segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O EXPRESSO POLAR

NOTA 8,0

Apesar da narrativa ter alguns
problemas de ritmo, desenho
emociona e resgata a magia do
Natal e o espírito de solidariedade
Como se costuma dizer nas propagandas da televisão, hoje vamos ter a noite mais mágica do ano. Para praticamente todos no mundo inteiro realmente a noite de hoje é muito aguardada e carrega um clima único de alegria, fraternidade e lúdico. Para as crianças, o entusiasmo é ainda maior. De madrugada, Papai Noel vai passar na casa de cada uma delas e deixar um belo presente embaixo da árvore enfeitada. Bem, essa historinha hoje já não cola mais, apenas os bem pequeninhos ainda caem nessa, mas o que seria do Natal se o que há de mais tradicional na data não fosse passado adiante às novas gerações? Até para os adultos a festa não teria o mesmo sentido se não fosse essa volta às memórias de infância e resgate de tradições. Pensando em agradar ao público de todas as idades e exaltar o espírito natalino e a figura do bom velhinho, o diretor Robert Zemeckis teve a grande ideia de realizar O Expresso Polar, uma bela fábula literária adaptada para o cinema em animação especial. Baseado no livro ilustrado infantil homônimo de Chris Van Allsburg lançado em 1985, a história é tão singela e agradável quanto ganhar uma lembrancinha de alguém muito querido. Na véspera de Natal, um garoto está acordado e ansioso. Ele não acredita que Papai Noel existe e nesta madrugada quer ter algum sinal que o faça voltar a crer neste símbolo natalino. No meio da noite ele ouve um barulho muito forte próximo a sua casa e quando vai ver o que é tem uma enorme surpresa. Simplesmente um gigantesco trem parou bem ali na sua porta e o condutor o convidou para seguir viagem com ele até o Pólo Norte. Após relutar um pouco, o menino decide embarcar, pois essa era a chance que ele precisava para voltar a acreditar no Natal. No vagão, ele encontra várias crianças de diversas etnias e com características distintas, como o garoto solitário ou o metido a sabichão, mas todos com a mesma vontade de comprovar que a magia da tradicional festa milenar existe de verdade. O convite para embarcar neste encantador passeio é um bilhete dourado, uma referência clara ao clássico infantil A Fantástica Fábrica de Chocolate que também inspirou alguns outros momentos da produção.

Tentando recriar a realidade em desenho animado, o projeto era de alto risco, mas necessário para transmitir toda a magia do livro. Para tanto, foi usada a técnica motion-capture, recurso que captura as imagens e os movimentos dos atores com roupas especiais para depois colocá-las em cenários reais ou também computadorizados, uma técnica inovadora na época, mas hoje já usada com frequência. No ambiente virtual as cenas filmadas ganham cores fortes e contornos diferenciados, o que justifica a sensação de calor humano dos personagens. O grande chamariz disso tudo é a possibilidade de um adulto viver um personagem novinho e vice-versa, da mesma forma que um gordinho pode ser um magrinho e uma mulher se transformar em um homem. Um ator tem inúmeras possibilidades com essa opção que acaba sendo não apenas um recurso estético, mas também narrativo. O ponto negativo é que em algumas sequências as expressões faciais e o movimento dos olhos denunciam as falhas que a técnica possui, mas nada que quebre todo o encanto. Zemeckis se uniu a Tom Hanks novamente para este projeto. Eles já trabalharam juntos em Forrest Gump e Náufrago e aqui repetem a química de sucesso, mas de uma forma diferente. O ator aqui interpreta, entre aspas, diversos personagens em animação ou como uma pintura em movimento como o diretor gosta de dizer e com razão. O astro interpreta nada mais nada menos que o garoto protagonista, o pai dele, o condutor da locomotiva, um andarilho e também o próprio Papai Noel. Mais versátil que isso impossível. Só mesmo a tecnologia para transformar um adulto beirando os cinquenta anos em um garotinho. Faltou pouco para tudo ser perfeito, embora cada nova cena nos surpreenda com um colorido arrebatador e as imagens pareçam dignas de estamparem cartões de boas festas. Inexplicavelmente o longa ficou de fora da categoria de Melhor Animação na festa do Oscar, mas algumas canções e a excepcional parte sonora foram indicadas. Pelo menos isso, não é? Se o visual é arrebatador, por ouro lado do roteiro escrito pelo próprio Zemeckis em parceria com William Broyles Jr. infelizmente não se pode dizer o mesmo. A história do livro é muito breve e precisou ser bastante espichada, o que gera a sensação de certas sequências serem cansativas e outras que só entraram na edição final para encher linguiça, como um musical a la Broadway cujo tema principal é o chocolate quente. Apesar de bem realizada e enaltecer o clima aconchegante de dentro do trem em contraste ao frio congelante do lado de fora, é uma passagem que dá a impressão de ser uma estranha no ninho. Mesmo se tal sequência não existisse, ainda assim o enredo teria problemas, sendo o mais chamativo sua cadência desigual. Ora a narrativa conta com o humor, ora flerta com a melancolia e por ai vai. São dois estilos que até podem conviver em um mesmo trabalho, desde que exista um ritmo a ser obedecido, o que não é bem o caso. Dessa forma, nesse vai e vem de emoções, algumas sequências podem passar a falsa impressão de terem sido feitas de forma aleatória, sem um roteiro definido e foram agrupadas depois. Este é um incômodo que não atrapalha a diversão daqueles que buscam resgatar a magia natalina, todavia, aqui está outro ponto questionável.

