segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O MESTRE DA VIDA


NOTA 5,0

O tema da relação entre
mestre e aprendiz ganha
mais uma versão, mas fica
devendo em emoção
A relação entre uma pessoa que ensina e outra que aprende algo já foi explorada pelos cinemas de diversas formas, sendo a mais comum o manjado enredo do professor de escola que muda a vida de um aluno problemático ou até mesmo de uma turma através de sua forma carismática e correta de lidar com os seres humanos, não se aproveitando da autoridade implícita em seu cargo para mandar e humilhar. O mesmo tema já ganhou outras roupagens usando a relação de mestre e aprendiz através do viés do profissional que ensina tudo o que sabe sobre sua arte para um iniciante, da mesma forma que um pai passa ao filho importantes ensinamentos, em outras palavras, educa e o prepara para a vida. O fato é que no quesito carreira, nem sempre é dentro de casa que encontramos os exemplos necessários e aí precisamos buscar a essência do que desejamos com outras pessoas. Karate Kid, Encontrando Forrester e Poder Além da Vida são apenas alguns exemplos de produções que já exploraram a temática, mas parece que a receita é uma das preferidas de cineastas e roteiristas não só americanos, mas de todo o mundo. É sempre aquela história do mentor famoso e respeitado que prefere viver isolado e por vezes é mal humorado, enquanto aquele que tem o desejo de aprender é um jovem com grande potencial, mas que não sabe como desenvolver seu talento e até é incompreendido pela família e amigos. Hoje filmes do tipo dificilmente surpreendem, são razoáveis ou nem isso e pode-se até dizer que eles vivem de um nicho específico de público que deseja sempre se abastecer com mensagens e emoções repetidas e, obviamente, das pessoas que trabalham com educação ou até mesmo em grandes empresas, até mesmo de nível internacional. O atrativo para essas pessoas é o fator emocional e social dos enredos. Não se pode detonar um trabalho só pelo fato dele repetir fórmulas, é preciso respeitar as platéias as quais se destina este tipo de produto, mas realmente é difícil avaliar O Mestre da Vida sem pensar nos tantos outros filmes parecidos que já foram lançados e a maioria, infelizmente, esquecidos, alguns até justificadamente.

Baseada em fatos reais, a história é sobre John Talia Jr. (Trevor Morgan), um talentoso e tímido estudante que sonha em se tornar um grande artista plástico. Ao tentar vender uma de suas obras, ele descobre que é vizinho de um grande pintor russo, Nicoli Seroff (Armin Mueller-Stahl). Disposto a trocar idéias e aprender com o mestre, o jovem vai até a sua casa e se surpreende. Seroff não só desistiu da arte como também da vida e deseja ficar em paz e recluso até seu fim. Mesmo assim, após muita insistência, o pintor convida John para passar uma temporada em sua casa de campo e com a convivência o estudante aprende a ver o mundo através de olhos mais críticos enquanto o mestre reaprende a ver a vida através dos olhos da inocência novamente. Só pelo título, que deixa explícito o conteúdo, os mais sentimentais já devem se entusiasmar e a sinopse só comprova as expectativas. Típico filme edificante, o drama autobiográfico é dirigido por George Gallo, roteirista dos totalmente inversos Fuga à Meia-Noite e Bad Boys. Ele pulou dos filmes de ação e suspense para embarcar em uma história melancólica cujo cenário paradisíaco e bucólico é um convite para os que gostam de pensar na vida e apreciar a natureza e a arte, justamente o que necessitam os protagonistas, cada qual por suas próprias razões. Obviamente ninguém deve esperar surpresas, o final é previsível como tantos outros filmes do tipo. O problema é que o roteiro força uma emoção que não chega a atingir o espectador. Os motivos opostos que juntam duas pessoas de gerações diferentes por intermédio da pintura não são suficientes para fazer com que exista identificação com tais tipos. Talvez a direção de alguém mais habituado com produções dramáticas fizesse a diferença, pois falta desenvolvimento nos perfis para tornar essa relação afetiva e profissional bem mais verossímil. Nem mesmo o relacionamento de John com uma vizinha deixa sua trama mais interessante, sendo até mesmo algo desnecessário.

Bem, se o roteiro é questionável quando o assunto são os personagens e suas ligações, pelo menos ao falar de arte o longa se mostra competente. São levantados diversos pontos interessantes como, por exemplo, as diferenças de como um produto artístico é apreciado usando o emocional e quando de forma intelectual, ensinamentos preciosos que podem até ser absorvidos e transformados pelo espectador para também poder analisar um filme, como neste caso. A força do filme não se concentra nas lições e mensagens bonitas a respeito da vida e nem mesmo nas interpretações, mas reside no visual que desperta agradáveis sensações e emoções. O próprio material publicitário (capa e trailer) já deixa essa impressão no ar. Os belos enquadramentos de câmera ajudam a prender a atenção e os amantes de artes plásticas devem se deliciar com as dicas dadas para compor uma bela paisagem na tela, chegando ao ápice com a cena em que finalmente mestre e pupilo se entendem e juntos fazem um quadro. Relacionando com a mensagem destacada no início do parágrafo, podemos concluir que O Mestre da Vida deixa a desejar no aspecto intelectual, mas se salva no emocional. Trocando em miúdos, para os críticos de plantão, que gostam de esmiuçar as particularidades, uma obra piegas e totalmente esquecível, mas para boa parte do público comum, que analisa mais superficialmente e guiando-se pelo visual, um belo filme com qualidades a serem ressaltadas. No conjunto, o resultado é menos emocionante do que o sugerido, mas garante uma sessão da tarde descompromissada e bonitinha.

Drama - 107 min - 2007 - Dê sua opinião abaixo.

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