segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

STELLA

NOTA 8,0

Drama tem enredo de fácil
identificação e prova que a
cultura e certas relações
podem mudar vidas
A integração, ensinamentos de disciplina e de respeito e a motivação que o esporte proporciona a uma criança ou a um adolescente podem torná-lo um adulto vencedor e exemplo de vida. Isso o cinema já mostrou inúmeras vezes, mas as vezes o foco é no argumento das artes e das amizades como forças motivadoras para despertar potenciais e dar verdadeiras guinadas em rotinas desordenadas ou tristes. Geralmente só enxergamos isso em produções cujos protagonistas são pessoas pobres, mas ainda bem que existem variações como o longa francês Stella. A garota do título (Léora Barbara) não tem uma existência paupérrima, aos mais desatentos até pode ser considerada uma privilegiada, mas na realidade ela vive na periferia de Paris no final da década de 1970. É uma pré-adolescente que mora com seus pais Roselyne (Karole Rocher) e Serge (Benjamin Biolay) em um edifício decadente que fica em cima do bar da família, local que não reúne os melhores exemplos de comportamento. Assim, Stella cresceu em um ambiente que lhe ensinou certas malandragens e a tocar a vida do jeito que pode e é assim que ela faz com tudo, inclusive com a escola. A menina é extremamente desatenta e tem as piores notas possíveis na instituição que a admitiu. A garota sente que sua origem humilde é alvo de humilhações por parte de professores e alunos da escola acima da média para seus padrões de vida, o que lhe desperta certos instintos mais violentos. Sua mãe finge não se importar com a situação da filha, mas bate na tecla que se ela não estudar seu destino será atender clientes no bar. As coisas mudam quando Stella faz amizade com a nova aluna de sua classe, a judia argentina Gladys (Mélissa Rodriguez). Através desta amizade, a francesinha rebelde conhece um mundo diferente de tudo o que conhecia até então. Por influência da nova companhia, ela descobriu um novo caminho a seguir na vida entrando em contato, por exemplo, com a música e a literatura, enquanto as coisas no ambiente em que vive estão em ruínas, tanto no bar quanto em sua casa.

O longa aparentemente pode parecer ter sido feito para concorrer em festivais de cinema alternativo e que se destina a um grupo seleto de pessoas. Porém, com um pouco de boa vontade, esta obra da diretora e roteirista Sylvie Verheyde pode agradar a platéias bem maiores. Essa história é autobiográfica, pois a própria cineasta também cresceu em um bar de periferia, estudou em uma famosa escola de Paris e sofreu para se adaptar ao ambiente escolar. Justamente por impor suas memórias de forma simples e com um olhar inocente e as vezes deliciosamente perverso, o roteiro é facilmente assimilável tanto pelos cinéfilos de plantão quanto pelo público casual em busca de uma boa história. O cinema francês sempre gostou de tratar de assuntos ligados ao cotidiano de crianças que são jovens demais para serem consideradas adultas, mas ao mesmo tempo são maduras demais para serem tratadas de forma infantilizada e aqui temos mais um forte representante desta corrente cinematográfica. Com muita suavidade, o roteiro tem a pretensão de explorar os conflitos da personagem-título e dos demais que a cercam sem fazer julgamentos, simplesmente registrando o cotidiano destas pessoas que se fecharam em um grupo devido as características em comum, como se fossem os excluídos de uma Paris conhecida por pessoas finas e de bom berço, suas riquezas e produtos caros e cobiçados. Neste filme, estas características são totalmente esquecidas e conhecemos outro lado da cidade-luz. Stella já se habituou a ser diferente das demais crianças, como deixa explícito em uma narração em off logo no início, mas ainda assim a sua história não difere muito a de outras tantas de sua idade e de qualquer parte do mundo. Ela passa por problemas em sua casa, vive as dificuldades da escola e precisa aprender a lidar com as novidades que o amadurecimento traz, além de administrar o seu semi-isolamento imposto por uma sociedade preconceituosa com os menos favorecidos financeiramente.
Interessante observar na obra uma nova perspectiva da década de 1970 através de um país diferente. A cultura da época é muito enraizada em referências americanas. Os ídolos e referências da música, cinema, política, enfim quase todos que até hoje estão na memória coletiva mundial são proveniente de terras ianques, mas cada local viveu de forma peculiar o período. Isso é perceptível prestando atenção, por exemplo, nas músicas e figurinos que pontuam e datam o longa. Outra característica nostálgica é a fotografia amarelada, um efeito proposital muito eficiente para dar um ar nostálgico e que até atrai mais a atenção. Todos esses cuidados técnicos e no roteiro se devem muito ao fato de Sylvie passar para celulóide as suas memórias do tempo em que sua idade era compatível com a de sua protagonista, garotinha que, diga-se de passagem, apesar de se dizer conhecedora das coisas do mundo dos adultos, ainda mantém uma pureza e ingenuidade cativante, características de quem está vivendo a passagem da infância para a adolescência. Contada de forma ágil e leve, ainda que a meia hora final mude ligeiramente o tom, a história de Stella merece ser conhecida e ter sua grande mensagem compreendida: o ambiente em que vivemos, as pessoas com quem nos relacionamos e nossos hábitos podem sim determinar quem foi você ontem, quem é você hoje e quem será você amanhã e que sempre é hora de mudar o que for possível em busca de melhores chances na vida.
Alternativos - 102 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Daniel Sousa disse...

Filme interessante! Muito legal : )
http://danielhorizonte.blogspot.com/

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...