terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UM NATAL MUITO, MUITO LOUCO

NOTA 7,0

Casal deseja fugir dos festejos
de Natal, mas na última hora
precisam organizar uma ceia e
recuperam o espírito de amizade
Hoje é véspera de Natal, dia de muita correria e compras de última hora. Em outras palavras, dia de muito estresse, mas a noite vem a calmaria e as alegrias e emoções devem predominar. No Brasil não temos o mesmo fanatismo que os americanos têm com esta festa cristã, mas ainda assim muitas pessoas vivem o clima natalino intensamente meses antes. Para elas todas aquelas enxurradas de reprises de comédias e dramas típicos de fim de ano na televisão são uma dádiva. Para quem ainda sente apreço pela comemoração, mas todo o ano promete que da próxima vez vai fazer algo diferente entre os dias 24 e 25 de dezembro, certamente se identificará com o casal protagonista de Um Natal Muito, Muito Louco, longa que já pode ser considerado um clássico natalino tal qual Férias Frustradas de Natal, figurinha carimbada na TV praticamente todos os anos há várias décadas. Ambos tratam do respeito e cultivo das tradições, do espírito de solidariedade e de família unida, mas claro que tudo temperado com muito humor. A receita é muito simples e agrada em cheio quem curte essa data festiva justamente por tirar um sarro daqueles que tentam manter o espírito de harmonia e solidariedade quando a reunião familiar se resume em uma sucessão de equívocos e bolas foras dos parentes queridos. Obviamente não é um tipo de produção que agrada a todos os tipos de plateia, pois investe em humor pastelão, mas convenhamos quem não tem pelo menos uma história engraçada ou tragicômica que ocorreu na ceia ou no almoço de Natal? É curioso, mas em meio ao corre-corre das compras de presentes e dos ingredientes dos pratos tradicionais, os filmes que acompanham esse clima não chamam muito a atenção aqui no Brasil, pelo menos quando exibidos nos cinemas. Pode ser o fato da ambientação contrária a nossa, branquinha e fria pela neve, a repetição de situações cômicas ou a mensagem clichê de esperança e amor que deixam no final, mas é certo que dá para contar com os dedos de uma mão só os títulos que trabalham o tema e que escapam do crivo do público e crítica sem serem extremamente chamuscados, como O Grinch e O Expresso Polar, ambos com características visuais evidentes para se sobressaírem no farto cardápio de filmes com histórias parecidas em cima da expectativa da chegada do Papai Noel. Para os produtores americanos os batidos filmes do tipo podem significar a salvação da lavoura quando o ano não rendeu boas bilheterias, por isso eles ainda continuam sendo feitos anualmente.

Apelando para um visual tradicional, com cenários aconchegantes e decoração exagerada e de apelo nostálgico, além de uma narrativa previsível concluída de forma bastante emotiva, o fato é que este longa dirigido por Joe Roth é muito divertido e explora de forma proporcional tanto o lado tirano quanto o feliz do festejo. Luther (Tim Allen) é o patriarca dos Kranks, uma família que sempre preservou as tradições natalinas e dividiu as alegrias da data com amigos e vizinhos por muitos anos seguidos, até que certa ocasião, apenas por uma vez, decidiram esquecer o Natal, algo praticamente impossível, ainda mais em solo americano em que a maneira de comemorá-lo é uma referência para todo o mundo. Como a filha Blair (Julie Gonzalo) está realizando trabalhos voluntários no Peru, Nora (Jamie Lee Curtis) e o marido decidem fazer um cruzeiro e viajar para terras ensolaradas e não pensam sequer em enfeitar a casa (ainda que uma guirlanda adorne a porta principal), o que acaba despertando a ira dos vizinhos que correm o risco de perder um concurso de decoração de ruas por causa desse capricho, além de acreditarem que entre eles há pessoas egoístas. Começa então uma verdadeira batalha para os Kranks conseguirem planejar a tão sonhada viagem sem a interferência de terceiros, estes que não dão folga, principalmente por causa das intervenções de Vic Frohmeyer (Dan Aykroyd), um dos vizinhos mais xeretas. Porém, alguém nos céus não quer permitir que o espírito do feriado seja esquecido e um dia antes da véspera de Natal Blair avisa a família que voltará para a ceia trazendo a tira-colo o novo namorado para participar dos famosos festejos natalinos dos Kranks. Agora Nora e Luther têm menos de 24 horas para organizar uma festa com tudo que há de mais tradicional e para isso recorrem aos vizinhos que tanto hostilizaram até então. A lição que tiramos do longa é das mais explícitas possíveis. Solidariedade e união são primordiais. Só para reforçar a mensagem, ainda temos um casal de idosos, Walt (M. Emmet Walsh) e Bev (Elizabeth Franz), passando por um período difícil e que abrandará o coração do homem que ousou mandar as favas o bom velhinho e tudo mais que lembre sua imagem. Contudo, a primeira metade do filme é dedica a questionar que essa festa ganhou contornos muito mais comerciais que sentimentais, justamente o que desencadeia a decepção do casal protagonista que decide deixar seu boneco gelinho (nosso popular boneco de neve) escondido no porão. Em rápidas aparições, vemos quantas pessoas contavam com o dinheirinho dos kranks em troca de cartões ou biscoitos, por exemplo. Na reta final, alguns outros clichês batem cartão para manter o humor: a ceia do clã recebe a visita de um desconhecido com jeitinho de Papai Noel de shopping e até um bandido tenta se aproveitar da atenção dispersa dos convidados para roubar a família.

