terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A GAROTA DA CAPA VERMELHA

NOTA 3,5

Prometido como versão de
horror de conto clássico
infantil, o filme investe e se
perde com romance teen
Os contos clássicos infantis são fontes inesgotáveis para o cinema, televisão, teatro, quadrinhos e para a própria literatura. Algumas dessas histórias já foram tantas vezes adaptadas que hoje em dia é até difícil descobrir qual é a versão original. Muita gente diz que as historinhas bonitinhas que são usadas para ninar crianças mundo a fora na realidade possuem elementos fortes, perversos, trágicos e até mesmo mensagens subliminares. Costumamos acreditar que a versão dos filmes Disney são verdadeiras, o que não procede, mas muitos contos jamais ganharam o colorido e o toque de humor da empresa, embora versões "genéricas" de outras companhias, aquelas que vira e mexe saem diretamente em DVD com animação de qualidade infinitamente inferior, tentem lucrar com o que não existe no catálogo da concorrente peso-pesado. Criado no século 19 pelos famosos irmãos Grimm, o conto da Chapeuzinho Vermelho é um que não ganhou sua versão definitiva em longa-metragem, tornando-se assim um prato cheio para se criar ou apenas seguir o texto clássico. Mais preocupada em inventar do que seguir os originais parece a diretora Catherine Hardwicke no comando de A Garota da Capa Vermelha. Depois de lucrar muito com Crepúsculo, ela estava disposta a mais uma vez ganhar uma bolada investindo em uma história semelhante a de seu trabalho anterior. Os resultados financeiros não corresponderam as expectativas. Visualmente a produção chama a atenção, mas a história deixa a desejar e toda a aura de mistério que a parte técnica promete é esmiuçada em uma trama que não envolve totalmente o espectador e que recorre a fórmula do triângulo romântico adolescente, muda a idade da protagonista para transformá-la em uma atraente jovem e substitui o lobo por um lobisomem, bem original e ousado para a o currículo da diretora não?

Prometido como uma versão mais sombria do conto, o longa é até bastante leve e repleto de clichês. Além dos já citados, o "quem matou", recurso amplamente utilizado pelo cinema e em novelas, aqui bate ponto também e até os enquadramentos de câmera e estilo de filmagem denunciam a previsibilidade da trama escrita David Leslie Johnson. Curiosamente, diretora e roteirista têm em seus currículos ao menos um trabalho bem interessante. Ela dirigiu Aos Treze e ele roteirizou A Órfã. Aqui ambos parecem trabalhar no piloto automático, mas ainda assim atraíram um elenco talentoso, como Virginia Marsden e Julie Christie, embora para papéis coadjuvantes. A história começa apresentando Valerie (Amanda Seyfried), uma jovem que vive em uma aldeia próxima a uma floresta misteriosa e que vive um conflito amoroso. Ela está apaixonada pelo simplório Peter (Shiloh Fernandez), mas foi prometida pelos pais a Henry (Max Irons), um rapaz que tem uma vida um pouco mais confortável. A moça decide fugir com seu verdadeiro amor, mas desiste ao descobrir que sua irmã mais velha faleceu devido ao ataque de um lobisomem que está rondando o vilarejo. Os moradores então recorrem ao padre Solomon (Gary Oldman), um especialista no assunto que diz que o mal está entre eles. Assim, o clima de suspeitas é instaurado no local, até então muito tranquilo, pois qualquer um pode ser o tal lobisomem. No papel, o roteiro parece promissor, mas a realização decepciona. Meses antes do lançamento, muito gente já estava curiosa para assistir esta que deveria ser uma versão aterrorizante, mas que não faz nem cócegas. Para quem esperava então ver sangue e mutilação, esqueça de vez. A edição brusca tratou de apenas insinuar um clima de horror ou sensualidade, mas é preciso lembrar que o foco era atrair o público que se encantou pela saga de vampiros e lobisomens citada. Praticamente a mesma fórmula de um foi repetida no outro.
Em meio a insinuações explícitas ao conto original, tentativas de inserir elementos modernos, como na trilha sonora escolhida a dedo para agradar adolescentes, um triângulo amoroso insosso e interpretações ruins, ao menos a parte visual consegue ser interessante. As sombrias vila e floresta são convincentes e até o que pode parecer estranho em um primeiro momento acaba ganhando sentido mais adiante. É uma pena que o gancho do mistério de quem seria o lobisomem seja explorado de forma convencional e até respingue no conflito emocional dos protagonistas quando a desconfiança abala o relacionamento entre eles. A Garota da Capa Vermelha se resume no final das contas a um entretenimento rasteiro feito sob medida para agradar adolescentes e que entrega uma trama extremamente mastigada. Os adultos que confiaram nas notas da imprensa ao longo do período de produção do filme que em breve teríamos a versão cinematográfica e mais próxima do conto original caíram do cavalo. Outras histórias clássicas vira e mexe são citadas como futuros projetos para longas-metragens fiéis as suas origens ou que ganhariam versões mais sombrias. Espera-se que se realmente estas idéias se concretizem, produtores, roteiristas e diretores respeitem a inteligência do espectador e não entreguem produtos infantilizados ou romanceados em busca de dinheiro fácil. Quem busca isso, procure os filmes Disney ou similares. Com certeza serão uma diversão até melhor. Ah, e quanto a vovozinha do conto? Bem, pela ótica da diretora, parece que a velhota pouco faz falta quando adolescentes bonitinhos estão em cena.
Suspense - 99 min - 2011 - Dê sua opinião abaixo.

2 comentários:

Luís disse...

Nunca assisti ao filme, mas devo dizer que também não tenho vontade de vê-lo. Parece monótona, apesar de tentar ser interessante. Definitivamente, eu não o conferiria.

toldos disse...

gostei do filme e muito bom

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...