quinta-feira, 12 de outubro de 2017

CINDERELA (2015)

NOTA 8,0

Visualmente e artisticamente
perfeito, sem exageros de efeitos
especiais, adaptação de clássico só
perde pontos por não inovar no enredo
A maioria dos contos de fadas são histórias clássicas criadas no período da Idade Média e o tal felizes para sempre não constam nos originais. Há registros de que na verdade histórias como da Branca de Neve acabam de formas bastante trágicas, porém, as gerações formadas a partir do início do século 20 se acostumaram a comprar as versões dos estúdios Disney como as verídicas e assim um vasto leque de produtos culturais e de bens de consumo derivados dessas animações fizeram a roda do dinheiro girar e muito. Peças de teatro, quadrinhos, livrinhos de colorir, adaptações para a TV, brinquedos, bonecos, materiais escolares, roupas e até produtos alimentícios e de higiene tratam ainda de levar adiante as versões adocicadas da casa do  Mickey Mouse para os contos, além das próprias animações replicadas em mídias físicas, televisão e serviços de streaming. Aproveitando-se de todo esse portfólio, muitas produtoras de cinema se arriscam a fazer suas versões destas histórias ou até mesmo reimaginá-las carregando no humor, tensão ou divagando sobre o que teria acontecido aos personagens caso tivessem tomados decisões diferentes em suas vidas. De olho nessa movimentação dos concorrentes, a Disney não ficou parada e também tentou fazer adaptações diferentes de alguns de seus desenhos consagrados como Alice no País das Maravilhas, acentuando o clima psicodélico já intrínseco no conto original, e Malévola, recontando a história da Bela Adormecida pela ótica da vilã. Ambas adaptações com atores em carne e osso e carregada de efeitos especiais, o público correspondeu as expectativas com polpudas bilheterias, mas visualmente os exageros incomodaram se assemelhando mais a produções adaptadas de quadrinhos de heróis ou videogames que propriamente às famosa obras animadas com traços delicados e cores aquareladas. Com a versão live-action de Cinderela parece que o estúdio finalmente encontrou a fórmula mágica do sucesso: simplesmente recontar a mesma história da versão em desenho animado. Na contramão das histórias de princesas mais recentes do estúdio, como A Princesa e o Sapo e Frozen - Uma Aventura Congelante, nas quais as mocinhas não são mais tão indefesas e o sonho de conseguirem um amor para toda a vida ficou em segundo plano, o roteirista Chris Weitz preferiu não inovar e criou uma protagonista tão bela, gentil e recatada quanto a do desenho que em 1950 salvou a Disney da falência.

Ella (Lily James) é a filha de um caixeiro viajante (Ben Chaplin) que após muitos da morte da esposa que tanto amava decide se casar com a também viúva Lady Tremaine (Cate Blanchett) na esperança de juntos compartilharem algum conforto e felicidade agora que estão envelhecendo. Trazendo a tiracolo suas filhas Drisella (Sophie McShera) e Anastasia (Holliday Grainger), no início a união destas famílias poderia não exalar total harmonia, mas havia certa dose de respeito e cordialidade, contudo, quando o patriarca vem a falecer em uma de suas viagens a situação muda completamente. Acostumada a realizar muitas e até difíceis tarefas domésticas para agradar a madrasta e as meias-irmãs, Ella passa em definitivo a ser tratada como uma empregada e a sofrer diversas humilhações, mas justificam seu calvário como uma forma da garota ocupar seu tempo e não ficar pensando nos pais. Guardando com carinho as últimas palavras da mãe, "tenha coragem e seja gentil, Cinderela, como passou a ser chamada, suporta todos os maus tratos sem reclamações. Certo dia, por um acaso, a sorte lhe sorri e na floresta ela vem a conhecer o príncipe Kit (Richard Madden) que farto de ser bajulado por pessoas a fim de algum benefício fica encantado com a inocência da jovem que não faz a menor ideia de quem ele seja, assim aproveita e se apresenta apenas como um cavaleiro da corte. Contudo, uma festa já está sendo preparada para o rapaz conhecer alguma donzela que julgue perfeita para ser sua esposa, a oportunidade perfeita para reencontrar Cinderela, afinal o primeiro encontro acabou com diversos mal-entendidos e ele não sabe nem mesmo onde ela vive. Todas as mulheres do reino foram convidadas, mas Tremaine proíbe que a enteada vá ciente dos atributos da garota, o que certamente atrapalharia seus planos de que uma de suas filhas legítimas venha a se tornar rainha. E eis que na noite do baile Cinderela recebe a visita de sua amável Fada-Madrinha (Helena Bonham Carter) que transforma animais em chofer, uma abobora em uma imponente carruagem, os trapos da menina em um luxuoso vestido e a presenteia com sapatinhos de cristal, porém, toda essa magia acabaria a meia-noite. E não é surpresa para ninguém que ela e o príncipe se reencontrarão, ao soar do relógio na fuga perderá um dos calçados e que o rapaz passará a procurá-la de casa em casa até achar a moça que conseguirá calçá-lo e então desposá-la. Fora uma presença maior e sem constrangimentos do príncipe no enredo, algo certamente inspirado no lançamento de 1998 Para Sempre Cinderela (que já apresentava uma borralheira mais realista, o que deve ter feito o estúdio não pensar em reinventar a personagem ou seu universo), a história é a mesma do desenho Disney e dos livros mais tradicionais. Weitz apenas faz alguns ajustes para torná-la mais humana e crível, mas sem perder o encanto e a delicadeza. Os animaizinhos amiguinhos da protagonista não foram dispensados, porém, não falam, apenas são uma companhia natural ao cotidiano da borralheira, mas com certa dose de sentimentalismo. Os efeitos especiais felizmente são ousados com parcimônia, acionados no clímax do conto. A transformação do vestido e da carroça encantam com uma explosão de magia aguardada com ansiedade, da mesma forma que seu retorno às formas originais. Muito bom ver que ainda há quem consiga realizar um filme voltado às crianças, mas de fato contando uma história e não sendo refém da computação gráfica que em produções do tipo tentam a todo custo suplantar a narrativa.

