sexta-feira, 14 de setembro de 2018

GRACE DE MÔNACO

NOTA 6,0

Focado na vida da lendária atriz
Grace Kelly a partir do momento em
que se tornou princesa, longa frustra
com texto que não faz jus a sua trajetória
Um conto de fadas baseado em uma história real. Não há melhor definição para a biografia de Grace Kelly, uma das mais populares estrelas de Hollywood da década de 1950, vencedora de um prêmio Oscar, endeusada por seus fãs e que colocou um ponto final em sua carreira em pleno auge. Ela encerrou sua história com o cinema, mas começou a escrever uma outra em meio a realeza. Em 1956 ela veio a se casar com o príncipe Rainier III de Mônaco, um país muito pequeno em termos geográficos, mas de enorme status quando o assunto são luxo e riqueza. De fato então ela viria a receber o título de princesa, alcunha que já carregava anteriormente devido a sua graça e beleza. Isso sem falar na fama que conquistou por ser uma das musas do mestre Alfred Hitchcock, estrelando obras lendárias como Disque M Para Matar e Janela Indiscreta, embora tenha tido seu trabalho reconhecido pela Academia de Cinema por Amar é Sofrer do diretor George Seaton. Seu último filme foi O Cisne lançado apenas cinco anos após o início de sua breve, porém, meteórica carreira. Contudo, ela saiu de cena parcialmente. Entrando para uma família real, eventos sociais eram constantes em sua agenda, assim como o assédio da imprensa que a pressionava a voltar aos sets de filmagem, mas agora como princesa Kelly se via atrelada as convenções da nobreza e devia respeito e obediência ao marido. Dona de uma trajetória literalmente cinematográfica, era evidente que mais cedo ou mais tarde sua história seria enredo de filme, mas Grace de Mônaco não faz jus a grandiosidade e importância dessa mulher. O diretor Olivier Dahan, que já havia dirigido a cinebiografia Piaf - Um Hino ao Amor, opta por acompanhar a vida da ex-atriz a partir do momento que assume sua posição como esposa do herdeiro de um trono. Se no filme a respeito de Edith Piaf, um mito da música francesa, o diretor arrancou uma interpretação arrebatadora de Marion Cottilard, merecidamente agraciada com o Oscar, aqui ele conta com a beleza de Nicole Kidman interpretando a princesa de Mônaco, mas não com seu talento. Embora Kelly fosse conhecida por certa frieza em seu comportamento, a atriz exagera quanto a essa característica e está apenas eficiente no papel.

Um dos maiores pecados da produção é amenizar os principais conflitos de Kelly diante da realidade do casamento. Após os festejos dignos de um desenho clássico da Disney, ela viu-se isolada em um país que desconhecia, perdeu o contato com seus amigos, não tinha mais seu trabalho para lhe satisfazer e ainda vivia uma relação de incômodo distanciamento com Rainier (Tim Roth), lhe sobrando apenas o contato com os filhos e o trabalho comunitário para ocupar seu tempo. Contudo, a tentação vai até a sua casa, mesmo que tardiamente e apenas como uma licença poético do enredo. Hitchcock (Roger Ashton-Griffits), muitos anos após o casamento, procura a princesa lhe oferecendo um roteiro que lhe deixa balançada, não pelo dinheiro, mas pela oportunidade de poder voltar a fazer o que lhe dava mais prazer. Ela chegou a aceitar protagonizar Marnie - Confissões de Uma Ladra, mas desistiu e o papel foi entregue a Tippi Hedren. Seu retorno à Hollywood era questionado pelo povo de Mônaco devido ao momento político delicado, já que a França pressionava o país em mais uma tentativa de agregá-lo ao seu território, e os rivais de seu marido a usavam como arma para questionar sua autoridade. Se não tinha voz ativa para proibir a mulher de se expor, que poder teria Rainier para tomar conta de uma nação? Charles de Gaule (André Penvern), presidente da França, então poderia assumir perfeitamente o papel de vilão na trama, porém, para Kelly seus principais inimigos eram o tédio e a futilidade que a obrigavam a viver quase que dentro de uma redoma de vidro. É interessante observar que nos momentos de maior tensão, Dahan fecha sua câmera no rosto da protagonista como forma de reforçar o confinamento psicológico que vivenciava. Todavia, ao tentar humanizar o mito, o roteiro acaba derrapando e exaltando ainda mais a sua imagem de bonequinha de luxo, um adorno para Reinier apresentar em eventos sociais e manter a imagem sólida e respeitável da família real. Contudo,  o casal vivenciou situações muito mais complexas e tristes. O desenvolvimento do enredo tem características bastante novelescas, com ênfase nas passagens dramáticas. Percebe-se que o roteirista Arash Amel estava empenhado em se aprofundar no conturbado relacionamento de Kelly e Rainier, no entanto, o casal nunca nos convence, ainda que o da vida real também fosse um tanto estranho. Seus intérpretes são excelentes e reconhecidos profissionais, mas aqui parecem atuar sem se apaixonarem por seus personagens e, pior ainda, não exalam química alguma. Se existia algum abismo entre o príncipe e sua esposa, o filme amplia tal sensação.

Como as atenções recaem sobre a princesa, Kidman acaba sendo prejudicada por um roteiro frouxo que não sabe qual seu verdadeiro propósito, mas sua escolha para o papel não foi aleatória. A atriz é um ícone da realeza de Hollywood tal qual Kelly foi em sua época. A ex-musa de Hitchcock, como apresentada no filme, parece ter se casado a contragosto, passou anos imersa na infelicidade e sua insistência em se engajar a trabalhos voluntários eram como válvulas de escape, mas que a deixavam em evidência, justamente o que o seu marido não queria. Isso até que a loira repentinamente se conformou e resolveu assumir de uma vez por todas seu papel na realeza: o da esposa de um príncipe, e só. Sua morte precoce, aos 52 anos, em 14 de setembro de 1982 em um acidente automobilístico não é citada no longa que teve (pelo menos) três versões. A primeira foi escolhida para abrir o Festival de Cannes em 2014, cujo convite para comparecer à premiere foi rechaçado pelos filhos da homenageada. Recebido friamente pelo seleto público, foi decidido que a fita seria reeditada para o lançamento oficial e ainda houve outra versão para exibição por um canal fechado de TV. Estreando com bastante atraso no Brasil, é difícil saber qual das versões chegou aos nossos cinemas sem fazer barulho, uma trajetória que não condiz com a história de Kelly. Com cenários e figurinos requintados, Grace de Mônaco preza mais pela estética que pelo conteúdo que, diga-se de passagem, lança mão de algumas invenções para deixar o roteiro mais dramático, como as intervenções de Gaulle na política de Mônaco que eram feitas a distância e aqui mostradas com extrema proximidade, ou para fisgar o público pela curiosidade, como as pontuais aparições de Hitchcock e menções a filmes da época. Kelly, como qualquer ser humano, tinha muitas nuances de comportamento, mas Dahan prefere investir em seus sacrifícios e em sua insatisfação, não tanto por amor a uma nação, mas sim para não perder o contato com seus filhos, suas únicas alegrias. Se optasse pela separação ela perderia o direito de voltar ao país e consequentemente os vê-los. E assim ficamos com um retratado apático e melancólico de uma mulher que na verdade tinha brilho e magnetismo próprio, seja na frente ou longe das câmeras.

Drama - 103 min - 2014
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