quer quer ser famoso
Se existem aos montes filmes a respeito da época do Natal ou do Dia das Bruxas, por que não dar chance também para o feriado de Páscoa? Pegando o gancho na popular data festiva em que as trocas de chocolates são as principais referências, o diretor Tim Hill conduziu Hop – Rebelde Sem Páscoa, mistura de produção live-action com animação nos mesmos moldes da franquia Alvin e os Esquilos, um projeto do próprio cineasta. O roteiro de Brian Lynch, Cinco Paul e Ken Daurio tem dois protagonistas vivendo em universos completamente opostos. Junior é um coelho adolescente que adora tocar bateria e sonha em fazer sucesso no mundo da música, mas seu pai deseja que ele dê continuidade à tradição milenar de sua família e se torne o seu sucessor no cargo de Coelho da Páscoa oficial. Ele tenta convencer o pai de que seu caminho é outro, mas não tem sucesso e assim parte para a cidade de Los Angeles onde acredita que poderá enfim se tornar um grande astro. Ao chegar lá, por pouco ele não é atropelado por Fred Lebre (James Marsden), um trintão que tem sido pressionado pela família para que enfim consiga um emprego e deixe a casa dos pais.
Após a surpresa inicial por encontrar um coelho falante, Fred aceita levá-lo até a mansão onde está fazendo um bico como vigia enquanto o dono está viajando. Apesar dos problemas iniciais de adaptação, eles se tornam amigos, assim o rapaz topa ajudar Junior a conseguir espaço no cenário musical. Enquanto isso, uma conspiração está sendo organizada contra o pai do coelhinho rebelde organizada pelo ganancioso Carlos que deseja tomar o controle da produção de doces todo para ele. Para quem presta atenção em detalhes, é inegável que surjam ideias que gerem comparações entre o citado filme dos esquilos e o do coelhinho, a começar pelo fato dos bichinhos de ambas as produções adorarem música pop e terem um humano meio perdido na vida como agente e grande amigo. O sucesso dos músicos também é a glória de seus tutores, assim como a fofura e a tagarelice dos protagonistas se equiparam. Porém, as semelhanças não atrapalham o resultado final e só mesmo os mais chatos devem resmungar. O enredo em si é manjadíssimo, mas o que importa é ver o desenrolar dos fatos e a sintonia da dupla de protagonistas é contagiante. É preciso lembrar que esta é uma produção infantil e quanto mais elementos repetidos e piadas batidas melhor, assim a gurizada se entretém mais facilmente já que para eles tudo é novidade por mais clichê que seja.
Outro ponto a favor é o fato do coelho Júnior conseguir ser ligeiramente mais simpático que o trio de esquilos no qual Alvin era o destaque e os outros dois ficavam apagadinhos. Por último, o ator escolhido para fazer a parceria com o desenho animado conseguiu se mostrar bem mais a vontade em cena mesmo contracenando boa parte do tempo com o nada. Marsden consegue superar Jason Lee e Zachary Levi (respectivamente de Alvin 1 e 2) em entusiasmo, até porque seu currículo é bem mais recheado com comédias e ele já havia trabalhado em esquema parecido em Encantada, dividindo a tela com um esquilo criado virtualmente, ainda que em menor quantidade de cenas. No entanto, com exceção de Fred e sua irmã Samantha (Kaley Cuoco), causa certa incômodo perceber que o restante do elenco adulto reage com absurda naturalidade ao ver um coelho falante e serelepe pela primeira vez, tornando inúteis os previsíveis malabarismos que o rapaz faz para esconder seu amigo orelhudo, mais uma vez um clichê batendo ponto, mas mal inserido no contexto.
Outra grande esquisitice, ou excelente sacada do filme dependendo do ponto de vista, é trazer a tona a discussão que coelhos não colocam ovos, quem bota são as galinhas, assim há um líder entre os funcionários da fábrica de doces, todos pintinhos, que reivindica o direito de se tornarem o animal-símbolo da Páscoa. Carlos se mostra um empregado leal e competente que sonha em ser o símbolo da páscoa e não pode ser por conta de sua raça e, quando sugere isso ao chefe Coelho, vira motivo de chacota. Por conta disso, acaba pirando e comandando uma rebelião. Faz até sentido a brincadeira, mas no fundo o personagem Carlos tem interesses pessoais neste embate. Embora o diretor o retrate como um vilão estereotipado, com o plus de ser um animal de origem latina, é mais fácil sentir pena de sua condição talvez por retratar um conflito muito comum aos humanos no selvagem mundo capitalista. Percebemos que cada vez mais existe o desejo dos personagens animados não serem apenas criações de fácil distinção entre heróis e vilões, mas que eles ganhem certa humanização a partir de feições, sentimentos e conflitos, o que enriquece suas composições e cria uma conexão com a realidade.
Na Ilha da Páscoa ainda conhecemos três coelhinhas que formam o grupo das Boinas Rosas, recrutadas como espiãs para localizar o Junior. Em meio à essa investigação, as escapadas do aspirante a músico, a tentativa de Carlos de usurpar um lugar que não lhe pertence, a preocupação do Coelho da Páscoa com seu sucessor e ainda a vida enrolada de Fred, temos uma gama muito grande de pontos a serem desenvolvidos, mas como é de se esperar todos são resolvidos de forma previsível e ágil. Chama a atenção também ver a inserção de algumas piadas que podem ser de difícil compreensão pelos pequenos ou mal interpretadas, como uma brincadeira mencionando as coelhinhas da Playboy, um cutucão aos povos chineses e as diversas vezes que a palavra pinto é utilizada. O visual criado para o mundo mágico da Páscoa completa o espetáculo se mostrando um verdadeiro delírio para os olhos e capaz até de encher a boca de água. Difícil resistir a vontade de devorar um docinho enquanto se assiste Hop - Rebelde Sem Páscoa, forte candidato a substituto dos filmes bíblicos nos domingos deste feriado.
Comédia - 90 min - 2011
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