terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

TRAÍDOS PELO DESTINO

NOTA 6,5

Drama coloca dois homens
em lados opostos de uma
mesma situação, um caso
complexo e reflexivo
Hoje em dia em que acompanhamos pela televisão, jornais e internet tantas tragédias em tempo real, inclusive várias que são cometidas por pessoas da própria família e envolvendo crianças, é difícil desligar a mente e não pensar em tais situações. Todos já devem pelo menos uma vez na vida ter imaginado como iriam reagir diante de um acidente fatal com algum familiar ou, pior ainda, se fosse o responsável pelo mesmo. A fúria da pessoa que sofre a ação ou a culpa do possível responsável, mesmo que o ocorrido fosse sem intenção alguma de causar a morte de alguém, pode transformar radicalmente suas vidas e a de outras pessoas que os cercam. É por esse viés que o roteiro de Traídos Pelo Destino trafega. O casal Ethan (Joaquin Phoenix) e Grace Learner (Jennifer Connelly) está voltando para a casa com seus filhos Josh (Sean Curley) e Emma (Elle Fanning) após um evento escolar. No caminho, eles fazem uma parada e o menino aproveita para sair do carro. Ao mesmo tempo, Dwight Arno (Mark Ruffalo), um advogado divorciado, está levando seu filho Lucas (Eddie Alderson) de volta para a casa da ex-esposa, Ruth (Mira Sorvino), após passarem o dia juntos. Num momento de distração, Dwight acaba perdendo a direção do carro e atropela Josh, mas no desespero segue sua viagem e não presta socorro. Ethan vê em um relance qual era o automóvel, mas corre para socorrer o filho, que acaba não resistindo e morre. Como a polícia não está tendo bons resultados com as investigações, este desesperado pai de família decide procurar uma empresa de advogados particulares e, por obra do destino, acaba sendo encaminhado para ser auxiliado pelo próprio assassino do filho que tenta se esquivar da punição.  

É difícil imaginar o que se passa nas cabeças das pessoas que já passaram por situações como esta que, infelizmente, acontecem na realidade com uma frequência maior do que podemos imaginar. O pai que perdeu o filho fica remoendo o sentimento de ódio e ao mesmo tempo se sente de mãos atadas. O outro pode seguir sua vida normalmente como se nada tivesse acontecido ou sentir o peso da culpa em sua consciência. O grande tema deste filme é mostrar como uma tragédia abala as estruturas das duas famílias destacadas e como o destino pode ser ingrato ou justo ao unir os caminhos de dois homens em lados opostos de uma mesma situação, apesar da dor reger os sentimentos de ambos. Esta produção do cineasta Terry George, do também dramático Hotel Ruanda, é bem intencionada, mas o desenvolvimento da história deixa um pouco a desejar. Além do ritmo arrastado, a trama é bem mais apoiada nas ótimas interpretações de Phoenix, o pai extremamente alegre do começo do filme que se transforma em uma pessoa indecisa e que cultiva um ódio crescente dentro de si, e Ruffalo, um homem que aparentemente vive feliz com seu filho, mas que não consegue cicatrizar a ferida que o acidente deixou dentro dele. As longas sequências de silêncio são angustiantes, mas compreensíveis dentro da concepção do cineasta para tratar de um tema difícil e depressivo, porém, se alguns dramas pecam justamente pelo excesso de trilha sonora manipuladora, aqui ela faz falta em diversos momentos que careciam para dar mais emoção ou quebrar a sisudez do texto.

Se este filme é arrastado e não é bem desenvolvido do começo ao fim, então por que indicá-lo? Traídos Pelo Destino não é realmente uma obra excepcional, mas deve agradar a um público mais seleto, apesar de ter potencial para conquistar a atenção de platéias maiores, mas quem deseja assisti-la precisa estar preparado para uma história densa, reflexiva e que pode nos trazer lições positivas. Com personagens e conflitos bem construídos e um elenco excepcional, o grande incômodo desta produção é que o tema é complexo demais e aponta muitos caminhos a serem analisados, algo que um produto como este, modesto até certo ponto, não teve condições de abraçar. Geralmente as platéias se envolvem com os dramas de quem são as vítimas, mas aqui também é explicitada a triste situação do, digamos, vilão. Ele não teve culpa, mas aconteceu uma morte e surge a dúvida em se entregar ou não à polícia. A acusação de um membro de uma família destruída pode significar o rompimento de outra. Dessa forma, o espectador sente uma carga dramática muito pesada nos personagens e fica difícil se decidir por qual desses homens fragilizados torcer. Ambos têm motivos para sofrer. Ambos não tiveram culpa dos acontecimentos. Ambos querem paz. Aos olhos da justiça, um deles precisa pagar pelo seu erro, mesmo sendo uma fatalidade o que ocorreu. Questões complexas, mas que o longa expõe com perfeição para suscitar a discussão dentro do tempo disponibilizado. Este é seu grande mérito.

Drama - 102 min - 2007 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

renatocinema disse...

Esse "sofrimento" que o filme (que ainda não assisti) apresenta me lembra do longa-metragem estrelado por Jack Nicholson "Acerto Final".

Pai perde o rumo ao perder a filha em morte trágica.

Gostei muito do filme de Nicholson.

Esse pode ser outra boa opção.

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...