domingo, 13 de outubro de 2019

O PENTELHO

Nota 7,5 Mostrando uma faceta sombria de Jim Carrey, comédia ainda mostra-se atual e crítica

Impressionante a capacidade das sociedades em aprender o que é errado e mais surpreendente ainda como os erros são perpetuados. Apesar dos vários alertas visando a segurança e também o valor do bom senso, infelizmente o hábito de pagar um dinheirinho a mais para o sujeito que instala os aparelhos de TV à cabo para ter todos os canais disponíveis desembolsando o mínimo possível enraizou-se na cultura mundial, mas em meados da década de 1990 ainda era um mal costume apenas dos norte-americanos. Antes o serviço sujo era feito às escondidas, mas há alguns anos já foi incorporado pelos funcionários ao expediente de trabalho, algo encarado com um bico para complementar o salário. Essa busca incessante por levar vantagens com tal atitude inspiraram o ator Ben Stiller a realizar O Pentelho, seu segundo trabalho como diretor e que ficou famoso por ser o primeiro trabalho do ator Jim Carrey após ter seu cachê turbinado devido ao sucesso de O Máskara e de pelo menos outras quatro produções que estrelou em seguida. Contudo, o valor recebido nem de longe condiz com o pífio desempenho desta fita de humor negro, porém, com um pouco mais de conteúdo que os demais trabalhos do astro até então. Ele dá vida à Chip Douglas, um técnico de TV que ganha uma graninha extra de Steven (Matthew Broderick) para que desbloqueie alguns canais a mais para sua assinatura, uma forma ilusória de ocupar seu tempo e não pensar na namorada Robin (Leslie Mann) com quem acabara de romper. O instalador, um rapaz desequilibrado e que sofre de carência crônica, está desesperado para conquistar ao menos um amigo e vê na proposta a oportunidade ideal. Se o cliente lhe confiou um serviço escuso isso indicaria que havia se estabelecido uma relação de confiança entre eles, assim Douglas começa a persegui-lo e tenta de todas as formas participar ativamente de sua rotina, provocando uma série de transtornos para Steven tanto em sua vida pessoal quanto profissional. Conquistar essa amizade torna-se uma questão de honra para o pobre instalador. Ou será que de coitadinho ele não tem nada?

O argumento e a primeira versão do roteiro são creditados à Lou Holtz Jr. que teve a ideia quando viu um instalador de TV no corredor do apartamento de sua mãe altas horas da noite. O tal "cable guy", que intitula originalmente o longa, seria um sujeito simpático, porém frustrado, mas sua invasão à vida alheia não se configuraria de uma maneira fisicamente ameaçadora. Quando Judd Apatow assumiu o texto decidiu pegar mais pesado nas palhaçadas e na parte obscura da situação. Apesar dos problemas emocionais, Douglas é muito inteligente e faz uso da tecnologia para invadir de todas as formas possíveis a vida de seu cliente. Sinônimo de comédias anárquicas nos anos 2000, o roteirista na época era um ilustre desconhecido e sua participação foi creditada apenas como produtor por questões burocráticas, contudo, seu estilo de escrita já deixava suas marcas. No final, prevaleceu a ideia de fazer uma comedia que satirizasse os suspenses com psicopatas como Atração Fatal, A Mão Que Balança o Berço, Cabo do Medo entre outros. Tantas referências pesadas reunidas causaram certo impacto negativo, ainda mais porque esperavam o humor convencional de Carrey. Ele ainda mostrava-se um careteiro de primeira, mas sua faceta perversa não agradou muito na época. O Pentelho não rendeu o dinheiro esperado, o que nos poupou de uma continuação, mas hoje o longa até tem seu valor, talvez até uma aura cult devido as críticas que expõe. Com o avanço do tempo, agora são muito mais claras as provocações quanto a submissão que a televisão induz, os efeitos da solidão e a respeito da banalização da sexualidade, o que revela que a rejeição ao filme tem uma simples justificativa: a produção estava a frente do seu tempo. Não há nada de errado com a narrativa mais densa ou a opção de Carrey explorar outros recursos interpretativos. O filme acerta seus objetivos, apenas foi lançado na época errada, mas nunca é tarde para apreciar uma obra com conteúdo, mesmo que ele esteja diluído em meio a algazarra orquestrada por Stiller que mostra-se inteligente ao não imprimir em sua direção a mesma linha sistemática que norteia os filmes em que atua.

Comédia - 96 min - 1996
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