terça-feira, 25 de dezembro de 2012

SURPRESAS DO AMOR

NOTA 7,0

Comédia romântica embalada
para presente de Natal tem
elenco de peso e equilibra bem
humor e pitadas de seriedade
Hoje é dia de Natal. Para alguns é dia de muitas alegrias e para outros de tristeza, mas também pode ser uma data que causa uma tremenda dor de cabeça. Quem ainda não fez a famosa visitinha de fim de ano aos parentes e amigos hoje pode ser a data limite. Para aqueles que não curtem esse clima natalino, mas mesmo assim são obrigados a comemorar a data, Surpresas do Amor é uma divertida história que vem a calhar para dar uma animada. Comédia romântica disfarçada, o longa não foge do esquema previsível do gênero, mas coloca em cena um casal curioso. A diferença de estatura entre Reese Witherspoon e Vince Vaugh é gritante e explorada em algumas peças publicitárias produzidas para este filme com os dois de costas um para o outro, mas ela montada em saltos bem altos e ainda em cima de algumas malas. O que poderia ser um entrave para a escalação da dupla acabou servindo para chamar a atenção, porém, certamente o que contou mais foi o fato de ele ser um especialista em humor mais popular e ela ser perfeita para dar ares românticos a uma relação amorosa iniciada de forma atípica ou forjada. Segundo boatos, os dois tiveram muitos desentendimentos durantes as filmagens, mas se isso é verdade os fatos colaboraram para manter os protagonistas no tom certo. O tempo todo eles estão se alfinetando até o ápice das discussões, a separação, e... Bem, você já sabe como tudo vai acabar. Os atores dão vida à Brad e Kate, dois jovens (ok, nem tão jovens assim) que aparentemente se conheceram em uma noite em um bar e após um rápido estranhamento já estavam se atracando no banheiro. Assim começava o namoro feliz de duas pessoas que se completam e partilham os mesmos gostos. A mocinha da história se apresenta como uma mulher forte, mas essa figura é para esconder a repressão que sentiu a vida toda da família e amigos. Talvez por isso sempre condenou a instituição familiar e sua repulsa é compartilhada pelo companheiro, o que garantia o sucesso da relação. Todavia, eles jamais revelaram um ao outro suas reais amarguras do passado. O tempo passa e nunca um conheceu a família do outro, pois sempre arranjavam desculpas, principalmente nas datas festivas. A cada Natal, o feliz casal escapava da obrigação de visitar seus parentes com histórias bem criativas, como fazer trabalho voluntário em países pobres, assim eles ficam livres para aproveitar as férias viajando. Porém, certa vez ocorre um imprevisto e o passeio é cancelado na última hora pela equipe do aeroporto e o casal tem o azar de ser flagrado por uma equipe de TV local e seus parentes ficam sabendo do ocorrido. Agora não tem jeito. Eles serão obrigados a comemorar essa data em quatro casas diferentes em um mesmo dia já que ambos tem pais separados. Assim, eles terão que confrontar memórias, tradições, vergonhas e parentes indesejados, tudo o que for possível para atrapalhar a relação harmoniosa dos pombinhos. Ao mesmo tempo em que repudiam tal situação, o casal passa a se desentender, principalmente porque Kate começa a ter o desejo de constituir sua própria família, coisa que não cogitava até então.

