sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

GRITO DE HORROR

NOTA 8,0

Filme sobre o mito do
lobisomem é beneficiado
por seu envelhecimento e
por trucagens caseiras
A década de 1980 foi uma época muito fértil para o gênero terror e muito do que foi produzido naquela época rende frutos até hoje, mas os grandes filmes não são esquecidos. Muitos consideram que as melhores produções de horror são datadas deste período, desde as mais trashs até as mais elaboradas. As novidades da época conspiravam a favor. Os jovens, o público alvo, estavam mais independentes e liberais e mais a frente a popularização dos videocassetes e videolocadoras só vieram a ajudar a fortalecer a crescente corrente dos produtos de terror e suspense. Se o cinema proibia a entrada de menores de idade para ver esses tipos de filmes, as locadoras, outrora chamadas de videoclubes, eram a solução já que não havia uma fiscalização e regras claras para este tipo de estabelecimento. Na base da amizade, sempre os atendentes davam um jeito de liberar uma fita para adolescentes fazerem aquela sessão de cinema no sabadão a noite com direito a muitos sustos e roer de unhas. Bem, esses são fatos marcantes e nostálgicos do final daquela década, mas certamente filmes lançados no início desse período colaboraram para chegarmos a tal resultado e Grito de Horror é um deles. A produção é lembrada como um dos melhores e mais assustadores terrores do cinema e até hoje seu argumento e narrativa continuam muito bons e perfeitamente aceitáveis, apesar de que o visual envelheceu bastante, mas longe disso ser um problema, pelo contrário, a atmosfera de suspense foi até acentuada.

O diretor Joe Dante, um pupilo de Steven Spielberg, hoje em dia é conhecido por projetos mais leves e do tipo família, mas no passado ele deixou muita gente de cabelo em pé com seus filmes de baixo orçamento que uniam terror e humor em doses perfeitas. Neste caso, o cineasta reimaginou o mito do lobisomem, na época já muito explorado pelo cinema, incluindo uma obra clássica da década de 1930, e que até hoje rende algumas fitas. O longa não começa como podemos imaginar quando o assunto é o tão temido monstro que mistura características de um animal com as de um humano, o que torna a introdução em certos aspectos bem original. Tudo começa quando a apresentadora de um telejornal, a jornalista Karen White (Dee Wallace), por pouco não foi vitimada por um serial killer quando se ofereceu para participar de um plano para a polícia capturá-lo e de quebra ter um furo de reportagem para seu programa. Aconselhada a tirar alguns dias para descansar, ela vai para uma clínica no meio do campo, bem longe da cidade, para superar seu trauma. Seu marido, Roy Bill (Christopher Stone), também a acompanha neste local administrado pelo misterioso Dr. George Waggner (Patrick Macnee), adepto de práticas pouco comuns da psiquiatria. Em meio a um ambiente onde a paz parece reinar absoluta, o médico propõe que o lado selvagem das pessoas deve ser libertado para que elas sejam curadas. Assim, a cada dia que passa, Karen fica mais atormentada com o comportamento estranho do companheiro ao se aproximar da sedutora Marsha (Elisabeth Brooks), os barulhos arrepiantes de uivos de lobos a noite e as mortes misteriosas que acontecem no local. Dessa forma, a jornalista acaba se tornando a protagonista de uma história de arrepiar e que poderia muito bem ser destaque em seu próprio noticiário da TV.

Nesta produção, na qual Dante se fixou na idéia de querer assustar as platéias e deixou os risos em segundo plano, o roteiro acerta ao não ficar tentando explicar as origens do folclore do lobisomem e se limitando as características e comportamentos já conhecidos deles. Foi original ao explorar pela primeira vez de forma explícita a analogia entre a figura da fera com a sexualidade e violência reprimidas dentro dos humanos. O excêntrico tratamento oferecido pelo médico do campo onde a protagonista se refugia é baseado justamente nessa relação e ele tenta libertar o lado bestial das pessoas literalmente. As cenas em que os atores se transformam em lobisomens merecem destaque e não deixam nada a dever aos modernos efeitos especiais. Tudo bem que a transformação da atriz Dee Wallace no final é ridícula, mas vale a pena prestar atenção na cena de Robert Picardo, dono de um olhar amedrontador, uma sequência relativamente longa e que mostra em detalhes a transição da figura humana para a besta, com direito a verossímeis movimentos faciais e corporais e respiração ofegante. Dá para sentir com perfeição o desejo da fera em dilacerar suas vítimas. O clima de suspense é potencializado com bons truques de iluminação e de câmera que, além de arrepiar, causam um interessante efeito de claustrofobia ou dos personagens estarem sempre sendo observados pelas criaturas do mal, sem contar a boa edição que ajuda a manter a adrenalina nos pontos chaves. Como o que é bom no caso do cinema não precisa necessariamente durar pouco, Grito de Horror permanece com sua aura assustadora e com um delicioso apelo nostálgico, além do fato de ter aberto caminho para Um Lobisomem Americano em Londres e A Hora do Lobisomem, outras duas produções clássicas do monstro naquela década, ganharem as telas. Em tempo: é curioso ver estes filmes de terror de sucesso e perceber que o elenco não teve a mesma sorte. Será mesmo que mexer com as coisas do mal traz azar? Mistério...

Terror - 91 min - 1981 - Dê sua opinão abaixo.

Um comentário:

renatocinema disse...

Anos atrás, em minha visão, eramos mais felizes no cinema, no rock, na literatura......... nostalgia pura.

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