Apesar dos clichês, obra envolve com clima de tensão e atmosfera que hoje exala nostalgia
Quem já foi em um acampamento escolar certamente já se apavorou com as histórias de terror contadas em torno de uma fogueira tarde da noite, mas se você morou em uma república também já deve ter vivido situação parecida. Bem, viver no campus de um colégio ou universidade não faz parte da realidade de nós brasileiros, mas para os americanos isso é de praxe. Sem muito pensar nos estudos, os jovens ianques entregues ao ócio gastam seu tempo com paqueras, baladas e amedrontando os colegas com contos macabros a respeito de mortes misteriosas. É esse o ponto de partida de Lenda Urbana, mais um exemplar da onda dos teen slashers, filmes que se resumem a um psicopata perseguindo um grupo de jovens incautos, filão na época em alta. Os mitos populares que dão título ao filme geralmente envolvem assassinatos ou desparecimentos mal esclarecidos ou bizarros e um serial killer estaria utilizando algumas dessas lendas para emboscar suas vítimas, contudo, hoje essa peculiaridade não agrega em nada à produção, afinal já estamos saturados de assassinatos clichês. De qualquer forma, o prólogo continua sendo um dos melhores do gênero, apesar de bastante esquemático a favor do vilão.
Michelle (Natasha Gregson Wagner) dirigia a noite por uma estrada deserta e em meio a uma tempestade precisa com urgência parar em um posto de gasolina para abastecer. Ela é atendida por Michael (Brad Dourif, estranhamente não creditado), um sujeito esquisitão, maltrapilho e gago que com suas expressões e forma de agir deixa no ar certa ambiguidade. Não convém dizer o que acontece para não estragar a surpresa de quem por ventura não tenha assistido ainda (alguém?), mas há uma boa inversão de expectativas na introdução que, embora até a metade da projeção pareça não ter uma ligação direta com o restante da trama, serve para ilustrar o que são as tais lendas urbanas. Depois somos apresentados ao grupo de desafortunados que passará a ser vítima de um maníaco que está agindo em um campus universitário, obviamente já deixando claro quem serão os heróis, a boa moça Natalie (Alicia Witt) e o jornalista amador Paul (Jared Leto). O lance é descobrir qual dos coadjuvantes será promovido nos minutos finais revelando-se ser o mascarado da vez, ou melhor, o encapuzado, já que ele se esconde sob a proteção de uma veste característica de inverno rigoroso.
Temos como possíveis vítimas do psicopata Brenda (Rebecca Gayheart), a melhor amiga da protagonista, a radialista sensual Sasha (Tara Reid) e seu namorado Parker (Michael Rosenbaun), o garanhão Damon (Joshua Jackson) e a revoltada Tosh (Danielle Harris) que não gosta de Natalie. Todos eles estudam na mesma universidade, mas só depois de encontrado alguns corpos é que os sobreviventes percebem que os casos recriam lendas urbanas, tema oportunamente abordado nas aulas do professor William Wexler vivido por Robert Englund, o eterno Freddy Krueger de A Hora do Pesadelo cujo boneco pode ser visto rapidamente em uma cena. E não são apenas os adolescentes que podem ser vítimas do maníaco. Temos também o reitor da faculdade Dean Adams (John Neville), a policial do campus Reese Wilson (Loretta Devine) e um estranho zelador (Julian Richings) que aparece sempre à espreita para adicionar aquela dúvida sobre seu caráter, mas o roteiro de Silvio Horta não o desenvolve e o joga do escanteio a certa altura. Também desperdiça o fato de que o Sr. Wexler é um dos sobreviventes de uma onda de assassinatos ocorridos no mesmo campus 25 anos antes. Ou será que não queriam ser tão óbvios e mudaram a tática de última hora? A trama possui inúmeras derrapadas, inclusive na introdução que, apesar de impactante, irrita por suas coincidências que fazem com que os planos do vilão não saiam dos trilhos. Aliás, geralmente a primeira morte exibida neste tipo de filme é sempre a mais bem elaborada para fisgar o espectador, mas neste caso não se pode dizer que faltou criatividade para as demais, ainda que pequem pela falta de veracidade.
Temos um rapaz que morre enforcado indiretamente pela própria paquera; uma garota morta na escuridão de seu quarto enquanto a colega de moradia acredita que ela estivesse tendo um encontro sexual; um envenenamento fatal ocorre por conta de uma mistura tóxica; uma execução é acompanhada ao vivo por ouvintes durante a transmissão de um programa de rádio; o telefonema ameaçador feito de dentro da casa da própria vítima, e por aí vai. São lendas que talvez façam mais sentido aos norte-americanos por fazerem parte da cultura deles, mas ainda assim o enredo prende a atenção. Na base do quem conta um conto aumenta um ponto, os casos misteriosos vão sendo pouco a pouco modelados até que tudo se encaixe perfeitamente ou, no mínimo, ganhe um verniz que sele à primeira vista as situações. Todas as mortes se encaixam ao roteiro, mas nenhuma delas foge do maniqueísmo, afinal os ataques do assassino precisam coincidir com o mito que escolhe para o suspiro final de cada vítima. Com direção de Jamie Blanks, que tentaria mais uma vez injetar gás ao subgênero com O Dia do Terror, a produção derrapa feio mesmo é em seu clímax. A identidade do assassino é revelada em uma sequência que mais parece uma apresentação escolar de quinta categoria, super didática, com direito a slides que ajudam a explicar tim-tim por tim-tim suas inacreditáveis razões para desejar vingança não só de seu principal alvo, obviamente Natalie, mas também daqueles com quem ela convive. Difícil não rir, seja pelo ridículo ato final ou por você se sentir um idiota, pois não dá para engolir a seco a revelação mirabolante que praticamente desconstrói tudo o que vimos até então. Para piorar o vilão parece indestrutível e com uma força descomunal visto a forma como executa seus crimes, embora apresentado como um ser humano comum.
Apesar dos furos e viagens da trama, o filme arrecadou no mundo todo quase seis vezes mais que seu mixuruca orçamento, no entanto, não abriu as portas para uma franquia de sucesso. Gerou mais uma continuação nos mesmos moldes e ainda um fajuto terceiro capítulo com toques sobrenaturais que só acentuou a fragilidade do argumento original. É sabido que o público alvo de produções do tipo quer ver violência, muito sangue e se possível vísceras espalhadas, mas uma história bem alinhavada é o mínimo que deveria ser oferecido para não insultar a inteligência do público. Apesar dos equívocos, assistir tantos anos depois torna-se interessante pela nostalgia impressa do início ao fim, um registro do que foi o horror teen dos anos 1990 e uma peça fundamental aos aficionados pela temática para compreender a linha do tempo percorrida pelo gênero. Lenda Urbana forma com Pânico, Pânico 2, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, e porque não incluir Halloween H20, um nostálgico grupo de produções que marcaram o ressurgimento dos filmes slashers, mas seguidos de muitas cópias baratas não tardou para o nicho saturar mais uma vez.
Terror - 100 min - 1998



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