sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

AMOR OBSESSIVO (2004)

NOTA 6,5

Drama segue caminho do
mistério para falar sobre
obsessão em diversos níveis
a partir de um acidente
O ser humano é um bicho esquisito. Todos provavelmente já ouviram ou mencionaram esta frase várias vezes e o cinema, por sua vez, tratou de transformar o seu sentido em imagens e isso não é uma referência aos inúmeros filmes infantis que usam o tema humano encarnado em animal. Os conflitos psicológicos já ganharam espaços em comédias, dramas, suspense, enfim já trafegaram em todos os gêneros, afinal de contas, uma história só acontece se os seus personagens tiverem um mínimo de memórias ou referências, ainda que sejam as mais toscas possíveis. Felizmente, existem enredos que seguem o viés de se aprofundar no mundo misterioso dos pensamentos e emoções e Amor Obsessivo é um deles, abordando o tema obsessão de várias formas. A premissa é a seguinte: em um agradável dia ensolarado, o professor e escritor Joe Rose (Daniel Craig) vai com sua namorada Claire (Samantha Morton) fazer um piquenique em um parque. Tudo corria bem até que ocorre um acidente de balão nos arredores e o rapaz tenta ajudar assim como outro frequentador do parque, Jed Perry (Rhys Ifans), mas o ocupante do balão, um médico, não se salva. O rápido e casual encontro entre esses dois homens acaba se transformando em um pesadelo, pelo menos para um deles. Jed passa a seguir Joe por onde ele vá e em todos os locais tem uma desculpa na ponta da língua para explicar porque estava lá. Com o tempo, a situação passa dos limites tirando a concentração do professor e atrapalhando sua vida pessoal, enquanto Jed demonstra sinais claros de perturbações mentais que podem levá-lo a atitudes extremas. 

A partir deste acidente, a vida de alguns indivíduos muda radicalmente. De alguns poucos minutos e algumas palavras trocadas, um rapaz perturbado cria em sua cabeça uma inesperada relação de fanatismo ou desejo que pretende vivenciar a todo custo. O outro fica atormentado pelo fato de ter sido o primeiro a largar o balão e assim, possivelmente, ter provocado a morte de uma pessoa. A esposa do falecido encontra um lenço de uma mulher no carro do marido e encasqueta que estava sendo traída e agora quer descobrir quem seria a outra. Em meio a tudo isso, a companheira do professor tenta entender tudo o que aconteceu a partir do acidente e com todas as pessoas envolvidas. Com este material e sem estar sob a batuta de grandes estúdios, o diretor Roger Michell conseguiu imprimir seu ritmo inglês de fazer cinema, dando um clima contemplativo a seu filme que em certos momentos parece filmado com câmera na mão para realçar a sensação de voyeurismo que o espectador deve sentir em relação ao tema obsessão, mas tudo bem longe de parecer um filme caseiro ou mal feito. Dito isso, muitos já devem pensar que esta produção é arrastada e chata, mas podem se surpreender com sua receita, tanto positivamente quanto negativamente. O cineasta mistura ritmo relativamente lento, enquadramentos sombrios e outros que privilegiam sequências insólitas, poucos diálogos e muitos olhares de contemplação, além de uma ambientação bucólica e tão fria quanto as relações dos personagens. Tudo isso são recursos utilizados para mostrar as diversas maneiras que um fato pode ser interpretado ou documentado. Por exemplo, um casal namorando em um parque e a poucos metros um acidente acontecendo podem gerar várias versões. Quem viveu a ação a percebe de uma maneira. Aqueles que acompanham a distância de outra. Dentro de cada um desses grupos, cada indivíduo também lança sua visão acerca dos fatos. Complexo, não? Mas assim é o ser humano e, consequentemente, a sociedade.

Seguindo o caminho do mistério, é curioso saber que Michell é o responsável pelos agradáveis Quatro Casamentos e Um Funeral e Um Lugar Chamado Notting Hill. Deste último ele trouxe o ator Rhys Ifans, que se destacou como o amigo desligado de Hugh Grant na comédia romântica. Antes boa praça, aqui ele aparece de uma maneira que a certa altura o espectador até se sente incomodado, prova que sua interpretação é convincente. Ele consegue mudar suas atitudes aos poucos dando a exata medida do progresso de sua loucura. Seus constantes encontros com sua paixão platônica evidenciam o final desta mórbida relação. Como já dito, o cineasta gosta de trabalhar com os vários vértices de um acontecimento ou tema, assim, a jogada do encontro de dois mundos opostos aqui ganha outro verniz. Fama e anonimato vistos de outra forma. Se antes, na romântica Nottinh Hill, a fama da personagem de Julia Roberts e o anonimato do de Grant resultaram em um relacionamento positivo, neste caso o diretor optou pelo viés da neurose que se estabelece entre a quase invisibilidade de um anônimo e sua fixação pelo certo prestígio de um professor para explicitar seus pensamentos. Enfim, existe um interesse do cineasta em trabalhar com os efeitos que os acasos provocam e isso ele também encontrou no livro de sucesso do autor Ian McEvan, "Reparação", uma obra que não é qualquer um que digere com  facilidade, assim como o filme que foi lançado no Brasil em DVD já com o título de Amor Obsessivo. Antes era conhecido como Amor Para Sempre. A mudança foi benéfica e transmite melhor a idéia da obra que, como tudo na vida, pode ser considerada excelente por alguns, mediana por outros e ruim pela maior parte dos espectadores, justamente a quem ela não se destina. São as várias interpretações de um mesmo produto. O roteiro intrigante, cheio de tensão, angústia e narrado de forma peculiar se adequa ao que espera seu público alvo que provavelmente também deve ter lido o romance no qual o filme se baseia. Todavia, não é uma opção para quem procura apenas distração, ainda que com algum conteúdo.

Drama - 100 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

renatocinema disse...

Adoro o contexto obsessão e adoro a atriz Samantha.

Boa opção.

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