quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

DUAS DE MIM

NOTA 3,0

Com características claramente
televisivas, comédia perde bom
argumento apostando em piadas
manjadas e elenco engessado
Fale bem ou fale mal, mas falem de mim. Tal frase parece guiar os caminhos das comédias brasileiras. Gênero tradicional de nosso cinema há alguns anos e porque não dizer o que o ajuda a sustentar nossa indústria, solidificou-se um estilo muito próximo ao do humor feito para a televisão. É como se o público estivesse acostumado a ir na sala escura para assistir o que pode ter de graça em casa. Não a toa muitos comediantes da telinha (bem com os super televisores de hoje em dia o termo é até obsoleto) foram catapultados a estrelas cinematográficas como Leandro Hassum, Ingrid Guimarães, Fábio Porchat, entre tantos outros. Em geral seus currículos agregam expressivos títulos, ao menos em temos de bilheterias, mas mesmo quando fracassam seus filmes continuam ecoando na memória do público graças a massivas campanhas de marketing que acompanham seus lançamentos, assim garantindo sobrevida aos mesmos em serviços de streaming e reprises na TV. Primeiro projeto como protagonista da comediante Thalita Carauta, que ficou conhecida pelo humorístico "Zorra Total", a comédia Duas de Mim poderia se encaixar neste pacote, mas infelizmente o acúmulo de equívocos depõem contra sua carreira. A atriz dá vida a Suryellen, uma moradora do subúrbio carioca que tem uma difícil rotina diariamente madrugando para preparar as marmitas que vende de porta em porta na parte da manhã antes de pegar no batente em seu emprego oficial. Ela lava pratos em um renomado restaurante, mas sonha com a oportunidade de ser a chef de cozinha do mesmo sem receber o mínimo de atenção da dona do estabelecimento, a antipática Valentina (Alessandra Maestrini). Em casa a pobre coitada ainda corta um dobrado para cuidar do filho pré-adolescente Maxsuel (Gabriel Lima), da mãe reclamona Sonja (Maria Gladys) e da irmã mais nova Sarelly (Letícia Lima) que só pensa em curtir a vida. Dia após dia a batalhadora mulher vive esse martírio, mas cansada de tanto trabalho e pouco retorno, tanto financeiro quanto de gratidão, certa vez inocentemente faz o pedido de ter outra de si mesma para dividir as tantas tarefas que acumula. Ela faz o pedido na frente de uma misteriosa, porém, simpática vendedora de doces (Stella Miranda) enquanto prova um de seus bolos. Logo na primeira mordida seu sonho se realiza  e surge uma cópia sua idêntica fisicamente, mas completamente diferente em termos de comportamento.

A outra Suryellen é extrovertida, espalhafatosa e cheia de malícia, características que a original só irá perceber ao longo do convívio quando os problemas começam a surgir, tanto na vida da personagem quanto no filme como um todo. Se os primeiros minutos parecem promissores sintetizando de forma eficaz o duro cotidiano da protagonista, o que vem a seguir é uma sucessão de clichês e piadas sem graça em sua maioria. O contraponto entre as personalidades da Suryellen original e de seu clone poderia oferecer um leque de possibilidades, mas o roteiro de Carolina Castro e L. G. Bayão é de uma conveniência irritante e dotado de um humor ingênuo e descartável. Assim como acontece em Um Suburbano Sortudo, esta comédia assume como fio condutor a ideia de que os humilhados e pobres merecem serem exaltados e os ricos e metidos a besta deverão ser achincalhados assumindo automaticamente os papeis de vilões e mal humorados. Por este viés, Maestrini surge como a bruxa má da história que só notará a existência de sua funcionária quando ambas ficam cara a cara disputando um reality show de culinária. Detalhe, a protagonista sabe-se lá como conseguiu ingressar no concurso sem ter em seu currículo nenhum curso ou experiência em algum renomado restaurante. Aliás, o programa inserido no filme é oportunista e claramente inspirado no modelo do "Masterchef" e a escolha das participações de profissionais famosos no ramo gastronômico e televisivo só ajuda a deixar o longa datado, no máximo uma curiosidade sem graça em um futuro próximo. Outro problema que compromete a narrativa é o fato de que só tardiamente alguém perceberá a existência de duas mulheres idênticas, porém, de personalidades de contrastes gritantes. Revezando-se entre os afazeres domésticos, vendas de quentinhas, trabalho no restaurante e o tal programa de TV, Carauta se esforça para construir momentos divertidos para Suryellen e sua cópia, mas parece engessada, com humor demasiadamente marcado, fruto de uma direção extremamente burocrática.

Cininha de Paula, veterana diretora de humorísticos de TV destacando-se a antiga "Escolinha do Professor Raimundo" e sua reedição, faz sua estreia no cinema tardiamente, mas sem ousadias. Apenas repete o que já estava acostumada a fazer, só que no caso com um pouco mais de tempo de arte disponível. Dos diálogos metodicamente decorados, passando pela ambientação clichê até chegar em uma edição ligeira que abre verdadeiras crateras no roteiro, o resultado final é um filme que parece mais um especial da Globo de fim de ano como teste para uma sitcom. Se fosse realmente o caso, Duas de Mim certamente seria um projeto engavetado, avaliado como raso e sem identidade. Mesmo flertando com o universo fantástico, as situações apresentadas são duras de engolir, principalmente pelo tom farsesco das interpretações. Se Carauta faz o que pode para não sair totalmente queimada da história, improvisando o quanto pode procurando manter sua essência, o restante do elenco surge praticamente como figuração. Maestrini só faz caras e bocas, Gladys se repete com histrionismos já conhecidos de seus personagens de novelas e a jovem Lima é colocada em cena aparentemente para reforçar estereótipos alusivos aos habitantes das periferias. Contudo, o mais constrangedor é ver Márcio Garcia como o bicheiro Maxwilliam, ex-companheiro de Suryellen que para denotar a ignorância de tal perfil usa como artifício o fato de falar errado e o coloca na direção de um possante de dar inveja para lhe dar certo status imaginário. Diante de tantos problemas, um dos poucos e espantosos acertos da produção é a escalação do cantor Latino para viver Chicão, cuja paixão platônica pela protagonista só será correspondida quando a Suryellen clone literalmente se jogar em cima do pobre coitado. Faxineiro do restaurante de Valentina, o rapaz ganha um extra fazendo shows como cover do artista tamanha sua semelhança e o contraste entre a humildade de um homem comum e o poder de atração de uma personalidade, mesmo sendo fake, trazem o principal tempero para um longa praticamente insosso. Vejam só como são as coisas. Nesse caldeirão de equívocos, o que poderia a primeira vista azedar a receita é o que no final acaba a salvando, mesmo que apenas em uma pequena quantidade.

Comédia - 83 min - 2017
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