Muitos condenam que a história no estilo ver para crer é muito batida e que o longa reforça a ideia consumista da data. Realmente, o sentido religioso da festa não é lembrado aqui, mas também não se encaixaria neste enredo, porém, não se pode negar que ele resgata o espírito de solidariedade e renovação conforme a tradição, ainda que a meia hora final exagere no colorido e referências ao lúdico e acabe sendo chatinha. É curioso, mas justamente o ápice de tudo, reflete a fragilidade do texto em detrimento a imagens arrebatadoras. Para finalizar o sobe e desce de ritmo, a cena final é reservada a um musical claramente inspirado em Shrek. De qualquer forma, é louvável a iniciativa de Zemeckis em apostar suas fichas em uma produção natalina, ainda mais praticamente estreando uma nova forma de animação. A maioria dos filmes que abordam os festejos de fim de ano automaticamente já nasce com potencial para se tornarem clássicos, pois são aquelas opções que sempre lembraremos em assistir com a família nesta data, os pais de hoje desejarão que seus filhos também vejam e os canais de TV certamente agendarão suas reexibições praticamente todos os anos. Por outro lado, as produções já podem nascer com a alcunha de piegas e afugentar boa parte do público que não aguenta a repetição de enredos que enfocam as confusões em família, a correria das compras de última hora ou o espírito solidário exagerado. O Expresso Polar tem potencial, ou melhor, já virou um clássico natalino, mas um filme não sobrevive a ação do tempo só com o apoio de tecnologia (Final Fantasy, também feito em motion-capture, que o diga). Infelizmente, nem como um sucesso de bilheteria esta animação pode ser  lembrada. Já é de se esperar que produções natalinas tenham desempenho raquítico, mas a crítica também não foi generosa neste caso. Um importante jornal americano exagerou na dose de má vontade e avaliou a obra com a pior classificação possível. Quais seriam os critérios usados nesta avaliação? Mesmo não sendo excepcional este desenho tem seus predicados e cumpre o que promete. Emociona, remete a infância e resgata o espírito solidário que todos deveriam manter ativo todos os dias do ano. Enfim, embriagado do clima lúdico e longe do corre-corre dos mercados e shoppings, dá realmente vontade de acreditar que Papai Noel existe e deixará nosso presente gratuitamente ao pé da nossa árvore enfeitada especialmente para recepcioná-lo. Não deixe de verificar a sua amanhã... E não deixe de conferir este título, nem que seja só para matar a curiosidade.

Animação - 100 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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