quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A NOIVA CADÁVER

NOTA 9,0

Conto romântico conquista o
espectador com seu visual
simplório, porém, arrebatador,
e trama inteligente e irônica
Filmes sobre almas de outro mundo e cadáveres que saem de suas tumbas para voltar ao mundo dos vivos são coisas para adultos. Bem, para Tim Burton isso não é verdade e tais criaturas apavorantes podem tranquilamente habitar o imaginário infantil. Conhecido pela sua excentricidade e adoração ao gótico, o cineasta imprime seu estilo em uma animação de stop-motion (aquela que anima bonecos quadro a quadro) e chama a atenção não só dos pequenos, que encontram a mistura ideal de humor e suspense que tanto curtem, mas também do público mais velho que se depara com uma história inteligente tingida praticamente de tonalidades escuras e frias. Terror, suspense, comédia, drama, romance, fábula ou fantasia? A Noiva Cadáver é uma mistura perfeita de referências a todos esses gêneros e a opção pelo desenho animado para amarrar tudo isso casa bem com a ideia, ainda mais com a técnica de animação em desuso que dá todo um charme a mais à produção. A narrativa se passa em meados do século 19 e gira em torno do franzino Victor Van Dort, um rapaz atrapalhado e muito inseguro que deseja se casar com Victoria Everglot, uma jovem de famíia tradicional e que é tão tímida quanto o noivo. Na realidade, as famílias de ambos é que fazem mais questão desta união arranjada. As duas estão em decadência e enxergam a solução para seus problemas financeiros neste casamento, pois ambas desconhecem a real situação das finanças uma da outra.  Sem estes pensamentos egoístas, os jovens realmente acabam se apaixonando, mas Victor coloca tudo a perder quando ensaia seus votos de casamento em um local afastado da cidade. Muito azarado, ele acaba fazendo sua declaração próximo onde repousava o corpo de uma jovem que foi assassinada justamente no dia de seu casamento, assim não realizando seu grande sonho. Emily, conhecida como a tal Noiva Cadáver, então encasqueta que o rapaz deve cumprir seu juramento de amor eterno e se unir a ela. Relutante inicialmente, ele acaba conhecendo um mundo divertido junto aos mortos e surge a dúvida se ele deve abdicar de sua vida sem graça e aderir a um descanso eterno e feliz ou voltar e cumprir o desejo da família, o que pode significar sua infelicidade e mais uma decepção para a noivinha pálida e gelada. Aliás, a defunta é uma super criação. Ao mesmo tempo em que é bizarra com seu corpo semi-decomposto, ela também é adorável e passa ares de melancolia e ingenuidade irresistíveis através de seus grandes olhos adornados por uma maquiagem chamativa. É curioso que sempre que está em cena ela é envolta por uma espécie de aura, um efeito de iluminação obtido com trucagens caseiras com a intenção de retratar a personagem como uma espécie de diva. Outra curiosidade sobre Emily é que uma minhoca vive literalmente em sua cabeça, uma espécie de consciência como se fosse o Grilo Falante de Pinóquio, embora bem menos inteligente e astuta.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

EM PÉ DE GUERRA

NOTA 4,0

Sustentada por piadas previsíveis
e por vezes de gosto duvidoso,
comédia não sai do lugar comum
e  reforça estereótipos
Quem se liga em detalhes das produções de filmes e adora bisbilhotar as fichas técnicas certamente deve desacreditar que o mesmo responsável pelo sensível e inteligente A Garota Ideal também está por trás da esculachada comédia Em Pé de Guerra. Trabalho de estreia do diretor Craig Gillespie, a trama tem como temática central a rivalidade. John Farley (Sean William Scott) é um bem sucedido escritor de livros de auto-ajuda, mas demorou muitos anos para superar seus próprios traumas de infância devido aos abusos e humilhações que sofreu de Jasper Woodcok (Billy Bob Thornton), seu professor de educação física que adorava tirar um sarro de seus desengonçado e rechonchudo aluno. Seus piores pesadelos voltam à tona quando decide voltar à sua cidade-natal para receber um prêmio, uma homenagem de seus conterrâneos pela figura ilustre que se tornou. Todavia, seu momento de glória é estragado ao descobrir que Beverly (Susan Sarandon), sua mãe, está com um namorado novo, ninguém menos que o protagonista de seus pesadelos. Na hora do desespero, o rapaz deixa de lado seus conselhos e filosofias para viver em paz e parte para o ataque tentando provar que seu futuro padrasto é um tremendo mau-caráter, porém, seu rival não vai deixar de comprar essa briga e também vai tocar o terror contra seu adversário. Mais que salvar sua mãe de um cafajeste, Farley tem a necessidade de provar ao antigo professor que é "o cara", bom em tudo que se propõe a fazer. Todavia, o Sr. Woodcok também curte bancar marra e vai testar os limites do escritor, tanto emocionais quanto físicos. Nessa gangorra para medir forças, o correto seria um personagem com o qual nos simpatizamos de um lado e do outro alguém para odiarmos. Eis o grande problema do longa: ambos são insuportáveis em semelhantes proporções, o que dificulta a identificação com o público que não tem mais a fazer que torcer que ao final os dois percam a pose e entendam que ninguém é melhor do que ninguém. Todavia, esperar tal reflexão de uma comédia repleta de piadas de gosto duvidoso é querer demais.

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