segunda-feira, 5 de março de 2012

A PREMONIÇÃO

NOTA 6,5

Maçãs, crianças e um cara
suspeito povoam os
pesadelos de uma mulher
em suspense irregular
Apesar de poucas pessoas assistirem aos comentários dos diretores contidos nos DVDs e a maioria nem mesmo oferecer tal bônus, para o lançamento de alguns filmes deveria ser uma exigência obrigatória as explicações de seu criador cena por cena e este seria o caso de A Premonição, um thriller psicológico que se apóia em um elenco de peso, clima sombrio, passagens interessantes, mas também várias sequências mal encaixadas ou que deixam o espectador com uma eterna incógnita. Partindo da idéia de que um assassino está seqüestrando meninas e uma mulher consegue prever esses acontecimentos, o roteiro trabalha bastante com temas que envolvem perturbações da mente, mas não consegue fugir dos chavões do gênero. Tudo começa quando a escritora e ilustradora de livros infantis Claire Cooper (Annette Bening) passa a ser atormentada por sonhos premonitórios que parecem ter algo a ver com uma onda de assassinatos de meninas e sempre existem maçãs pontuando estes delírios. Quando sua filha Rebecca (Katie Sagona) desaparece, ela descobre estar psiquicamente ligada ao possível responsável pelos crimes que andam ocorrendo na região. As suas perturbações chegam a um nível insuportável que obriga seu marido Paul (Aidan Quinn) a procurar ajuda médica para ela. Internada com um quadro de surtos psicológicos, nem mesmo seu médico, o Dr. Silverman (Stephen Rea), acredita nos pesadelos que a paciente relata, mas quando resolve mudar de idéia já é tarde demais. No próprio hospital novas pistas surgem e Claire finalmente consegue se aproximar de Vivian Thompson (Robert Downey Jr.), o misterioso homem dos seus sonhos.

Seguindo os clichês de outras produções do tipo, a protagonista é desacreditada por todos por já ter apresentado um quadro de alucinações no passado e ter sofrido recentemente um acidente e o baque de perder a única filha. Já o assassino é um perturbado mental que, para variar, teve problemas na infância envolvendo seu relacionamento com sua mãe, o problema básico de nove em cada dez vilões do cinema. O personagem Vivian, intencionalmente ou não, é uma mistura de três grandes criações amedrontadoras do cinema: o poder de entrar nos sonhos é de Freddie Krueger (A Hora do Pesadelo), o afogamento na infância fez parte da história de Jason (Sexta-feira 13) e a fixação pela figura da mãe é característica de Norman Bates (Halloween). A mistura poderia ter resultado em um personagem marcante e que pouco a pouco deixaria escapar pequenos detalhes que ajudariam o espectador a compreender o mundo em que ele vive, mas não é o que aconteceu. Robert Downey Jr., na época já passando por problemas com vícios, se esforça, mas não convence muito como um assassino perturbado, embora seu personagem cresça ao lado da competente Annette Benning que também faz o que pode para segurar a atenção do espectador tentando dar credibilidade a algumas cenas que no conjunto final acabam destoando e seriam desnecessárias como o susto provocado por um rádio que começa a tocar música do nada em pleno jardim ou um ataque de fúria da perturbada mulher que joga todas as maçãs que encontra em casa dentro do triturador da pia, uma cena digna de um trash movie dos anos 80.
 
Escrito e dirigido por Neil Jordan, dos cultuados Traídos Pelo Desejo e Entrevista com o Vampiro, aqui o experiente e elogiado cineasta não consegue sucesso do início ao fim, começando muito bem sua narrativa, escorregando lá pela metade e literalmente jogando seus personagens principais em um precipício na conclusão. Certas passagens deixam a dúvida se são delírios da protagonista ou se são truques do vilão para atraí-la e no fim acabamos meio sem entender claramente o que existe de tão forte entre eles para que Claire passe a ter visões como se seguisse os passos do vilão. Embora a mistura de sonho e realidade costurada por mensagens subliminares e símbolos religiosos ou assustadores resulte em uma narrativa irregular e com diversas pontas soltas, o espectador consegue se sentir intrigado e tentado a seguir pelo mesmo caminho fantasmagórico pelo qual Claire transita, mesmo quando não seja em terra firme. A água tem um papel importante aqui. A região em que a história se passa abriga uma represa que esconde no fundo uma cidade que foi inundada, local em que se encontram os motivos dos problemas de Vivian e também palco de boa parte dos sonhos da escritora, onde ela consegue se encontrar com sua filha falecida precocemente. A Premonição é um filme que ficamos com pena em classificar de regular para baixo, mas não tem jeito. Apesar da premissa e visual interessantes que envolvem o espectador e até de um final que está longe de ser vergonhoso, ao término ficamos com a sensação de que não estamos satisfeitos plenamente, muita coisa ficou sem resposta ou merecia ser mais detalhada. Todavia, vale uma conferida e é uma opção para matar o tempo. Jordan bem que tentou achar o equilíbrio entre o cinema comercial e o alternativo ao qual tanto se dedica, mas neste caso não teve sucesso.

Suspense - 99 min - 1999 - Dê sua opinião abaixo.

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