quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A CASA DAS COELHINHAS

NOTA 3,0

Apesar do argumento principal
explorar a valorização da imagem,
comédia dispensa aprofundamentos e
pega leve até mesmo com piadas picantes
Não é só no Brasil que a revista Playboy já não goza mais do prestígio de outrora. Com a popularidade da internet, a publicação deixou de ter o gostinho de proibido que aguçava adolescentes e que garantia milhões de dólares mensalmente na conta bancária de seu criador Hugh Hefner. Todavia, ainda há muitas garotas que sonham em se tornar coelhinhas, nome carinhoso dado as ninfetas que estampam as edições, e a famosa mansão de mesma alcunha continua enraizada no imaginário masculino. Nela vivem lindas jovens com corpos esculturais e que passam dia após dia se divertindo em festas a beira piscina e com pouquíssima roupa. Bem, na verdade essa imagem da Mansão Playboy é mais uma especulação, mas não deve ser muito diferente do que vemos na comédia A Casa das Coelhinhas, que não só homenageia ao mesmo tempo que debocha do status ilusório que este universo paralelo adquiriu, como também retrata uma problemática intrínseca à cultura jovem dos EUA. Se você não é popular você não existe. Será mesmo? Shelley Darlingson (Anna Faris) é uma das dondocas que habita o casarão, mas ao atingir 27 anos, o que em sua "carreira" é como se já beirasse a terceira idade, ela acaba sendo expulsa. Na verdade ela é vítima de uma de suas coleguinhas invejosas que arma uma cilada que a faz crer estar sendo dispensada, isso sem ter tido a honra de ser fotografada para algum ensaio. Como nunca trabalhou ou estudou, simplesmente viveu de pernas para o ar e fazendo caras e bocas, a moça se vê sem rumo e vai bater na porta de uma irmandade onde apenas patricinhas populares e ricas vivem, mas para sua surpresa é logo de cara dispensada. Transtornada, literalmente ela cai na frente da Zeta Alpha Zeta, o lar que abriga as estudantes desajustadas, problemáticas e nerds. O local está sob ameaça de ser fechado pela universidade por falta de interesse de novas moradoras em dividir o espaço e então Shelley encontra a maneira perfeita para pagar sua estadia: ajudando as garotas a mudarem de vida, tornando-as atraentes e alvo de cobiça dos rapazes, assim a casa viraria sinônimo de alegria e diversão e atrairia novas hóspedes. Detalhe: ela vira a líder das perdedoras sem nem mesmo ser uma estudante, contrariando uma regrinha básica das tais irmandades. Todavia, sua personalidade altiva perante a postura cabisbaixa de suas pupilas a rotulam naturalmente como um ser superior, um modelo a ser seguido.

Entre as moradoras do falido casarão estão a caxias Natalia (Emma Stone), a punk Mona (Kat Dennings), a masculinizada Carrie (Dana Goodman), a moça que sofre preconceito racial Lily (Kiely Williams), a baixinha e gordinha Tanya (Kimberly Makkouk) e a grávida Harmoy (Katharine McPhee). Completando o time de zeros à esquerda temos Joanne interpretada por Rummer Willis, filha de Bruce Willis e Demi Moore (sim eles já foram casados!). Se mamãe causou furor muitos anos atrás com sua sensualidade em Striptease, a filhinha só pra contrariar surge em cena com um broxante colete ortopédico que a faz caminhar como se fosse um robô. Bons exemplos da família quanto a escolha de papeis de fato a garota não vinha tendo (e parece que até hoje nada mudou), mas como explicar a presença de Colin Hanks nesta comédia boboca? Detentor de dois Oscars, papai Tom deve seguir a linha de não se meter na vida do filhão, mas uns conselhos quanto a escolha de roteiros viriam a calhar. Ele interpreta Oliver, um jovem tímido e adepto a fazer caridades por quem Shelley se apaixona à primeira vista e até estava sendo correspondida, mas ao colocar em prática seus truques de conquista, seja bancando a piriguete ou a moça intelectual, coloca tudo a perder. Até a ceninha que inventa a la Marilyn Monroe termina de forma desastrosa, mas fazer o que se a única coisa que aprendeu foi viver em um mundo cor-de-rosa onde o importante é achar alguém que lhe banque? E é basicamente isso que ela ensina à suas amigas digamos desprovidas de traquejo. Essa é uma entre tantas outras coisas nonsenses do roteiro. Não dá para acreditar que meninas que cresceram longe de maquiagens e boutiques e tampouco alimentavam sonhos quanto a príncipes encantados de uma hora para a outra topem mergulhar de cabeça em um universo de frufrus e com ênfase na promiscuidade.

O argumento e o próprio título vendem a ideia de uma produção com toques de ousadia, porém, o filme segue uma linha mais light, algo parecido com o reality que era exibido na TV americana estrelado pelas "playmates" fazendo de tudo para deixar feliz o milionário Hefner que interpreta a si mesmo em uma ponta na fita que também marca a estreia de Faris como produtora executiva. Pegar mais leve foi uma estratégia para o longa escapar da censura e chegar ao seu público-alvo, os adolescentes amantes de American Pie, tarados por ver meninas vestindo shortinhos e minúsculos tops, mas também agradar as meninas fãs de Legalmente Loira. Não é a toa. Além do universo retratado de fácil identificação com as teens, o roteiro é de Karen McCullah Lutz e Kirsten Smith, as responsáveis pela fita que catapultou Reese Witherspoon ao estrelato. De fato, o alto astral, o deslumbramento e a determinação sem descer do salto alto de Shelley lembram o espírito que movia a loirinha aspirante a advogada do outro filme. A diferença é que para a blond girl de A Casa das Coelhinhas os problemas de suas amigas podem ser resolvidos com chapinhas e sutiãs com enchimento. Falta sustância à trama. A velha rixa patricinhas versus discriminadas já foi explorada em tantas outra fitas para adolescentes, tendo como célebre representante o cult Meninas Malvadas, e a protagonista não se esforça minimamente para fugir do estereótipo da loira burra, mas gostosa, pelo contrário, só reforça tais características. Para não dizer que o filme é uma perda total, ele até tem certas piadas debochadas e com certa dose de ironia, mas são lampejos de criatividade diluídos pela direção do então novato diretor Fred Wolf. Responsável por mais de uma centena de episódios do lendário humorístico "Saturday Night Live", parece que ele se acostumou em fazer esquetes e assim dirigiu e depois editou as sequências do longa como se fosse para um programa de televisão, só assim para explicar cenas desconexas como a brilhante ideia das garotas lavarem carros seminuas e fazendo poses sensuais para arrecadar dinheiro. Os diálogos são de lascar. E assim o longa passa sua mensagem positiva. O importante é ser você mesma e respeitar as diferenças... Bem, isso é claro se você for bela, popular, desejada pelos rapazes e invejada pelas rivais. Futilidade é a palavra final.

Comédia - 97 min - 2008

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