quarta-feira, 21 de abril de 2021

BELAS E PERSEGUIDAS

 

Nota 2 Longa recicla fórmula da dupla antagônica, mas sem novidades, apenas repetindo clichês


São inúmeros os exemplos de filmes policiais com elencos liderados por homens destemidos ou duplas de perfis antagônicos que acabam aprendendo a lidar com as diferenças em prol de nobres objetivos. Tais convenções inevitavelmente seriam alvo de paródias e também mereciam suas versões femininas. Por que então não aliar as duas coisas? Miss Simpatia, por exemplo, colocou Sandra Bullock como uma agente da polícia um tanto masculinizada que rivalizava consigo mesma para não se deixar seduzir por cremes, vestidos e maquiagens enquanto em As Branquelas dois desastrados policias mergulham no universo dos frufrus para não só cumprirem  uma missão como também compreenderem que o sentimentalismo das mulheres tem suas razões. Podemos dizer que Belas e Perseguidas é uma mescla destes citados filmes. Reese Witherspoon encarna a policial que quer mostrar sua aptidão para o cargo, o que implica em evitar a todo custo saltos altos e decotes, enquanto Sofia Vergara a primeira vista pode passar a impressão de ser um homem travestido devido a sua altura avantajada e guarda-roupas extravagante, mas no fundo é apenas uma perua deslumbrada com o dinheiro fácil conseguido às custas de trambiques.

A oficial Rose Cooper (Witherspoon) desde criança acompanhou seu pai em resgates, perseguições e prisões, demonstrando apreço em trabalhar na polícia e, centrada demais no trabalho, acabou se acostumando a deixar a vaidade de lado. Ela é designada a escoltar uma mulher cujo testemunho pode incriminar um perigoso traficante, mas Daniella Riva (Vergara) é de um perfil completamente oposto ao de sua guarda-costas. Extremamente vaidosa, com um sotaque latino sedutor e um corpo sinuoso, ela aprendeu a usar a beleza e a sensualidade como armas para conseguir o que quer. Juntas elas precisam fazer uma longa viagem de carro até a cidade de Dallas e no trajeto aprendem a lidar com suas inúmeras diferenças para conseguirem escapar de bandidos e até mesmo de policiais corruptos. Contudo, o roteiro de David Feeney e John Quaintance traz reviravoltas fraquíssimas e forçosamente alinhavadas para colocar as protagonistas em situações de perigo ou confusões rapidamente solucionadas para que outros problemas cruzem os seus caminhos. É nessa caminhar em círculos que a trama se desenrola.


A ideia básica do roteiro é brincar com as convenções do gênero, assim sugerindo que as mulheres podem ser tão grosseiras, violentas e infantis quanto qualquer homem. Em paralelo, os aparentes machões podem ser tão sensíveis, inseguros ou delicados quanto alguém do chamado sexo frágil. Exagerando demais nos clichês, o longa ainda dá mais um passo atrás por várias cenas serem praticamente idênticas a de outros produtos do gênero, o que deixa tudo ainda mais previsível. Fuga pela janela do banheiro, policiais tentando passar despercebidos em uma festa de gala e até um personagem se metendo a dirigir um ônibus lotado sem um mínimo de experiência. A sensação de déjà vu é inevitável, mas curiosamente tudo soa ao mesmo tempo inacreditável, e não bom sentido. O espanto fica por conta do longa ter a assinatura de Anne Fletcher, da comédia infinitamente superior A Proposta. Em tempos de luta das mulheres contra preconceitos e direitos, soa estranho alguém do sexo feminino dirigir uma produção na qual a mensagem mais pungente parece ser de que uma legítima representante do chamado sexo frágil não pode sair de casa sem uma nécessaire com maquiagem e estar sempre depilada.

As protagonistas já demonstraram diversas vezes que tem intimidade com o campo do humor e possuem traquejo para diálogos rápidos e irônicos, mas o conteúdo oferecido por Belas e Perseguidas não faz jus aos seus talentos. Na interpretação de Witherspoon é possível perceber resquícios de suas verborrágicas personagens em Eleição e Legalmente Loira, por exemplo. Já Vergara se limita a reciclar o estereótipo da sensual mulher latina tal qual já interpretar em Amante a Domicílio. A loira exagera na conversa, sempre com justificativas e explicações na ponta da língua, ao passo que a morena gesticula em demasia para desviar a atenção já que não tem muito o que dizer além de dar dicas de moda e beleza. Para tentar criar algum vínculo entre as duas, a certa altura o roteiro propõe em vão que finjam ser lésbicas e assim protagonizam uma vexatória cena de beijo, não pelo ato em si, mas sim pela circunstância jocosa em que ele acontece.


Entre vários tropeços do roteiro ou literalmente das personagens em cena, uma ou outra piada funciona de maneira isolada, mas não dialogam com o contexto. A impressão é que os roteiristas idealizaram primeiro os momentos de humor e só depois deles roteirizados é que pensaram em como alinhava-los ao argumento policial proposto, incluindo inventar motivos para termos em cena alguns personagens masculinos, todos representando estereótipos tais como o policial que faz jogo duplo ou o traficante de origem mexicana. O mais irônico é a que a parte mais divertida é quando sobem os créditos finais, não só por enfim acabar esta insossa comédia, mas também porque neles estão contidos erros de gravação com os quais constatamos que ao menos as beldades do elenco conseguiram se divertir durante as filmagens.

Comédia - 87 min - 2015

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