quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

CORAÇÃO DE TINTA - O LIVRO MÁGICO

NOTA 4,5

Apostando em trama com
personagens e histórias
fantásticas, esta aventura
não empolga e é tediosa
Explorar os limites da fantasia e da imaginação é um dos principais objetivos do cinema e Hollywood sempre apostou no gênero fantasioso para lucrar. Nos últimos anos a febre aumentou devido ao sucesso das séries Harry Potter, O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia e até outros países embarcaram na onda de histórias sobre bruxos, fadas, duendes e companhia, geralmente frutos de livros infanto-juvenis de sucesso. Assim vira e mexe algum filme do tipo chega aos cinemas ou é lançado diretamente em DVD conquistando atenções de imediato ou a longo prazo, mas nem sempre a receita mágica dá certo e é isso que prova Coração de Tinta - O Livro Mágico. Baseado na obra homônima da romancista alemã Cornelia Finke, o longa conta com um elenco invejável e efeitos especiais e cenários de encher os olhos. A trama também deve ser boa. Isso mesmo, deve ser. No livro o enredo pode funcionar as mil maravilhas, mas a versão cinematográfica deixa a desejar graças a direção fraca de Iain Softley que parece disparar para todos os lados tentando acertar em algo que até ele mesmo desconhece. Acostumado a experimentar gêneros variados, no de fantasia ele não se deu bem. Projetado para ser uma trilogia (o que dificilmente ocorrerá), o filme conta a história do restaurador de livros Mo Folchart (Brensan Fraser), um pai solteiro que viaja com a filha Meggie (Eliza Bennett) por livrarias obscuras procurando algo em especial. A mãe da garota sumiu misteriosamente e desde então a pequena sonha com a vida de aventuras e descobertas que encontra em suas leituras e seu desejo será atendido. Eliza não sabe que seu pai esconde um grande segredo: ele tem o dom de trazer os personagens ou qualquer outra coisa dos livros para a vida real quando lê alguns trechos em voz alta, porém, para cada elemento que salta das páginas um da realidade deve entrar em seu lugar. O fato está ligado ao sumiço da esposa de Fochart e é justamente uma nova edição do livro "Coração de Tinta" que ele busca de sebo em sebo para conseguir ter sua família completa novamente.

Antes que Meggie descubra mais sobre tudo isso, as coisas se complicam quando o vilão Capricórnio (Andy Serkis) surge do famigerado livro e rapta a família Folchart em busca dos poderes do restaurador para realizar seus planos maldosos. Essa premissa bem interessante acaba sendo distorcida devido ao excesso de coadjuvantes que mais servem para confundir ou encher linguiça. Entre eles estão o próprio autor da tal obra, Fenoglio (Jim Broadment), que parece um lunático achando tudo que criou maravilhoso, e Dedo Empoeirado (Paul Bettany), um homem com habilidades para manusear o fogo e que está tentando voltar para seu mundo. O chamado Sombra é uma criatura totalmente digital que deve impressionar pelo seu visual, mas vale ressaltar também a presença de Helen Mirren como Elinor Loredan, uma senhora que ama livros e é colecionadora. Acostumada a viver papéis sisudos, aqui a atriz parece buscar ampliar seu prestígio atingindo as platéias mais jovens, tal qual sua contemporânea Meryl Streep já faz há algum tempo. Serkis também merece destaque já que é um ator habituado a emprestar suas feições e movimentos para criações de computador (como o King Kong e o Gollum dos filmes de Peter Jackson) e é raríssimo vê-lo atuar de corpo inteiro. Quanto a Fraser, ele já tem bastante experiência com longas para o público infantil e está se sentindo em casa. Bem, nomes de artistas famosos e visual arrebatador não seguram um filme por completo. É preciso ter história boa também, mas em praticamente nenhum momento este enredo consegue prender a atenção. Seja pela direção perdida ou a edição de cenas que deram um ritmo lento a narrativa, o fato é que uma obra que deveria ser encantadora do início ao fim decepciona. Nem as diversas referências a obras clássicas conseguem fisgar o espectador e transportá-lo a tal mundo mágico. Pelo menos Softley não caiu na armadilha de transformar a idéia inicial em uma comédia boba sobre adaptações de personagens do passado aos novos tempos e espaços, um viés demasiadamente utilizado pelo cinema. 
 
É difícil querer elogiar uma obra que se percebe que foi feita com esmero, capricho e com grandes pretensões, mas que deu com os burros n'água. Depois de uma introdução interessante explorando o campo do suspense nos deparamos com uma narrativa corrida e com muitos buracos que só deve agradar mesmo as crianças menores (e olhe lá) que se encantam facilmente pelo visual e estão pouco se lixando para o roteiro, apesar de que algumas cenas são um tanto sombrias e podem assustá-las. Enfim, tedioso e superficial, Coração de Tinta - O Livro Mágico só tem de relevante mesmo seu visual caprichado e o fato de ser a adaptação cinematográfica de uma obra cujo objetivo principal é incentivar as crianças das novas gerações e até mesmo adultos a prática da leitura. Se ler é uma boa forma de levar alguém aos lugares mais fantásticos e distantes possíveis e a descobertas inimagináveis, aqui temos a materialização desta idéia literalmente. Ao mesmo tempo temos um alerta para a indústria de cinema: nem tudo que é produzido para o público infantil e visando lucros com as platéias adicionais (pais, avós, tios, etc) e com bugigangas que vão desde alimentos a roupas consegue o sucesso necessário para segurar uma franquia. No caso, até mesmo o livro que originou o longa não conseguiu um grande pontapé nas vendas com este trabalho irregular e que só garante uma sessão da tarde rápida e totalmente esquecível pouco tempo depois. O que uma adaptação mal feita não faz...
 
Infantil - 106 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Luís disse...

Eu conferi esse filme no cinema e devo dizer que eu não tenho uma boa memória dele, apesar de, à época, ter me agrado. Revi algum tempo depois e concluí que ele é mesmo meio exagerado, por muitos motivos do quais você falou: excesso de personagens coadjuvantes além de um tom estranho, ora beirando a fantasia, ora a comédia, não sei bem dizer. E o final é bastante histriônico também, mas é de um exagero que saiu às avessas e mais incomoda do que entretém.

Bom texto.
;)

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