O roteiro de Chris Columbus é muito simples e até pode soar como uma reciclagem de piadas, inclusive de dois grandes sucessos do escritor, Esqueceram de Mim e sua primeira continuação, mas ainda assim funciona muito bem pelo fato de que a correria do fim de ano está presente ativamente na vida de qualquer pessoa e a identificação com o conflito dos protagonistas é imediata, embora o humor pastelão possa ser um empecilho para alguns. Chama a atenção que o argumento é extraído de uma criação de John Grisham, o mesmo autor de obras sérias como O Dossiê Pelicano e O Júri. Claro que a ideia original sofreu modificações para ficar com um humor mais familiar, mas nas mãos de um especialista em tramas ingênuas o texto cresceu e tornou-se uma divertida crítica ao que é o Natal atualmente. Roth, que já havia experimentado timidamente o clima natalino quando produziu O Sorriso de Mona Lisa, conseguiu imprimir um delicioso ritmo narrativo e ótimas piadas aproveitando-se da entrega total de Curtis e Allen a seus personagens, como no caso da sequência em que o casal é flagrado por conhecidos fazendo bronzeamento artificial em trajes mínimos. A atriz ainda tem momentos hilários como quando protagoniza uma acirrada disputa no supermercado por uma peça de presunto enquanto o ator que já interpretou o bom velhinho em Meu Papai é Noel se complica desde a montagem da árvore até colocar o famigerado gelinho sobre o teto da casa. Aparentemente ambos tiveram liberdade para improvisar, o que torna as situações ainda mais divertidas e longe do deboche proposital. Ainda temos Aykroyd que consegue ser pentelho e carismático, ainda mais quando divide as cenas com Erik Per Sullivan que vive Spike, seu filho, uma dupla de ferrenhos defensores dos costumes natalinos. Provável que muita gente sem nem mesmo ter assistido já tenha tirado suas próprias conclusões negativas a respeito de Um Natal Muito, Muito Louco a começar pelo título digno de telefilmes, mas não se engane pelas aparências. Esta é uma comédia bem divertida e que satiriza o comportamento dos americanos de classe média e que serve até para o brasileiro rir de si próprio. É quase impossível não reconhecer no longa alguma situação que nós mesmos ou conhecidos viveram por conta de alguma gafe própria ou de algum parente, seja antes ou na hora da festa. Entre no espírito do longa e da época para a qual ele foi feito para descobrir suas qualidades. Reclamem o quanto quiser, mas é certo que o Natal perderia boa parte de seu encanto caso produções do tipo fossem extintas. Na pior das hipóteses, elas fazem companhia para aqueles que não podem festejar ao lado dos familiares ou amigos e deixam no ar a mensagem que o maior presente que alguém pode receber é um sincero feliz Natal, mesmo que ele seja dito por um ator que não faz a menor ideia de que você existe.

Comédia - 94 min - 2004

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