quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

BELLA

Nota 7,0

Diretor mexicano estréia
com drama eficiente que
emociona público e crítica
apesar de não inovar
Dramas feitos fora dos padrões hollywoodianos costumam decepcionar muita gente. Muitas vezes eles são carregados de mensagens e histórias interessantes, mas em geral não estabelecem uma unidade narrativa e são extremamente contemplativos a certos períodos da vida de seus personagens, além de serem encerrados geralmente deixando questões no ar e sem o tradicional felizes para sempre. Justamente por estas diferenças no modo de contar uma história, estes trabalhos tendem a agradar mais aos críticos e acabam ficando restritos a nichos de público específicos, mas nem tudo que é feito fora de Hollywood necessariamente precisa ser esculpido para ser laureado em festivais e excluir, ainda que sem querer, a maior parte da população mundial, ou falando claramente, afastar os adeptos de cinema só por distração. Isso é o que prova o longa mexicano Bella. A história se passa em uma movimentada área de Nova Iorque onde Manny (Manny Perez) é o bem-sucedido dono de um restaurante de comida mexicana. Ele tentou estender a chance que teve de subir na vida a seu irmão José (Eduardo Verástegui) e o nomeou chef da cozinha, mas o clima entre os dois não é dos melhores. A gota d'água ocorre quando o empresário despede Nina (Tammy Blanchard) por causa de seus constantes atrasos. Solidário, José a convida para passear com ele e ir conhecer seus pais e lhe conta sobre seu doloroso passado. Jogador de futebol de sucesso, o rapaz interrompeu a carreira no ápice após matar acidentalmente uma criança e ser condenado à prisão. A tristeza que José carrega até hoje o toca profundamente, enquanto Nina também sofre com os erros que cometeu na sua vida como a sua indesejada gravidez.

Aqui o final feliz existe, é praticamente eminente, e não há assuntos mal resolvidos, porém, o desenvolvimento da história, apesar de tocante, não deixa de dar uma sensação incômoda, porém passageira. Talvez isso ocorra por causa da expectativa colocada neste título que já nasceu com aura de produção para circuito alternativo, ainda que os festivais por onde passou sejam praticamente todos dedicados à cultura latina, o que não credencia totalmente o título como um filme de arte, mas contribui sem dúvida para uma propaganda extra ao longa. Esperava-se mais do roteiro, mas mesmo assim é um belo filme que toca em assuntos familiares usando uma narrativa fragmentada onde passado e presente se alternam de forma delicada. Para quem gosta de obras envolventes e dramáticas, é uma ótima opção com personagens bem construídos e passagens de pura emoção, como quando o protagonista conta sobre o acidente que interrompeu seus sonhos ou o momento em que faz as pazes com seu irmão e chefe. Para tanto, o ator Eduardo Verástegui aparece em cena com duas caracterizações diferenciadas para marcar momentos distintos de seu personagem que são intercalados graças a narrativa fragmentada adotada. Em um primeiro momento, aparece jovem e feliz em um grande momento profissional, mas depois surge cabeludo e com barba por fazer trabalhando em um ambiente que não lhe agrada muito. O encontro de José e Nina serve para que os dois compartilhem seus anseios, frustrações e culpas e assim finalmente se sintam completos. É a velha história da metade da laranja. Um detalhe curioso é que o roteiro não segue o esquema folhetinesco de obrigatoriamente interligar a vida dos personagens. Praticamente todo o longa é centrado no casal principal e nem mesmo o tal pai do bebê da jovem dá as caras e sequer tem nome. 

A grande lição desta obra é mostrar que para tudo existe uma saída, sempre há tempo para recomeçar e que é preciso prestar atenção nos pequenos detalhes do dia a dia, como um simples almoço em família, para perceber que a vida vale a pena e que pequenas lembranças do tipo são muito maiores que qualquer problema. A Bella do título é o resultado final das lições que Nina e José tiveram em um único e marcante dia. Com diálogos que intercalam inglês e espanhol (no idioma original), este é o primeiro longa de Alejandro G. Monteverde que logo de cara venceu o prêmio de melhor filme do júri popular do Festival de Toronto em 2006, apesar de não inovar na direção e usar os manjados truques da câmera lenta, filmar detalhes de ambientes e expressões e aumentar a potência da trilha sonora nos momentos propícios para levar o público às lágrimas. Em resumo, Bella é uma mistura interessante do jeito estrangeiro de filmar e narrar com os vícios comuns do cinemão americano. Sem muitas pretensões, uma produção agradável, reflexiva e rápida liberada para assistir com toda a família.

Alternativos - 91 min - 2006 - Dê sua opinião abaixo.

2 comentários:

renatocinema disse...

Seu texto me instigou.

Sempre procuro filmes fora do "padrão".

Será uma ótima opção.

Luís disse...

Nunca vi o filme, mas concordo com o comentário acima: o seu texto é instigante e fez com que eu quisesse assistir a esse filme, o qual vou procurar.

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