sábado, 17 de agosto de 2019

AS VOZES

Nota 7,5 Produção bizarra cativa com protagonista problemático dividido entre ser mocinho e vilão

Um trash movie, ao pé da letra, é aquele que deseja ser levado a sério, mas involuntariamente acaba se tornando melhor que uma comédia assumida. Isso se deve a cenas mal dirigidas, interpretações vexatórias e quando há necessidade de uso de efeitos especiais e maquiagem pesada, mas pouco orçamento, aí é que o caldo entorna de vez. Por conta desse percalços, muitas fitas de terror são rotuladas como filmes B, mas não que isso seja um problemão, que o diga o diretor Sam Raimi que até hoje colhe elogios com seu tosco longa de estreia The Evil Dead - A Morte do Demônio. Também é muito comum o termo terrir, aí sim a mescla proposital de terror e comédia, dois gêneros antagônicos já misturados em diversas oportunidades, mas raramente com resultados satisfatórios. Geralmente são produções muito bem equiparadas, mas que fazem questão de parecerem toscas. Esse é o caso de As Vozes, à primeira vista ridículo, mas que após o baque inicial do festival de absurdos torna-se uma obra relativamente bem estruturada. O início alto astral, com direito a trilha sonora dançante, pode indicar uma inofensiva comédia romântica, mas as aparências enganam. A trama nos apresenta à Jerry (Ryan Reynolds), aparentemente um pacato operário de uma fábrica de banheiras, mas que vive em constante acompanhamento pela Dr. Warren (Jacki Weaver), sua psiquiatra, por conta de traumas da infância manifestados por seu dom (ou maldição?) em ouvir vozes de animais. Recém saído de uma clínica, ele acaba ficando obcecado por Fiona (Gemma Arterton), uma colega de trabalho que não demonstra real interesse em ter um caso, mas quando finalmente aceita uma carona acaba sendo morta brutalmente pelo rapaz. Isso mesmo! Por um mal entendido, ela acabou faltando a um encontro e o sentimento de rejeição perturbou ainda mais o cara que já não estava tomando seus remédios de forma controlada. Influenciado por conselhos que parecem vir do além, Jerry deixa seus instintos assassinos aflorarem ao atropelar um alce na estrada e assusta a moça que tenta fugir, mas acaba sendo capturada e ele sem querer lhe dá o mesmo destino que o animal.

Para não ser incriminado, Jerry resolve levar o corpo para seu apartamento e parti-lo em diversas partes que acondiciona em potes plásticos, mas mantém a cabeça dentro da geladeira, afinal mesmo sem o corpo ela está mais tagarela do que nunca e não perde a chance de perturbar seu assassino. Está bom ou quer mais? Tentando levar sua vida normalmente, não demora muito e o rapaz se envolve com outra colega de trabalho, a meiga Lisa (Anna Kendrick), esta que realmente demonstra estar apaixonada. Contudo, ele tenta ao máximo preservar seu segredo da garota, mas fica difícil esconder seu medo de repetir seu erro. No meio desse turbilhão de sentimentos, o rapaz ainda dá ouvidos a seu adorável cachorro Bosco e ao malvado gato Mr. Whisker, seus animais de estimação que respectivamente assumem os papéis de anjinho e diabinho confundindo-o ainda mais com seus contraditórios conselhos. A diretora Marjane Satrapi, da premiada animação Persépolis, leva o espectador a uma viagem bizarra junto a seu protagonista cheio de questionamentos psicológicos e equilibra o lado cômico e o trágico proposto pelo roteiro de Michael R.Perry. As situações, apesar de surreais, encaixam-se perfeitamente no contexto sem insultar a inteligência do espectador, sendo a forma como a doença mental de Jerry é retratada um dos pontos altos. Ao mesmo tempo que nos divertimos com suas perturbações e enrascadas, em paralelo não nos esquecemos que para quem convive com o problema diariamente as situações não são nem um pouco engraçadas. Essa humanidade que o personagem transmite é graças ao ótimo trabalho de Reynolds num papel que requer muitas nuances de interpretação. Vai e volta do cômico ao drama com muita facilidade e ainda transita por terrenos obscuros. Embora o clímax deixe a desejar, no conjunto As Vozes revela- se uma grata surpresa que cativa com seu espírito nonsense que não raramente confunde o público que não consegue distinguir o que é realidade e o que constitui fantasia da mente problemática do protagonista.

Comédia - 109 min - 2015
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