Os primeiros minutos mostram os protagonistas tendo seu primeiro encontro por acaso. Será mesmo? Eles não estariam simplesmente fazendo um joguinho de sedução para apimentar a relação? Seja como for, o diálogo que eles travam é de dor. Será que um filme que começa muito mal tem chances de virar o jogo? A resposta é sim! O segredo neste caso está na maneira bem humorada encontrada para contar uma história simples e repleta de clichês, mas cujo trunfo está na criação de personagens críveis e de fácil identificação com o público, além de situações que exploram as alegrias e as tristezas presentes na convivência de um casal. Lembrando em partes o estilo do velho clássico natalino Férias Frustradas de Natal, o diretor Seth Gordon estreou no cinema construindo uma narrativa bem humorada quadruplicando as loucuras que uma única família é capaz de enfrentar nas festas de fim de ano, mas adicionando uma boa pitada de realismo no que podia ser exageradamente açucarado ou besteirol. Em seu primeiro trabalho no ramo do cinema comercial, o diretor não se arriscou e se apoiou em um gênero cujos truques manjados quase sempre funcionam e aqui não é diferente. Porém, ao invés do casal de protagonistas jovens estar começando uma relação e ter uma terceira pessoa entre eles para atrapalhar tudo, neste caso temos duas pessoas mais maduras, já vivendo um relacionamento sério a algum tempo e seus inimigos ironicamente são suas próprias famílias. Quem já viveu ou ainda vive uma relação duradoura sabe que por mais que se deseje ficar longe dos familiares existem alguns momentos da vida em que reencontrá-los é inevitável, como no Natal, e é preciso saber dividir as atenções entre os parentes das duas pessoas desta união. O casal pode até entrar em um acordo e acertarem algumas visitas para fazer a política da boa vizinhança, mas o que suas familiares vão oferecer em troca é que os deixa aterrorizados. Obviamente, em famílias normais cujos membros vivem harmoniosamente, ninguém tomará atitudes vingativas ou violentas, mas sabe como é, sempre pode escapar em uma conversa alguma travessura da infância ou a mamãe querer mostrar o álbum de fotografias de quando seus pimpolhos eram bebês. São justamente estas situações corriqueiras e aparentemente inofensivas que são exploradas pelo roteiro escrito por Matt Allen, Caleb Wilson, Jon Lucas e Scott Moore.  A necessidade de tantos roteiristas tem justificativa. Além de dar conta dos problemas do casal principal, o enredo ainda precisa englobar outros quatro personagens importantes, cada qual com seu próprio universo e seus agregados. Para dar vida aos pais de Brad e Kate, um quarteto de peso foi convocado, todos com um Oscar em casa e numa etapa da carreira em que não precisam mais atuar para agradar o público ou a crítica, basta um pequeno papel para eles marcarem presença, se satisfazerem e até ajudar na publicidade do filme. Robert Duvall, Mary Steenburgen, Jon Voight e Sissy Spacek conseguem dar o toque de humanidade necessário a seus respectivos papéis que, guardada as devidas proporções, podem muito bem fazer parte de qualquer família, são tipos verossímeis apesar de toda a loucura que os envolvem como irmãos adeptos de brigas, parentes oferecidas e até uma mãe mantendo um caso com um amigo do filho. Vale destacar também a presença de Jon Favreau, presente em diversas comédias, porém, mais conhecido como o diretor de Homem de Ferro, interpretando um dos irmãos truculentos de Brad.

O bacana é que o enredo não investe apenas em piadas visuais e previsíveis, mas também explora um humor mais reflexivo extraído de diálogos que exaltam as diferenças entre todas essas pessoas, além é claro de dar destaque as suas personalidades. Mesmo com um elenco talentoso, obviamente a crítica não tem muito apreço por esta produção que reúne diversos elementos que deixam os chatos de plantão cabreiros. Mas Natal é tradição. Comédia familiar também necessita de elementos repetitivos. Assim, confusões, gritos, as brigas e as gafes em família, algumas piadas escatológicas, o uso de fotos antigas para dar o tom nostálgico, as lições de moral ou de vida no final, enfim todos os clichês desse tipo de produção estão presentes para manter a tradição do filminho natalino, mas mesmo assim divertido em qualquer época do ano. O longa merecia até um estudo de caso sobre marketing, publicidade ou negócios. O título original é "Quatro Natais", bem a calhar, mas no Brasil ganhou um nome muito comum explicitando se tratar de uma comédia romântica, mas limando qualquer menção ao Natal, inclusive visualmente. Presentes e um enorme laço de fita envolvendo os protagonistas foram retirados dos cartazes, tudo visando uma vida útil nos cinemas maior. Produções do tipo dificilmente geram bilheterias astronômicas porque inevitavelmente tem um período curto para ocupar as telas grandes. Estreou para os americanos no início de dezembro, chegou mais a frente para os brasileiros e acabou invadindo o mês de janeiro. O DVD demorou a ser lançado justamente para ficar mais próximo do período natalino do ano seguinte ao seu lançamento, mas ai o câncer cinematográfico agiu e a pirataria e a internet boicotaram de vez o sucesso da comédia. Sim, sucesso. O longa realmente teria muitas qualidades para agradar a grandes plateias. O único problema mais gritante é o fato que é praticamente impossível um casal passar por tantas situações constrangedoras no período de cerca de 24 horas e ainda ir e voltar nas várias casas dos parentes em tempo recorde. Mesmo assim Surpresas do Amor realmente é uma comédia romântica acima da média, mas tão tradicional ao gênero quanto a figura do Papai Noel no mês de dezembro, reforçando o espírito de união e de amor que deveria prevalecer sempre e não apenas em uma data específica. Fora isso, a grande lição que fica é que nunca o parceiro que você escolher será o ideal. Todos têm algo vergonhoso no passado, um parente problemático ou inconveniente e não adianta esconder essas coisas da pessoa que se escolhe para dividir uma vida. Quanto a surpresa do título, bem ela fica restrita e por conta do espanto do espectador desavisado que pode não imaginar encontrar enfeites natalinos como decoração dos cenários, um detalhe que no final das contas não faz diferença. Reúna a família, pegue as sobras da ceia e caia na gargalhada. E prepare-se. Certamente lembranças de outras festas familiares virão a tona. Feliz Natal a todos!

Comédia Romântica - 88 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.

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