Kenneth Branagh, ator e diretor, está no comando de tudo e a ambientação clássica, romântica e porque não dizer até um pouco dramática o inspira visto que é um amante de adaptações de obras shakespearianas ou afins, como Henrique V, Muito Barulho Por Nada e Frankenstein de Mary Shelley. Ao assumir a transposição da animação para o live-action da versão mais famosa do conto da borralheira datado do século 17, o cineasta foi muito feliz oferecendo uma obra carismática na medida certa ao imaginário infantil e ao mesmo tempo com um bom nível de maturidade para envolver os adultos. O elenco também está em estado de graça. Nada de insultar a inteligência do público com gracinhas a cada dois minutos. As atuações redimensionam os perfis pré-estabelecidos pela animação cinquentista. A delicadeza da imagem da bela James equilibra bem inocência e coragem para suportar as agruras que a órfã passa. Por nossa própria conta, intencionalmente criamos a expectativa de que a personagem possa surpreender em algum  momento com algum quê de novidade, mas a proposta não era essa mesmo. É no antagonismo entre Cinderela e Tremaine que o longa se sustenta. A submissão da jovem está no mesmo nível de crueldade exalado pela vilã defendida com maestria pela sempre ótima Blanchett cuja primeira aparição é cercada de mistério. Um enorme e luxuoso chapéu esconde o rosto da madrasta até que entre pela primeira vez na casa do novo marido, revelando suas feições de decepção ao perceber que seu padrão de vida será rebaixado consideravelmente. Altiva, culta e elegante, com o passar dos anos cada vez mais perdeu dinheiro, o que a fez dispensar todos os empregados e encarregar a enteada de suas tarefas, o ressentimento dela também se justifica pela frustração de suas filhas não terem herdado seu jeito de ser. Arrogantes elas são, mas as irmãs que já são dotadas de humor involuntário por conta de seus exageros naturais ganham ainda mais comicidade com seus figurinos extravagantes e multicoloridos. Aliás, a beleza e detalhes das roupas eclipsam os olhos, tal qual o cuidado com a cenografia. Na cena do baile, por exemplo, a imponência suave do vestido azul de Cinderela reitera sua bondade frente as vestes preta e dourada da madrasta que destaca seus olhares fulminantes de inveja. Aliás, a vestimenta faz toda a diferença para Carter construir uma fadinha que pouco nos lembra a imagem da idosa e boa feiticeira do desenho. Além do humor acentuado por gestos e expressões aloprados, é ela quem assume a função de narradora do conto. Mantendo o lado lúdico intacto, a versão Disney em live-action de Cinderela ao mesmo tempo que homenageia a animação procura resgatar um romantismo e inocência que cada vez mais perde espaço no universo infantil e até mesmo dos adultos. Podem criticar, mas a versão açucarada do conto ganhou sobrevida para se garantir com as novas gerações.

Romance - 105 min - 2015

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